quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Fora com os missionários

 

“Fora com os missionários em terras de índios isolados”: a manchete de Hélio Schwartsman para a Folha de S. Paulo (27 set 2021) parece ter enfurecido a bancada da Bíblia no Congresso, também em guerra com o ministro Luís Roberto Barroso, do STF. Foi ele quem reafirmou decisão da corte, proibindo a presença de missões religiosas em território de índios isolados, durante a pandemia. 

A citada bancada afirma que a decisão é “orientada por ideologia declaradamente anticristã” e promove “perseguição religiosa”.

Replica Schwartsman: “Besteira. O Supremo não proibiu apenas missionários cristãos de contatar os índios, mas “quaisquer terceiros, inclusive membros integrantes de missões religiosas”. Na verdade, ao esclarecer o alcance da decisão, Barroso até que pegou leve com os cristãos, pois permitiu que as missões que já estavam nas aldeias antes da epidemia nelas permanecessem.”

O articulista da Folha reafirma sua posição : “Na minha modesta opinião, tratando-se de índios isolados ou semi-isolados, o correto seria proibir, em qualquer tempo, não só na pandemia, quaisquer contatos, principalmente os de missionários. Exceções só para emergências. Já o missionário, quando chega a uma aldeia, vai com o propósito específico de destruir a cultura local. Ele, afinal, dirá que tudo aquilo em que os índios sempre acreditaram está errado. E a morte da cultura, como sabemos, é o prelúdio do alcoolismo, do suicídio e outras mazelas que costumam afetar índios aculturados.” (Grifo meu.)

Shwartsman conclui corajosamente: “O Estado é laico, o que significa que, independentemente do número de deputados evangélicos, a crença em Tupã goza da mesma proteção que a crença no Deus cristão. Aliás, como Michael Shermer sempre lembra, nos últimos 10 mil anos, os homens produziram cerca de 10 mil religiões com ao menos mil deuses. Qual é a probabilidade de que Jeová seja o verdadeiro e Zeus, Baal, Brahma, Odin, Tupã e mais 994 sejam todos falsos?”

Ele está a falar do respeito às diferenças, apenas isso.

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2021/09/fora-com-os-missionarios-em-terras-de-indios-isolados.shtml

 

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Efêmero



 

Com a chegada das chuvas, numa manhã de céu azul e sol de primavera, plantei em meu jardim muda de ipê, alheio à sua natureza, se roxo, amarelo ou branco. Certeza mesmo, apenas que não o verei florir.

Isso fez brotar em mim sentimento de quase felicidade, leveza amena, meigo desprendimento, desapego enfim de saber o meu lugar na vida, no mundo.

Produziu em mim a calma de antecipar que a árvore há de florir na minha ausência e será grandiosa, admirada por todos que a virem, porque será bela e 

porque é árvore.

      A súbita percepção tornou a vida um rio fluido e fácil, a remover em seu caudaloso leito todo o peso da pedra, dos nós, das farpas e quinas, a lavar qualquer culpa ou responsabilidade por me saber passageiro, mais efêmero que o próprio ipê.

      Alguém há de cuidar que cresça forte e sadio a pequenina muda de ipê que plantei em meu jardim. Isso me basta, fiz o que pude.



segunda-feira, 27 de setembro de 2021

sábado, 25 de setembro de 2021

A Darwin o que é de Darwin

 

Em sua crônica de hoje (24 set 2021) para a Folha de S. Paulo, Na vacinação, a Darwin o que é de Darwin, Hélio Schwartsman encontra resposta para um enigma que tenho sido incapaz de decifrar, desde o início dessa pandemia. Por que algumas pessoas – e são muitas pessoas, no Brasil e no mundo! – não aceitam se vacinar contra a covid-19?!

            O país desfruta de reconhecida capacidade para vacinação em massa contra várias doenças, das quais se destaca a poliomielite, afecção gravíssima erradicada graças à imunização. Nos primeiros anos da Faculdade de Medicina aprendíamos que uma boa anamnese deveria conter o registro das chamadas ‘doenças comuns da infância’, que se tornaram cada vez menos comuns. Naquela época não se ouvia falar em recusa de vacinação.

            A imunização anual contra a gripe tornou-se rotineira entre nós, com resultados espetaculares, igualmente com pouca ou quase nenhuma recusa.

            Por que agora, diante de vírus altamente contagiante e muitas vezes mortal, considerável número de pessoas, mesmo em países ditos civilizados, com altos índices educacionais, esse tal negacionismo e a inaceitação da vacina? Dizem que a razão é ideológica. Que ideologia é essa, que mais parece suicídio? 

            Os judeus ortodoxos são contra a vacinação, mas não posso compreender que o D`us deles seja contra uma medida que vise preservar a vida. Soa mais como certo tipo de fundamentalismo, o religioso.

            No Brasil, tal ideologia parece estar ligada à extrema direita; igualmente me é incompreensível que determinada posição política seja contra a vida. Talvez se trate mesmo do fundamentalismo político, tão burro quanto o religioso. Em tempo: Todo Fundamentalismo É Burro.

            Antes que minha irritação aumente, vamos ao Hélio Schwartsman, que nos oferece brilhante explicação para tanta insanidade. Ao comentar o papel do Estado, que não deve utilizar de violência para obrigar pessoas a se vacinarem, ele assim termina sua crônica:

 

“O Estado deve oferecer e convencer. Na emergência, pode pressionar. Mas, a partir de certo ponto, a recusa obstinada deve ser interpretada como um autossacrifício darwiniano pela melhoria da espécie.”

            

            Portanto, a Darwin o que é de Darwin!

 

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2021/09/na-vacinacao-a-darwin-o-que-e-de-darwin.shtml

 

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Área de Cerrado

 





Outra vez, capa de livro

Em 22 de dezembro de 2014 (!) este blogueiro publicou:

 

Capa de livro

 

 

uma bela capa

a flor rubra no jardim

chamariz de abelhas

 

 

Vendem-se livros principalmente por causa do autor, do conteúdo, do gênero, do título, mas também pela capa. A imagem da capa funciona como um chamariz, palavra oriunda do latim clamare, chamar, convocar, daí chamariz (1813), coisa que chama, que atrai, segundo Antônio Geraldo da Cunha, em seu Dicionário etimológico da língua portuguesa (Lexicon, 2007).

https://loucoporcachorros.blogspot.com/2014/12/capa-de-livro.html  A crônica é longa e pode ser lida no link acima.

 

            Comento sempre, ao postar resenha de algum livro, além do conteúdo, a arte da capa. Gosto disso. Houaiss registra o verbete capista: profissional que cria capas de livros, discos etc. Eu acrescento: um artista que cria capas... 

            Por quatro ou cinco vezes estive diante da tarefa de compor uma capa de livro, mesmo não sendo um artista, e asseguro que foram experiências interessantíssimas!

Hoje, ao terminar a leitura de O ar que me falta, de Luiz Schwarcz, editado pela Companhia das letras, 2021, não posso deixar de registrar minha enorme admiração pela capa do livro, de autoria de Alceu Chiesorin Nunes, um artista de primeira. 

 




 

            Simplicidade maior não pode haver; não há qualquer imagem; apenas duas cores, vermelho e preto, no fundo levemente amarelado. 

As palavras do título, em caixa alta, estão contidas em um retângulo de grossas linhas negras, que oprime, sufoca, faz faltar o ar. A palavra AR se destaca das demais pelo tamanho do tipo; para que o autor – o nome em vermelho no topo do retângulo – não corra o risco de morrer asfixiado, a perna da letra R escapa do retângulo, um respiro.

Abaixo, o longo e autoexplicativo subtítulo: HISTÓRIA DE UMA CURTA INFÂNCIA E DE UMA LONGA DEPRESSÃO, também em caixa alta.

O belo logotipo da editora, cujo editor é o próprio autor, ganha destaque na parte inferior da capa.

Belíssima capa!

 

Laerte ganha prêmio Juca Pato

 


Laerte na Marcha do Orgulho Trans de São Paulo (2019)
Dani Villar/Divulgação

 

“A cartunista Laerte Coutinho foi eleita a intelectual brasileira de 2021 pelo prêmio Juca Pato, da União Brasileira de Escritores, resultado anunciado nesta quinta-feira (23). A paulistana havia sido indicada ao troféu ao lado de nomes como os do escritor Carlos Nejar, da historiadora Lilia Moritz Schwarcz, da escritora Nélida Piñon e da repórter da Folha Patrícia Campos Mello.

Decana dos cartunistas da Ilustrada, a editoria de cultura da Folha, ela publica tiras diárias neste jornal há 30 anos.

Criado em 1962, o prêmio Juca Pato é entregue a autores que tenham publicado obras de sucesso nacional — em qualquer área do conhecimento — que contribuíram para o desenvolvimento do país e da democracia. O troféu premia anualmente um intelectual brasileiro que tenha se destacado.”


Sou fã!!!

 

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/09/laerte-recebe-o-trofeu-juca-pato-de-intelectual-do-ano-de-2021.shtml

Sempre idolatrado

Charge do dia


 Claudio Mor, para a Folha de S. Paulo