segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O amante

O amante do noivo aparece na cerimônia de casamento usando o mesmo vestido da noiva.



Gênese de um microconto

            Este perfeito microconto veio quase pronto na manchete do jornal O globo, em reportagem de Fernando Moreira. A história é digna de Nelson Rodrigues, em A vida como ela é...
            Não se trata de plágio do blogueiro, é apenas a reprodução da manchete acrescida de uma pequena modificação, agora apresentada com o status de microconto perfeito. 
            Na vida real, quem apareceu foi a amante do noivo, daí a manchete Amante do noivo aparece... O que fiz foi acrescentar o artigo masculino antes da palavra amante, e apimentar a história.         




Certas imagens



            Certas cenas, melhor que não tivessem acontecido. Já que ocorreram, resta-nos encarar os fatos e lamentar.
            Estou a falar do recente encaminhamento do ex-governador do Rio de Janeiro à prisão, da resistência espalhafatosa que ele ofereceu ao ser posto numa ambulância, dos gritos histéricos da família, da força empregada por policiais e bombeiros na dramática operação. Constrangimento maior não poderia haver.
            “Teve o que mereceu”, dirão alguns. “Aqui se faz, aqui se paga”, dirão outros.
            Quanto ao mérito da prisão nem preciso comentar; não pertenço a nenhuma instituição julgadora. O que desejo analisar é apenas a cena em si e a exploração que dela se fez e ainda se faz, pelas mais diferentes mídias.
            Por que razão a população e as mesmas mídias pedem prisões mais dignas, mesmo em se tratando de criminosos terríveis? Por que há um forte movimento pregando a extinção dos zoológicos, onde frequentemente os animais são maltratados? O que todos desejamos é tratamento digno e humano em tais condições.
            A dignidade e o senso humanitário se perderam completamente na captação e repetida divulgação das referidas imagens envolvendo o ex-governador e sua família. Sem dúvida, há quem se delicie com elas. (O que também é humano: “antes ele do que eu”.) Mas isso é cruel e desumano, independentemente dos crimes cometidos.
            Além do que há uma boa dose de sadismo na repetição das grotescas imagens pelas mídias sociais.
            Mas é mesmo lenta a evolução do processo civilizatório.



            

gavião no céu

Da série
Sons da mata


corta o céu azul
o pio do gavião
bichos em silêncio

Falta pouco

A foto do dia


Torcida comemora vitória sobre o Botafogo neste domingo.

sábado, 19 de novembro de 2016

Sons da mata



1

ainda madrugada
sempre o mesmo sabiá?
deseja bom dia


2

estrondo na mata
raios? trovões? barulhão
a jaca que cai


3

latido distante
quebra o silêncio da mata
desperto curioso



            Os haicaistas clássicos costumam dividir seus poemas por temas, todos ligados à natureza, naturalmente. As quatro estações do ano são os motes preferidos.
            Este blogueiro e humilde fazedor de haicais convive com uma bela mata ao fundo do quintal, repleta de pássaros, pequenos animais, alguns répteis, insetos de toda ordem. Com frequência, esta mata – a natureza mesma – constitui tema de meus haicais. Os três poemas acima ilustram esta pequena digressão, e recebem o título de Sons da Mata.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Gauguin rural

Meus quadros favoritos


Paul Gauguin


Gauguin verde

Meus quadros favoritos


Paul Gauguin

Raios!



O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) escolheu a melhor fotografia de raios feita entre setembro e outubro deste ano, de autoria de Ronaldo Maciel, morador de Santana do Livramento, no interior do Rio Grande do Sul. A cidade tem incidência anual de 9 raios por km², 4ª posição no ranking de maior ocorrência de raios por ano.



quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Ainda a pós-verdade

Tornou-se tradição a escolha da palavra do ano pelo dicionário britânico Oxford. Ano passado foi a surpreendente emoji, ano atrasado foi a óbvia selfie. O termo vencedor de 2016 foi pós-verdade, ou post-truth no original.
A saída do Reino Unido da União Europeia e a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos deram força ao post-truth, que, segundo os editores do dicionário, relaciona-se à “circunstâncias em que fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal”.
Casper Grathwohl, presidente do dicionário Oxford, informa que “o emprego de pós-verdade cresceu para explicar as consequências das redes sociais como fonte de notícias, além da crescente desconfiança mundial nos fatos oferecidos pelo establishment”. Recentemente, o termo foi capa de The Economist, na reportagem “Arte das Mentiras: Política pós-verdade na era das mídias sociais”.
            Embora vivamos num mundo globalizado, não há dúvida quanto à forte influência da língua inglesa nessa escolha, que é mesmo realizada por um dicionário inglês. A pergunta que faço é se esta palavra do ano também serve para nós. Ou por aqui teríamos uma melhor, genuinamente tupiniquim?
            Minha primeira escolha como palavra do ano seria corrupção!
             Em homenagem a Sérgio Moro, a palavra poderia ser anti-corrupção.
            Forte concorrente: impeachment.
            Ou ainda: prisão.
            Ou seria lava-jato?
            É certo que Eduardo Cunha e Dilma esforçaram bastante para que pós-verdade fosse a vencedora também por aqui. O primeiro afirmou que enriqueceu vendendo carne enlatada aos africanos. A segunda cansou de repetir que nosso desastre econômico deveu-se a fatores internacionais. Os dois, de fato, vivem na era pós-verdade.
Porém, o nome dessas peripécias em língua brasileira é mentira mesmo! Não precisamos importar o post-truth para nomear falsidade, enganação, distorção, contraversão, malsinação, forçamento, adulteração, falácia, contrafação, artimanha, colusão, cambalacho, conciliábulo, falsídia, falseamento, mendacidade, perjúrio, fraude, barataria, embuste, embromação, comedela, garatusa, burla, perfídia, tartufice, jacobice, impostura, a lista de sinônimos ou correlatos para mentira é mesmo interminável.
            Que o eventualíssimo leitor desta crônica faça sua sugestão.