terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Nu

Meus quadros favoritos


Jacob Collins

O melhor pão-de-queijo do mundo

Velha faz o melhor pão-de-queijo do mundo!
Podemos afirmar que ela é uma mulher famosa por dois motivos bem simples: primeiro, porque faz o melhor pão-de-queijo do mundo, e segundo, que na verdade deveria vir antes do primeiro, por causa do nome dela, Velha, que pode até parecer apelido mas é nome mesmo, sobrenome melhor dizendo, Arminda Vieira de Sousa Velha, descendente da tradicional família dos Velha, e assim foi registrada no cartório de Capelinha do Chumbo, Minas Gerais, razão pela qual foi vítima de bullying durante toda a infância, a família era conhecida na região por Velharia ou Velharada, do mesmo modo que os Carneiro eram chamados de Carneirada, e os Bezerra de Bezerrada, mas com o passar dos anos acostumou-se, e agora, perto dos 70, quando lhe perguntam o nome não hesita em responder, Velha, que considera muito mais bonito que Arminda, Deusolivre!, resmunga, pois nunca gostou desse nome, colocado pelo pai por engano na hora do registro, era para se chamar Carmélia, o pai esqueceu-se e lascou Arminda, coisas da roça onde fora criada e aprendera, ainda menina pequena, a fazer o melhor pão-de-queijo do mundo, o mote principal dessa história, que finalmente vem à tona.
– Velha, me ensina a fazer esse seu pão-de-queijo?
– Claro que ensino.
– Mas ensina a receita verdadeira, porque ninguém consegue fazer igual a você, todos tentam e ninguém acerta, você ensina ensina ensina e ninguém aprende, será que ensina a receita errada ou esconde algum pulo do gato, Velha trapaceira? Será?
– Deusolivre!
– Você sabe que mineiro adora pão-de-queijo e só tem uma coisa que mineiro gosta mais: é queijo.
– Pois então não sei, sô?
– E sabe também que fica famosa a pessoa que faz um bom pão-de-queijo.
– Que é o meu caso...
– E é por isso que você esconde a receita, não é?
– Deusolivre! Então eu era capaz de fazer uma coisa dessa?
– Mas bem que gosta de ser endeusada.
– Isso eu aprecio mesmo. Mas deixe de conversa, vamos fazer juntos o pão de queijo, vou instruindo e você vai rompendo.
– A receita original verdadeira?
– A original verdadeiríssima.
Pra começar pegue a gamela de alumínio e coloque 6 xícaras de polvilho. Numa panelinha, 3 xícaras e meia de leite, e a última xícara complete com água; uma xícara de óleo; um quinto de tablete de manteiga; uma colher de sobremesa bem cheia de sal; misture bem e leve ao fogo, até ferver. Quando ferver, vá despejando no polvilho e mexendo com uma colher de pau, vá mexendo vá mexendo vá mexendo, isso, agora que está mais frio, hora de sovar com a mão, sove bem sove bem sove bem, a mão empurra a massa e volta na gamela, isso, sove bem, é preciso sovar bem. Acrescente 3 xícaras de queijo de Minas ralado e continue sovando. Vá despejando os ovos devagar, para a massa ir amolecendo, 5 ou 6 ovos, dependendo da consistência da massa, sovando sempre. Está pronto! Unte a mão com óleo para fazer os pãezinhos, prontos para ir ao forno.
– Que beleza, Velha!
Depois de assados os pãezinhos esborracharam. Não ficaram de todo ruins, mas esborracharam, Velha filha da puta, escondeu alguma coisa da verdadeira receita.
Só ela sabe fazer o melhor pão-de-queijo do mundo!


Ação improcedente



Deprimida, pagou um homem para matá-la. Ele não cumpriu o trato e ela denunciou-o à Justiça, que julgou a ação improcedente.

Les Alyscamps

Meus quadros favoritos


Vincent van Gogh

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Drummond escreve a Oswald



Carta sobre
Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade

(Belo Horizonte, 1928)

“Oswald

É muito provável que V. não tenha reparado no meu silêncio sobre o Primeiro caderno de poesia. Silêncio de indivíduo pouco sério epistolarmente falando, mas que não significa nem pouco caso nem quebra daquela velha admiração bocó que eu, mesmo sem querer, dedico a V. Pelo contrário, esse Primeiro caderno me fez ficar cada vez mais incondicionalmente seu admirador. Não é para me gabar, mas eu gosto um horror de sua poesia. V. ocupa um lugar tão diferente dos outros lugares no modernismo brasileiro, que estar com V. é ter a sensação de estar sozinho. Antes só do que mal acompanhado se bem que estar mal acompanhado também é gostoso.
            Não gostei por igual de seus poemas, porque de alguns eu gostei mais. A saber, “adolescência”, velhice”, “meus sete anos”, “o filho da comadre esperança”, “poema de fraque”. Acho que V. foi o mais longe possível nesses versos. Chegou a uma simplicidade simples por demais. É verdade que se der ainda um passo à frente... cuidado! Era uma vez um aluno de poesia.
            Mas V. é muito esperto e não precisa que eu lhe diga essas coisas.
            Comprei e não li A estrela do absinto. É horrível em 1928, e dou-lhe os meus pêsames mais sinceros.
            Recomenda-me a d. Tarsila, e queira bem ao seu de verdade

Carlos
Rua Silva Jardim, 117.

Vai junto um poeminha para V. ler.”

***

            O texto foi retirado do livro Poesias Reunidas, de Oswald de Andrade (Companhia das Letras, 2017, p. 235), motivo de recente post neste blog. http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2017/02/o-poeta-oswald.html
Não é mesmo uma delícia esta cartinha!!! A delicadeza de Drummond emociona a gente; destaco alguns exemplos:

a) “É muito provável que V. não tenha reparado no meu silêncio”: com humildade, o poeta reafirma sua desimportância...
b) “Não é para me gabar, mas eu gosto um horror de sua poesia”: gostar um horror é gíria da época, significa gostar muitíssimo; ainda aqui, o poeta, humilíssimo, não se gaba (não merece) nem mesmo de gostar da poesia de Oswald...
c) “Não gostei por igual de seus poemas, porque de alguns eu gostei mais”: Drummond não fala dos que possivelmente não gostou, refere-se apenas aos que gostou mais...
d) “Acho que V. foi o mais longe possível nesses versos.” “É verdade que se der ainda um passo à frente... cuidado! Era uma vez um aluno de poesia”: delicadeza maior, impossível! Que cuidado para não ferir o amigo, com o conselho de quem conhece poesia! Cuidado, Oswald! E acho – agora fica fácil de julgar – que Drummond tinha razão...
e) “Recomenda-me a d. Tarsila”: pena que isso não exista mais...

            Os poemas “adolescência” e “velhice” já tinham sido reproduzidos aqui, no post citado acima. Os demais, a gosto de Drummond, reproduzo agora:

meus sete anos

Papai vinha de tarde
Da faina de labutar
Eu esperava na calçada
Papai era gerente
Do Banco Popular
Eu aprendia com ele
Os nomes dos negócios
Juros hipotecas
Prazo amortização
Papai era gerente
Do Banco Popular
Mas descontava cheques
No guichê do coração
           

o filho da comadre esperança

Era o deserdado
Tinha uma história de envenenamento
No passado
Magro pálido trabalhador
Mas agora à força de lutar
Conseguiu uma posição na Bolsa de Mercadorias
E comprou um chapéu novo


poema de fraque

No termômetro azul
Da cidade comovida
Faze as pazes
Com a vida
Saúda respeitosamente
As famílias
Das janelas

Um balão vivo
Se destaca
Das primeiras estrelas
Lamparina às avessas
Do santuário da terra
Faze a pazes
As crianças brincam

            Preciso encontrar agora a resposta de Oswald de Andrade a Carlos Drummond de Andrade, dois grandes poetas!

Foto: página 113 do referido volume.

Assassinato entre chimpanzés


Foudouko, macho alfa do grupo de chimpanzés, pelo ar de superioridade e testa enrugada ganhou o apelido de Saddam, pelos antropólogos que o observavam no Senegal, há onze anos.
Foudouko foi deposto em 2007, e perdeu o poder após seu número dois, o macho beta Mamadou, se ferir gravemente. Enfraquecido, o líder fugiu. Voltou  após cinco anos de exílio, mas foi escorraçado pelos machos do grupo. Em 2013, aos 17 anos de idade, acabou assassinado.
As mãos e um pé de Foudouko estavam cheios de marcas de dentes, sugerindo que dois chimpanzés abocanharam seus braços, enquanto outros o agrediam com violência extrema. O grupo continuou atirando pedras, dilaceraram sua garganta e comeram partes do corpo já sem vida. A fêmea mais gulosa era a mãe de dois machos agora no comando da tribo.
            Não são frequentes assassinatos entre os chimpanzés.
O famoso primatólogo Frans de Waal, o autor de "Eu, Primata" (2007), descreveu situação similar com um grupo de chimpanzés cativos, na qual a liderança era instável. "Um alfa foi morto e castrado por dois machos frustrados após perderem o posto de dominantes". Afirma Waal:  "Se um alfa tem mão pesada e aterroriza a todos, isso pode terminar mal para ele. Se o alfa é popular, seria deposto sem tamanha agressão."
Eduardo Ottoni, da USP, diz que a força de um alfa "depende muito de alianças. Caso seu beta o traia e se una a outro, esses dois podem dar um pau nele".
Canibalismo também é infrequente: “A fêmea Zora arrancou o pênis e testículos de um macho e os comeu com folhas frescas arrancadas de uma muda, relata "The Real Chimpanzee" (2009), que fala sobre as estratégias sexuais dessa espécie conhecida, no nome científico, como Pan troglodytes.”
Conhecer a evolução das espécies, em particular a dos primatas, ajuda a compreender melhor certos comportamentos do primata a quem chamamos de humano.