quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Faixa de pedestre


Afirma Leandro Karnal em sua crônica de hoje, Regras e felicidade (Folha, 21/12): “Quando eu vejo os motoristas de Brasília pararem de forma automática quando o pedestre entra na faixa de segurança, entendo que ali houve uma campanha e uma punição na base do processo.”
            Karnal não morava em Brasília à época da implantação das faixas de pedestre, é evidente. Eu morava. O raciocínio do articulista está correto, obedece à lógica, campanha e punição constituem os únicos meios efetivos para se obter resultado tão surpreendente. Certo? Errado.
            O que vou contar pode ser confirmado pelos que aqui residiam naquela época. Não houve campanha educativa. Não houve necessidade de punição através de pesadas multas. Pintadas as faixas, correu célere a notícia de que os carros deviam parar para a passagem de pedestres, e que só poderiam avançar quando a pessoa alcançasse o outro lado da rua. Pronto, só isso. E os motoristas obedeceram imediatamente. Se houve, foi uma campanha popular.
            Não tenho qualquer explicação para o fenômeno. Não acredito que o povo daqui seja mais bem educado. Porém, há um precedente. Aqueles que chegam de carro à cidade pela primeira vez leem os seguintes dizeres numa placa bem grande: “Senhor visitante, aqui não usamos buzina.” É o que basta, pois não usamos buzina mesmo!
            Anos depois da implantação das ditas faixas alguns motoristas relaxaram, passaram a desobedecer o que estava instituído. Aí sim, houve campanha educativa, chamando a atenção de todos, inclusive dos pedestres, que devem dar sinal com o braço e esperar que o automóvel pare.
            Portanto, senhor Karnal, a lógica nem sempre prevalece.


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Palmeiras campeão do mundo


Rodrigues marca para o Palmeiras contra o Juventus.


A reportagem de Guilherme Seto para a Folha de S. Paulo (20/12) informa que há 65 anos o Palmeiras empatava com o Juventus no Maracanã, diante de mais de 100 mil pessoas. Conquistava então a Copa Rio.

A Copa Rio foi organizada pela Confederação Brasileira de Desportos. Participaram oito campeões nacionais: Sporting (Portugal), Austria Vienna (Áustria), Nacional (Uruguai), Juventus (Itália), Estrela Vermelha (Iugoslávia) e Nice (França). O Palmeiras participou como campeão do Torneio Rio-São Paulo de 1951, e o Vasco, campeão carioca de 1951.

Em novembro de 2014, a Fifa reconheceu o caráter global do torneio, e então o Palmeiras passou a ser tido como o primeiro clube brasileiro a conseguir um título mundial.
Uma estrela vermelha será colocada acima do brasão da camisa oficial, como mais uma forma de oficializar a conquista.

            O Palmeiras tem história!


Foto: Folhapress


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Felipe Cohen, parte 3

O Estado publica a terceira e última parte do ensaio de Alberto Rocha Barros sobre a exposição “Ocidente”, de Felipe Cohen, sob o título Legado do Modernismo Brasileiro.
Afirma Rocha Barros:

 “Mencionei o imperativo do sistema geométrico ao qual estão submetidas todas as obras da exposição “Ocidente”. Isso decorre da dívida de Cohen com sua educação no modernismo brasileiro. E o modernismo nacional é, para nós, o que a arte clássica foi para a tradição artística europeia. É o nosso ponto de partida e paradigma identitário.
Mesmo não sendo um especialista na tradição de nosso modernismo, sei que posso afirmar, sem causar espécie,  que a heterogeneidade marca o movimento. Tendo a pensar parte do modernismo como decorrência de um problema artístico mais amplo: como inserir ordem dentro de um mundo que foi presenteado com a liberdade promovida pela revolução da abstração?”

            E fala de Cohen com entusiasmo:

“Cohen está claramente criando para si um sistema semelhante de regras, uma gramática por assim dizer. A partir de um conjunto restritíssimo de elementos – triângulos do mesmo tamanho e dimensão; um conjunto reduzido de cores – ele tenta engendrar um certo número de criações. Para os meus olhos, o trabalho de Felipe Cohen que mais presta homenagem a esse problema apresentado pela abstração é o seguinte:”


“Luz Partida”. Série de 2016, de Felipe Cohen.


“Tenho dificuldade de enxergar uma paisagem aqui, mas vejo uma tentativa de casar abstração minimalista com uma dinâmica viva de cores e formas. Um esforço paralelo aparece nos “espaços celestes” (skyspaces) de James Turrell:”


Skyspaces

            E Rocha Barros finaliza sua análise sobre a arte de Felipe Cohen:

“Eu disse que vejo na obra de Felipe Cohen uma reverência à tradição da história da arte e um esforço para deleitar o espectador, mas disse também que seu trabalho vive numa eterna tensão entre representação e abstração. Acredito que essa tensão perene seja sua herança modernista, que, em certo sentido, sai triunfante da exposição.”

           




Felipe Cohen, parte 2

O Estado da Arte publica a segunda parte do ensaio do psicanalista e doutor em filosofia Alberto Rocha Barros sobre a exposição “Ocidente”, do artista plástico Felipe Cohen. “A Questão do Belo” dá título ao artigo.
Depois de discutir a concepção do que é a Beleza, Rocha Barros analisa uma obra de Cohen:

“A referência renascentista permanece. Ele empresta das paisagens renascentistas três elementos: um gosto por ambientes geometrizados, de atmosfera quase surreal ou fantástica; um interesse pelo contraste entre montanhas, céu e mar; uma combinação de tons rosáceos, azulados e amarronzados. Poderíamos utilizar como referência o seguinte quadro de Andrea Mantegna:



Vejamos agora a criação de Cohen sobre o tema:
  
  
Série “Luz Partida”, Felipe Cohen, 2016.

            Afirma Rocha Barros:

“A violência da tradução de uma linguagem para a outra é evidente. Dificilmente identificaríamos a fonte de inspiração. Mas talvez isso seja próprio da tradução artística. É bem conhecida as dificuldades de verter um poema de sua língua original para qualquer outra. As transformações e transposições necessárias são altamente agressivas. Mas, quando bem sucedidas, um substrato e um conjunto de temas e ideias permanece. Em sua releitura das paisagens italianas dos séculos XV e XVI, Cohen preserva um conjunto mínimo de pontes de apoio.”

            Em seguida Barros nos oferece uma análise interessante sobre a percepção que o expectador pode obter da tela, vendo-a de distâncias diferentes, aproximando-se, distanciando-se, caminhando ao redor da tela.

“A tela acima perde um pouco de sua vivacidade na reprodução fotográfica. Ela depende da e demanda a incidência de luz e o movimento do expectador. Caminhando ao redor dela, aproximando-nos ou distanciando, a luz ativa a tela: a geometria dura dos triângulos amolece, movimentos sutis tornam-se perceptíveis. Um feixe de sol, representado pelo triângulo “amarelado” no alto à esquerda incide sobre as montanhas e a água. Uma das faces de uma das montanhas banha-se em rosa. Uma ilusão de profundidade começa a transparecer. Notamos a sombra na qual a face do monte mais próximo de nós ainda está envolvido. As águas fluem e tremulam. Essa tentativa de vencer o próprio pendor pelo imperativo do sistema geométrico e presentear o espectador leigo com uma paisagem apaziguante nada mais é do que uma humilde tentativa de satisfazer nossos anseios pelo belo.”

      Porém, nossos "anseios pelo belo" permanecem.