quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

chuva de verão


beija-flor molhado
jardim em festa agradece
chuva de verão

Foto: A.Vianna, jan 2016

Autoridade e corrupção

Oportuna a crônica de Francisco Daudt de 23/12/2015 na Folha de São Paulo, sob o título de Corrupção da Autoridade.
Quando se fala de corrupção nos dias de hoje, pensa-se em roubo, malversação do dinheiro público, propina, compra e troca de favores, jogo de influência, tudo isso e muito mais em benefício próprio e contra o país. Porém Daudt alerta que “o sentido original da palavra é deterioração, apodrecimento, estrago”.
            Ele passa sem mais delongas a falar da educação dos filhos, tema abordado com frequência neste blog, e afirma que a autoridade desapareceu, as crianças tornaram-se mimadas, e, por consequência, “não se sentem protegidas pela força moral de quem deveria lhes servir de referência”.
Quando do nascimento de um filho, exercemos sobre ele o poder total: decidimos o que ele come, como se veste, a que horas vai para a cama, quando toma banho, tudo, decidimos tudo por ele, porque é preciso. “Nossa melhor autoridade será exercida como a de um déspota esclarecido”, afirma Daudt.
Mas a criança cresce, tem vontade própria e a manifesta a todo momento, tem suas necessidades, aprende rapidamente a pensar, mesmo que no início seja um pensar muito mais voluntarioso do que racional. A questão agora é preservar a autoridade dos pais. Estes, tomados de excessivo amor pelo filho, correm o risco de tornarem-se permissivos, e perder a autoridade. Pobre criança.
O articulista se pergunta sobre o que teria ocorrido com o conceito de autoridade entre nós e enumera dois fatores: uma ditadura militar e uma reviravolta de costumes mundial. “A primeira fez com que autoridade e autoritarismo parecessem sinônimos. ...Vinte e um anos de autoritarismo foram suficientes para que o senso comum absorvesse a ideia de que qualquer exercício de autoridade é abusivo em si. A reviravolta nos costumes teve como ícone o maio de 1968 e seu "é proibido proibir", o advento da pós-modernidade e seu clima de negação de valores, de aversão a qualquer coisa que parecesse hierarquia... e autoridade.”
            O exercício da força, própria do poder de mando da autoridade, pode ser exercida pela intimidação ou pelo saber. Agora Daudt é categórico: “A autoridade de saber é a mais eficaz das autoridades.”
            Penso que assim devem pensar e agir os pais que cuidam de crianças ainda pequenas, tão necessitadas de autoridade, para crescerem neste mundo hostil. Amar também é isso, ou é principalmente isso.





domingo, 3 de janeiro de 2016

Quem tem medo de Quentin Tarantino?


Há quem não goste de western – desde já aviso que prefiro a palavra faroeste, bem brasileira. Será aquele tipo de preconceito que leva certas pessoas a eliminarem determinadas escolhas, por simples capricho? Por exemplo, Não gosto de literatura policial, Não gosto do Zeca Pagodinho, vai por aí afora. Mas como é possível não gostar de Era uma vez no Oeste, dirigido por Sergio Leone (1968)?
            Há dois dias assisti em sessão de pré-estreia Os oito odiados, o segundo faroeste de Tarantino, de quem sou fã de carteirinha; o primeiro foi Django livre. Só posso dizer que se trata de um filme de arte!
            O filme tem início com a deslumbrante paisagem dos caminhos tomados pela neve espessa, grandes montanhas geladas, e a carruagem – forte elemento desse gênero de filme – deslizando pela nevasca que mais parece o fim do mundo, tudo filmado com lente 70 mm. Após alguns incidentes e muita conversa – o niger Samuel L. Jackson rouba a cena –, a violência já se faz presente, quando uma mulher é seguidamente espancada. Enfim, chegam à estalagem. E a filmagem prossegue com a mesma lente de 70 mm, o que confere às cenas um belíssimo efeito de grande angular.
            Haverá violência? Claro que sim.
            Sugiro aos que têm medo de Tarantino que não levem a sério esta mesma violência; ela faz parte do gênero; as pessoas são rudes; são caipiras de pouca ou nenhuma sensibilidade; e respeitam acima de tudo a lei do mais forte, o império da bala. Não há outra coisa a esperar deles. Chega a existir mesmo uma certa ingenuidade na crença cega no revólver, nome antigo da pistola. E Tarantino esbanja senso de humor, mesmo nas cenas mais “violentas”; é a força da caricatura, presente em todos os seus filmes, a partir de Cães de Aluguel (há forte semelhança entre este e o atual, embora de gêneros bem distintos).
            Em tempo: no dia seguinte fui ver Macbeth, dirigido por Justin Kurzel e estrelado pelo grande Fassbender. Aquilo sim, é violência! Não há lugar para  ingenuidade, senão ambição desmedida pelo poder e violência insana. É o culto da guerra. Horror horror horror, sem piedade.
            Não é o que acontece no faroeste.

Nota: *****

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

No meio de uma praça...

Estou no meio de uma praça deserta, subo num coreto decorado com motivos orientais, e começo a declamar:

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarrita.

Como não falo italiano, muito me admiro com minha desenvoltura ao dizer tais versos. Então percebo que estou sonhando o sonho de Dante Alighieri, às portas do Inferno.