segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Acidente

Da série
Mais 47 cenas de um romance familiar


Sentávamos à mesa alguns minutos antes das onze porque às onze em ponto o almoço era servido, o pai na cabeceira, a mãe no lugar mais próximo da cozinha, os filhos em silêncio. A panela de arroz era destampada e o perfume inundava a sala de jantar.
            Falava-se pouco durante a refeição. Vez ou outra um filho distraído batia com a mão num copo com água ou refrigerante, e o líquido despejado na toalha acarretava no pai reação violenta, que exclamava aos berros: 
– Ôôô lerdeza! 
O responsável pelo desastre tremia de pavor, o almoço estragado.
A partir de certa época, o pai passou a colocar água ou refrigerante apenas até a metade dos copos.


sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Partituras inéditas de Villa-Lobos


Partituras inéditas de Heitor Villa-Lobos 
Foto: Dida Sampaio/Estadão


A reportagem é de João Luiz Sampaio, para o Estado de S. Paulo (10 Ago 2018): encontrado em Brasília manuscrito considerado perdido do compositor Heitor Villa-Lobos.  Trata-se da parte de piano do Concerto Brasileiro para Dois Pianos e Coro, estreado no Rio de Janeiro em 1934 pelo próprio compositor e pelo pianista José Vieira Brandão. O achadofoi realizado pelo pesquisador Alexandre Dias, criador e diretor do Instituto Piano Brasileiro. 
Informa Sampaio que a partitura referente às intervenções do coro já pertencia ao acervo do Museu Villa-Lobos, mas, sem o restante da música. “Na verdade, sem a parte do piano, não dava para entender exatamente o que o compositor buscava alcançar com a partitura. Agora, é possível enxergar com mais clareza o que ele propunha”, explica Dias. 
A história da descoberta começou há alguns meses, quando Márcio Brandão, filho de José Vieira Brandão, procurou o Instituto Piano Brasileiro, criado em 2015 com o objetivo de reunir, digitalizar e editar acervos de compositores e pianistas brasileiros. “José Vieira foi grande amigo, o braço direito de Villa-Lobos, estreou obras como suas Bachianas Brasileiras n.º 3 e o Ciclo Brasileiro”, lembra Dias. “O Márcio tinha 145 pastas grandes com manuscritos, fotos, cartazes, programas, gravações. Para se ter uma ideia, já digitalizamos cerca de 8 mil páginas, e isso corresponde a 10% do material que estava disponível.”
Entre esse material, Diasencontrou uma partitura com a anotação Atrevido, escrita para dois pianos. “Ali o sinal de alerta acendeu, porque o Concerto Brasileiro foi uma homenagem a Ernesto Nazareth, e sabíamos que nele o Villa evocava duas obras dele, Atrevido e Odeon. Comparamos então com a parte do coro e elas se sobrepunham, encaixavam.”
O Instituto Piano Brasileiro é uma iniciativa de Dias, que, ao lado de alguns parceiros, já descobriu peças inéditas de Nazareth, João Pernambuco e Fructuoso Viana, entre outros autores. Em três anos, mais de 200 mil documentos já foram digitalizados, além de centenas de gravações, muitas delas inéditas. 
“No IPB, Dias conta com a ajuda de alguns pesquisadores parceiros, mas, sem patrocínio, depende de uma campanha de crowdfunding para bancar o trabalho, além de investir do próprio bolso no projeto. “Cada material é importante. Quando a última edição de uma obra desaparece, é como um animal que entra em extinção. Mas, mais do que isso, no momento em que tudo é catalogado e digitalizado, é possível cruzar informações, entender a história do piano no Brasil, descobrir novos repertórios, oferecê-los a artistas”, explica ainda.”
 A obra de Villa-Lobos é monumental em qualidade e extensão. Resta muita coisa a ser descoberta, catalogada, editada e principalmente gravada, para alegria de seus admiradores. 



Corujando Ipanema

A foto do dia


Coruja passa temporada na praia de Ipanema

Foto: Heloisa Seixas / Folhapress



Para mais informações, leiam a crônica de Ruy Castro, marido de Heloisa Seixas.


quarta-feira, 8 de agosto de 2018

surpresa em agosto





a grande surpresa
flores-de-maio em agosto
veludo nas pétalas

Desenhado a mão

fotominimalismo






Foto: Paula Vianna, Agincourt Reef, Austrália, 28/7/2017

Suzete e o soco no estômago

Querido André,


conversava eu com uma colega de trabalho no salão de beleza, falava mais do que conversava, falava falava falava afobada, a cabeça fervilhando, turbilhão de preocupações, a sensação de que eu não daria conta, mesmo sem saber bem do que não daria conta. Como se diz aqui no interior, eu estava sofrendo de sistema nervoso.
            Matilde me ouvia com paciência e atenção. Às tantas, me interrompeu e disse:
            – Olha aqui Suzete, nessa vida só há uma urgência incontornável: a caganeira.
            André, quase me urinei de tanto rir!
(Esta cartinha está me saindo escatológica. Às vezes encontro uma palavra que me impressiona muito, como “escatologia”; anoto a palavra no caderninho que carrego sempre comigo; aí vou ao dicionário, aprendo o significado, ou significados; escatologia também trata das teorias ligadas ao fim do mundo!; e fico esperando o momento para empregá-la; quando aparece, não posso perder a chance. Ler e escrever estão misturados para mim. De repente, leio escrevendo. Pode isso? Quem lê, ama as palavras. Quem escreve é louco pelas palavras. Minhas teorias.)
            Passado um bom tempo, sabe que aquilo nunca mais saiu da minha cabeça? Me ajudou mesmo. Engraçado isso, a arte de escolher a palavra certa para ser dita num determinado momento, a palavra que assusta quem a ouve, mas que faça sentido para ela. Pode ser até um soco no estômago, mas precisa fazer sentido para quem o recebe. Uma arte.
            Agora, André, você que é psicanalista, me diga quando e como vamos saber se uma palavra fará sentido para o outro, se é a palavra certa? Nunca jamais em tempo algum! Eu penso. Nada-Nunquinha-Da-Silva sabemos do outro, mesmo que ele esteja próximo de nós. 
            Então, se queremos ajudar uma pessoa em dificuldade como aquela em que me encontrava, devemos arriscar a palavra in-certa, ou melhor permanecer em silêncio? Você me diga.
            A história não acaba aqui; anos depois reencontrei a colega, disse-lhe como eu era grata pela ajuda que me havia proporcionado, na época e para sempre. Admirada, Matilde riu e me surpreendeu mais uma vez:
            – Suzete, você não sabe que tirei aquilo de uma piada que ouvira na véspera. Conversavam um alemão, um inglês e um brasileiro, e o alemão perguntou qual era a coisa mais veloz do mundo? Ele mesmo respondeu que nada era mais rápido que o pensamento. Que nada, afirmou o inglês, a coisa mais rápida é a luz. Ao que o brasileiro arrematou: a coisa mais rápida do mundo é a caganeira; quando chega, não dá tempo de pensar nem de acender a luz. Quase mijei de tanto rir, Suzete.
            Esta segunda parte da história também me deu muito o que pensar. Que sensibilidade da Matilde, aproveitar-se de uma piada para encontrar a palavra certa, o tal soco no estômago, que, se bem assimilado, servirá para a vida toda. Como serviu.
            Você há de se perguntar de onde uma reles cabeleireira tira essas coisas todas? E como ela aprendeu a escrever assim até que direitinho? 
São três as fontes, André, permanentemente à nossa disposição (pena que a maioria das pessoas não descubra isso): a conversa, a leitura e os dicionários. É difícil, mas precisamos aprender a conversar. No começo da cartinha eu contava que falava falava falava com Matilde, mas desde então eu já sabia que aquilo não era conversa. Precisamos também adquirir o hábito da leitura, escolher bons livros – recorro sempre ao Loucoporcachorros! –, nada de autoajuda, nada de facilidades. É importante aprender a ler nas entrelinhas, do mesmo modo que podemos ouvir as entrelinhas em uma conversa. Ah!, e tem os dicionários, né!
            Êta cabeleireira metida a besta! 
            Tudo isso era só pretexto para lhe escrever, querido amigo. Espero resposta em breve.



Da sempre sua, 
                                                Suzete.
            
            

Ainda Hilda Hilst



Dez chamamentos ao amigo

1

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Despejasse

Escapar de tua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.


                        Hilda Hilst
                        In Júbilo, memória, noviciado da paixão

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Procurando trabalho

A foto do dia


Foto: Werther Santana / Estadão

Desempregados sob o viaduto do Chá, em São Paulo, em busca de uma vaga de trabalho.


Bronze de Albert György




O bronze do romeno Albert György (1949-) encontra-se às margens do lago Genebra, na Suíça. A escultura recebeu o título de Melancolia (2012).
O homem está sentado num banco, a cabeça pendida, os braços cruzados sobre as coxas e os pés apoiados no chão. Há um enorme buraco ocupando o que deveria ser seu tronco. Não há espaço para o coração, pulmões e demais vísceras.
A escultura sugere o estado de melancolia, mas pode despertar ainda outros sentimentos.
Solidão.
          Pesadelo.
Vazio existencial.
          Homem sem Deus (para os que crêem).
Ausência de sentido da Vida.
Desinteresse pelo mundo.
          Fome.
Ausência de sentimentos.
Ansiedade, inquietação e medo.
Profunda desesperança.
Suicídio iminente.
          Olhando para a morte.
          Um homem morto.
          Sonho de Kafka.
Cada expectador haverá de sentir algo de muito pessoal diante dessa escultura.
Para concluir, mais uma vez está presente a dicotomia entre o Belo e a Arte; a escultura é impressionante, de uma força imensa, possibilitando incontáveis associações, porém dificilmente poderia ser chamada de bela, em meu ponto de vista. (Para alguns, é bela!) 
Gostaria muitíssimo de vê-la pessoalmente, para lhe perguntar Ei! você aí, com os pés no chão, o que pensa e sente?

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Saramago em Esperanto





A Casa dos Bicos ou Casa de Brás de Albuquerque, em Lisboa, foi construída em 1523, a mando de D. Brás de Albuquerque. A fachada está revestida de pedra em forma de ponta de diamante, os "bicos", influência renascentista italiana, exemplo único de arquitetura civil. 
Nela funciona hoje a Fundação José Saramago, que acolhe a biblioteca do escritor, assim como exposição permanente sobre a vida e obra do único ganhador do Nobel de Literatura da língua portuguesa.


            A biblioteca exibe as obras de Saramago editadas em todo o mundo, nas mais diferentes línguas, atestando a universalidade do pensamento do autor.
            A partir de hoje, ela exibe também a tradução para o Esperanto do livro O conto da ilha desconhecida(Ed. Caminho, 1998), com o título Rakonto pri Nekonata Insulo


O tradutor, ninguém menos que o nosso Paulo Sergio Viana, a quem saudamos efusivamente por este feito! Paulo recebeu do próprio Saramago, via e-mail, a autorização para que fosse realizada a tradução.
         Tanto a administradora da Casa, como Pilar del Rio (esta última falou pelo telefone com o tradutor) ficaram sensibilizadas com a oferta, e cobriram Paulo de gentilezas.


           A edição que me foi ofertada pelo irmão, e que guardo como preciosidade, embora não possa ler uma linha sequer, traz na capa fotografia diferente daquela exibida na foto acima, entregue ao acervo da Fundação.
          De agora em diante, a tradução para o Esperanto do conto passa a figurar no acervo da Fundação José Saramago!