sábado, 2 de março de 2019

Pedro Salomão, palhaço e poeta




O vento da liberdade bateu tão forte em minha bandeira,
que ela voou
e virou passarinho.

* * * 
A pessoa que se acha grandiosa
olhou pouco para o céu.


* * *
Eu sou um louco das palavras.
Só me falta literatura para ser poeta.
Não a quero, muito obrigado,
me deixe sangrar. 


* * *

Para construir a casa que tenho construído em mim,
eu precisei passar um longo período limpando
o terreno baldio
em que minha alma se encontrava.
Foram muitas carriolas de entulho jogado fora.
Como está sua construção?

ps. Meus amigos me ajudaram muito.



            A poesia acima é de Pedro Salomão, formado em Geografia, participante de um grupo de palhaços no Hospital do Câncer de Presidente Prudente em 2017.
            O título do seu livro (Ed. Planeta, 2018) chama a atenção: 

eu tenho
sérios
poemas
mentais
            
Também é instigante a espécie de introdução intitulada UMA CRISE A MENOS, UMA CRISE A MAIS, que reproduzo parcialmente.  

“Antes de mais nada, eu gostaria de pedir licença ao seu coração, pois sinto que a relação que vamos criar a partir de agora é muito forte. Eu escrevi neste livro poesias sobre os lugares mais íntimos em mim, aqueles lugares tão profundos que até eu mesmo só consigo visitar às vezes... Estou me apresentando para você como sou, sem rosto, sem voz e sem cheiro. Apenas ideias. E tudo o que sou são ideias.”

            Concluo esta apresentação com mais dois poemas:

A minha insegurança é tanta,
que quando tenho uma boa ideia
não consigo sentir o mérito,
sinto que copiei a ideia de alguém
que mora dentro de mim.


* * *

Eu estou o tempo todo escrevendo.
Mas só às vezes
passo para o papel.


Por fim, uma bela capa, que impressiona pela simplicidade, de autoria de André Stefanini. Gostei muito do livro de Pedro Salomão, principalmente por se tratar de mais um exemplo da Teoria da Escrita Terapêutica. 





quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Salvo pelo gongo


Ameaçado de expulsão pela Diretora, por permanecer calado durante a execução do hino, foi salvo pela professora:
– Ele é surdo-mudo!

O hino


Hélio Schwartsman, articulista da Folha de S. Paulo, por quem não escondo minha admiração, publicou ontem (27.fev.2019) artigo sob o título Eu me orgulho de não saber o hino.
            Ele justifica este ponto de vista: “Cresci nos anos 70. Uma das escolas que frequentei obrigava a garotada a hastear a bandeira e entoar o hino diariamente. Meus pais, quando souberam disso, fizeram questão de me dizer que o governo militar era uma porcaria, mas acrescentaram que eu não deveria repetir isso na escola.” 
            Daí a “sentir orgulho” por não saber o hino, vai uma diferença muito grande. Também eu não sei cantar o hino, mas não me orgulho por isso. A letra é complicadíssima, cheia de palavras rebuscadas, pernósticas, em completo desuso, verdadeira perda de tempo. Já a música é belíssima, um dos hinos mais bonitos do mundo.
            Tudo isso tem pouca importância. Volto à crônica do Schwartsman, para tratar do que realmente importa:

“O nacionalismo é um negócio complicado. Em doses baixas, é um elemento valioso para dar a grupos populacionais cultural e economicamente heterogêneos um senso de comunidade, o que facilita a cooperação. Em doses altas, porém, ele se torna um produto tóxico.
Ambição, sadismo e excesso de autoestima explicam a grande maioria dos atos de violência no planeta. Mas, para chegar aos grandes massacres da história, é necessário introduzir um quarto ingrediente, a ideologia, que costuma aparecer como nacionalismo ou religião.”

            Eis o que sempre faz a diferença, e para pior: a ideologia.


Menstruação, ainda um tabu




Interessantíssimo o vencedor da categoria Melhor Documentário Curta-Metragem: Absorvendo o Tabu (em inglês, Period. End of Sentence.), uma produção Netflix . O documentário de 26 minutos fala sobre um assunto que ainda é tabu em muitos lugares: a menstruação.
Rayka Zehtabchi, cineasta americana descendente de iranianos, mostra a realidade de uma pequena vila rural em Delhi, na Índia, onde muitas mulheres ainda não sabem o que é a menstruação e a consideram algo pecaminoso.  
Para algumas meninas, menstruação é apenas um sangue ruim dentro da mulher e que precisa ser expelido. Para outras, “só Deus sabe o que é”. Há quem diga que tem algo a ver com o nascimento das crianças. Elas sentem muita vergonha ao falar do assunto e têm tanta dificuldade para lidar com o período menstrual que muitas abandonam a escola.
Já os homens, simplesmente o ignoram e não podem proferir a palavra menstruação. Quando perguntados sobre o assunto, permanecem em constrangedor silêncio. Um menino arriscou a resposta: “é uma doença das mulheres”.
A produção de um absorvente “caseiro” muda a vida de muitas mulheres, que experimentam pela primeira vez a possibilidade de serem autossuficientes.
Um ótimo documentário, na Netflix!






quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Tarsila no MoMa



A Lua, de Tarsila (1928): estética antropofágica
Foto: Galeria Paulo Kuczynski


“MoMA compra uma Tarsila da fase antropofágica”, é a manchete publicada por Antonio Gonçalves Filho, para O Estado de S. Paulo (27 fev 2019). A tela A Lua, de 1928, mesmo ano do Abaporu, agora pertence ao acervo do museu americano.
“A Lua sintetiza bem o dualismo dos modernistas, “presos entre a floresta e a escola”, como observou o marido e escritor Oswald de Andrade, falando da fusão do ‘background’ fazendeiro de Tarsila com seu lado cosmopolita europeu”, afirma Gonçalves filho. 
O preço da obra (em torno de US$ 20 milhões, segundo apuração do Estado) não foi divulgado nem pelo MoMA. 
“Nas telas do período metafísico/onírico, Tarsila, segundo Aracy, “dá vazão a uma forma expressiva que tem mais a ver com seu universo subjetivo, de sonho, magia, despreocupada com a representação da realidade exterior”. De fato, na economia formal das paisagens de Tarsila é possível identificar um mundo mágico marcado pela transfiguração – no caso de A Lua, um cacto sugere a figura de um homem na fronteira de um território surrealista, ao qual a própria pintora se rende como manifestação de seu inconsciente, a projeção de um sonho.” 
Outra razão para a escolha de A Lua é que a tela integrou a segunda exposição individual de Tarsila em Paris, em 1928, na Galerie Percier, inaugurando uma fase de um cromatismo explosivo, exótico. Tarsila, segundo Aracy Amaral, não se opunha a ser considerada “exótica”. Antes, observou a crítica, ela “estimulou ou se deixou levar pela etiqueta que nos identifica no exterior a partir do momento em que o Brasil buscava afirmar sua identidade cultural”. 



terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Autorretrato

fotominimalismo





Clique na foto para ampliar.

Foto: AVianna, set 2018.

Vermelho & verde

fotominimalismo



Foto: AVianna, out 2018, jardim

Boi esfolado de Rembrandt




A propósito do postanterior deste blog intitulado Carcaças, reproduzo trechos extraídos do livro  Rembrandt, de Pierre Cabanne (Editorial Verbo, 1993), tradução de Maria João Leal de Faria. (Publicado em 9 out 2011 por Manuel SantAna).

“As cenas de matadouro, como motivo pictórico, podem nos parecer hoje inusitadas mas foram um tema recorrente na pintura flamenga e do norte da Europa. Representado a partir do século XVI por Aersten e Beuckelaer, é igualmente abordado por numerosos contemporâneos de Rembrandt. Os cadáveres de porcos ou de bois esquartejados e suspensos de traves, são frequentemente associados a uma personagem - em geral uma criança - e servem para transmitir a ideia de morte. Este tema fica assim mais ligado à cena de género do que propriamente à natureza-morta.

Rembrandt, talvez o maior pintor flamengo do séc. XVII, mostra-nos a peça como se de um retrato se tratasse: a visão a três quartos é aquela que mais favorece ou informações dá da personagem retratada. A carcaça encontra-se numa espécie de cave, talvez um açougue, num ambiente lúgubre e muito diferente dos talhos que estamos habituados a ver hoje em dia. Está suspensa pelos tornozelos e o externo foi serrado e mantido aberto por uma trave transversal almofadada nas extremidades. O traço é rápido e não se perde em pormenores e a luz, embora difusa, é suficiente para permitir a definição das características anatómicas do malogrado bovino. Existe ainda uma segunda fonte de luz a meia altura, do lado direito, proveniente da divisão contígua e de onde emerge o busto quase imperceptível de uma mulher. Rembrandt inclui quase sempre personagens nas suas obras, não subvertendo, nesse aspecto, a tradição das cenas de matadouro. Porém, entre a versão de 1640 e a de 1655 (aqui apresentada), o papel do personagem foi alterado. A mulher do açougueiro, limpando o sangue derramado sem dar atenção à carcaça do animal, mantém-se agora em segundo plano, contemplando o boi esfolado do vão da porta e fazendo com que o mesmo pareça monumental e como que projetado para diante.

Não será abusivo comparar este animal abatido - pendurado no madeiro e exibido de peito aberto - a uma crucificação. Se assim fosse, a visão alegórica transformaria um mero pedaço de carne no corpo torturado e mutilado de Cristo e o tema assumiria um carácter edificante aos olhos dos contemporâneos do pintor. No entanto, o boi esfolado tornar-se-á apenas "pitoresco" no início do século XVIII, e finalmente será considerado brutal e vulgar no final desse mesmo século. Teremos que esperar pelo século XIX para ver os pintores "copiarem" o mestre, prestando-lhe homenagem: Delacroix, Herbier, Daumier e ainda, mais próximos de nós, Soutine, Fautrier e Francis Bacon.”



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

A casa que Jack construiu




Lars von Trier (Copenhague, 30 de abril de 1956) é um cineasta dinamarquês, vencedor de diversos prêmios de cinema, e que adora polêmicas. Não é um diretor fácil; pertence ao time daqueles que você ama ou odeia. Eu me enquadro na primeira categoria.
          Seu filme Europa (1991) é uma obra prima. Foi vencedor da Palma de Ouro com Dancer in the Dark (2000). Dogville (2003), seguido por Manderlay (2005), Antichrist (2009), Melancholia (2011) e Nymphomaniac (2013), todos foram bem recebidos pela crítica, nem tanto pelo público.
          Em 2018 dirigiu A casa que Jack construiu, com Matt Dillon e Bruno Ganz. É sobre ele que desejo comentar.
          Antes do festival de Cannes começar, o diretor artístico Thierry Fremaux proibiu o longa de participar da competição por ser “muito controverso”. Exibido fora da competição, muitos que compareceram à exibição não estavam preparados para a experiência e mais de 100 pessoas abandonaram a sala de projeção no meio do filme. Ainda assim, o diretor foi ovacionado no final da sessão.
          The House That Jack Built relata a história de um psicopata, interpretado por Matt Dillon, que comete cinco crimes violentos aleatórios, e que prefere matar mulheres. "Os homens já nascem culpados", enquanto "elas são sempre vítimas", ironiza Jack.
          Jack é um psicopata grave, delirante, anedônico, que descobre a certa altura da vida que pode sentir prazer ao matar. Além disso, sofre de transtorno obsessivo compulsivo, o popular TOC, o que acrescenta certa dose de humor à trama, porque depois de cometer um crime ele precisa voltar inúmeras vezes à cena, para conferir se não deixou alguma marca de sangue que não fosse rigorosamente limpa. 
          Em um descampado, ele constrói e em seguida destrói várias vezes os alicerces de uma casa ideal, sempre insatisfeito com o resultado. A metáfora refere-se à sua casa mental, imperfeita, inadaptada à vida social, incapaz de amar. 
          Mais que a morte em si, são as fotos que faz dos cadáveres em posições macabras que o satisfazem; em seus delírios, considera-se um artista.  
          O protagonista narra sua trajetória a um interlocutor, Verge (Bruno Ganz), inspirado em Virgílio, guia do inferno e do purgatório em “A divina comédia” de Dante.  



Bruno Ganz e Matt Dillon.  Foto: Divulgação.
            
Em cenas lentas e monótonas, Jack discorre sobre a alma humana, sobre o papel da arte, fala de uma sociedade indiferente ao gritos de pedido de socorro do ser humano que sofre.  
            Lars von Trier retrata os extremos em seus filmes. Nunca, em minha opinião, um serial killer foi tão bem retratado no cinema, com requintes repugnantes para alguns, como nesse último filme do diretor. A descrição da personalidade psicopática grave é perfeita. 
            Se meu eventual leitor deseja ver o filme, esta é uma pequena preparação. Bom filme.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

curicaca





ao amanhecer
o jardim inda em silêncio
canta a curicaca


Foto: AVianna, fev 2019, jardim

Clique no site abaixo para ouvir a curicaca: