quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Aldravia n. 38

Para a Ciça



olhar
atento
quem
invade
minha
casa?


Foto: A.Vianna, abr 2016, gatil da Cecília Vianna.

Clique na foto para ampliar.

sinal de alerta



ninhos em perigo
passarinhos em alerta
micos no quintal


Foto: A.Vianna, abr 2016, quintal



Fim de jogo?

A presença do presidente Michel Temer no programa Roda Viva do dia 14, na TV Cultura, fez com que Chico Buarque de Hollanda desautorizasse a utilização da música tema do programa, de sua autoria. A notícia está no Estadão de hoje (24/11).
Havia um acordo verbal entre o produtor Fernando Faro, morto em abril, e o compositor, que agora orientou seu advogado a romper tal acordo.
Em minha infância havia o menino rico dono da bola. (Acho que todo menino que não era rico viveu esta experiência na infância.) Se não era escalado para o time ou levava um gol, botava a bola debaixo do braço e ia choramingar no colo da mamãe. Fim de jogo.
Na infância, ainda não sabemos o que significa democracia. Mas o senhor Chico Buarque já tem idade para saber. Ele só joga se o time ganha.
Felizmente o país acordou e não é fim de jogo.




quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O achacador

            Há dois ou três dias a notícia não saí das mais diferentes mídias, martela martela martela nossas consciências, parece que exigindo tomada de posição de cada um dos brasileiros. A expectativa é enorme, por um desfecho que recomponha a dignidade do país. Mas até agora, nada.
Exceto pelo grupo de políticos da denominada base governista, com interesses comuns, o resto do mundo tem a mesma opinião. Esta rara quase unanimidade tem uma razão de ser: é escandaloso o episódio do ministro que deseja porque deseja seu apartamento em prédio embargado pelo Iphan.
            Acusado publicamente pelo colega de pressão para a liberação da irregularidade, o achacado demite-se e o achacador permanece.
            A autoridade máxima, a quem pertence o cargo do ministro, permanece impávida.
            A coisa piora ainda mais: o achacador admite o ato, porém nada vê de tão importante nele que justifique deixar o ministério.
            Pior não pode ficar, pensamos todos. Pois piora: os líderes dos partidos políticos da tal base governista colocam suas assinaturas em apoio explícito ao achacador. Este recebe, emocionado, o documento. E chora.
            A Comissão de Ética da Presidência abre processo, imagino que em meio a constrangimento geral. Desde logo a comissão anuncia que há indícios de quebra dos princípios éticos em administração pública.
            A autoridade máxima e o achacador permanecem impávidos.
A mídia martela martela martela. Nada!
O novo ministro, o que assume a pasta do achacado demitido, repete que cargo de ministro é cargo político, e defende o diálogo. O que desejará ele dizer com isso? Não demonstra qualquer pudor em substituir o achacado em tais circunstâncias, nem comenta o assunto.
Dos funcionários do ministério atingido, nem uma palavra de apoio ao achacado.
A indagação que me vem à mente é qual seria a repercussão de fato idêntico em países como a Suécia e Japão. No primeiro, renúncia imediata do achacador. No segundo, suicídio.
Mas não vivo em nenhum desses dois países e a mídia nacional martela martela martela minha consciência, em busca de um sentido para essa história. Logo agora que eu pensava que meu país poderia mudar.
Ao findar a manhã, antes de terminar esta crônica, corro ao Twitter na esperança de uma boa notícia. Encontro o mesmo martelar, jornalistas protestando, o mundo inteiro protestando, nenhuma novidade. Ah!, duas novidades: primeira, a comissão da Câmara dos Deputados não aceita convocar o achacador para esclarecer as denúncias; segunda, familiares do achacador envolvidos na tertúlia com o Iphan. Enlouqueço?
O homem não desprega mesmo a bunda da cadeira.



Fotografados pela primeira vez

A foto do dia



 “A Hutukara Associação Yanomami divulgou nesta terça-feira (22) fotografias de uma tribo indígena Yanomami que vive isolada na Amazônia, em Roraima. As imagens são as primeiras feitas da comunidade, conforme a associação.
Segundo Dário Kopenawa Yanomami, vice-presidente da Hutukara, a tribo é denominada Moxihatëtëa e fica na circunscrição do município de Alto Alegre na Terra Indígena Yanomami, no Norte do estado, a 1h30 de voo de Boa Vista. Nela, vivem índios que recusam contato até com outros indígenas.”

Fotos: Guilherme Gnipper / Hutukara / Divulgação










A farra continua

Política sem palavras



Inverno de Monet

Meus quadros favoritos



Claude Monet


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Música de câmara

              Haruki Murakami, escritor, e Seiji Ozawa, maestro, ambos japoneses, tiveram suas longas conversas sobre música publicadas no recém lançado livro Absolutely on Music.
            Murakami pergunta a Ozawa por que exige que jovens músicos toquem num quarteto de cordas, se o objetivo final é a formação orquestral, projeto que desenvolve na Suíça. E a resposta de Ozawa é interessantíssima: “Sem música de câmara, um músico não faz música. É na música de câmara que ele aprende a ouvir a si mesmo e aos outros.”
João Luiz Sampaio, no artigo para O Estado de S. Paulo de hoje, afirma:
“A declaração serve de bom exemplo para a defesa da música de câmara como base da vida musical de qualquer país. Ainda assim, no Brasil ela ainda é, na melhor das hipóteses, periférica.”
            E para mudar essa realidade nasceu o Festival Sesc de Música de Câmara, agora em sua segunda edição, com cerca de 50 concertos em todo o Estado de São Paulo. A iniciativa é mesmo espetacular!

            É possível que já tenha registrado neste blog uma história que trago comigo há muitos anos, e que ouvi de minha mãe. Não canso de repeti-la.
            Ela não tinha qualquer formação musical, a não ser os rudimentos de teoria do curso secundário. Mas adorava música. Até que em certa altura, ela saiu-se com esta pérola:
“Primeiro a gente aprende a gostar de sinfonias, de grandes orquestras tocando uma música ruidosa, emocionante, que toca a alma pela força dos sons. As sinfonias de Beethoven são inigualáveis! A Sexta é minha preferida.
Depois passamos a apreciar os concertos, onde se apresentam um instrumento solista e a orquestra, numa conversa musical mais sofisticada. Os cinco concertos para piano e orquestra de Beethoven são incomparáveis! O Concerto Tríplice de Beethoven é maravilhoso.
Por último, chegamos à musica de câmera. Ela é mais difícil, exige mais do ouvinte. Eu, por exemplo, não gosto dos quartetos de Beethoven e detesto os quartetos de Villa-Lobos. Gosto muito da música de câmara de Schubert, de seu famoso quinteto para piano e cordas, A Truta.
Isso é o que penso sobre como deve ser a nossa educação musical.”
           
            A história impressionou-me muitíssimo quando a ouvi pela primeira vez, e tomei-a por verdade. Passei a repeti-la vida afora. Agora, penso que a resposta de Ozawa a Murakami – “É na música de câmara que ele aprende a ouvir a si mesmo e aos outros” – confirma a teoria toscamente apresentada por minha mãe, a quem sou grato por tudo que me ensinou.
           
            Para os que tiverem curiosidade, se é que ainda não conhecem, eis uma boa gravação de A Truta, o quinteto em lá maior para piano e cordas, com músicos brasileiros: