Charge do dia
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
O outro encontro das águas
A foto do dia
Água barrenta do Rio Doce chega ao mar do Espírito Santo.
Foto: Gabriela Biló / Estadão
domingo, 22 de novembro de 2015
Um livro puxa outro
Acontece com quem ama a Literatura: do mesmo modo que
um assunto puxa outro, quem conta um conto aumenta um ponto, um livro puxa
outro. Talvez seja isso, e mais um bocado de teoria, que os entendidos chamam
de Literatura Comparada.
Em
excelente crônica no suplemento Eu &
Fim de Semana, do Valor Econômico (13/11), a competentíssima Eliana
Cardoso, economista, escritora, especialista em Literatura Comparada, rendeu homenagem
aos 100 anos de A Metamorfose, de
Kafka.
Depois
de brilhar com a própria análise do livro, Eliana cita Nabokov, que compara o
texto de Kafka a dois outros, o romance O
médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson, e o conto O capote, de Nikolai Gógol. Nabokov
coloca o romance de Stevenson um degrau abaixo das duas outras obras, porque “...lhe
falta unidade entre o personagem central e o cenário que o cerca”.
Como
não havia lido o conto de Gógol (a santa ignorância de sempre!), corri atrás da
ótima publicação da Editora 34, O capote
e outras histórias (2011, 2a edição), com primorosa tradução de
Paulo Bezerra.
O
conto é mesmo ótimo! Mas como um livro puxa outro, ao término da leitura, o que
me veio à mente, eu que nada entendo de Literatura Comparada, não foram Kafka e
Stevenson. Quem me apareceu subitamente e sem aviso prévio foi o Fantasma, pai
de Hamlet, que abre a tragédia de Shakespeare!
Em
meu fraco ponto de vista, o mesmo recurso utilizado por Shakespeare para
introduzir a trama hamletiana foi utilizado por Gógol para finalizar seu conto:
a intervenção de um Fantasma.
Em
ambos os textos os fantasmas são reais, muito reais. O de Shakespeare apareceu
primeiro a Marcelo, Bernardo e Horácio (para não deixar dúvida quanto a sua
existência, e não apenas uma alucinação de Hamlet, sabidamente não muito bom da
cuca), companheiros de Hamlet, e em seguida a ele próprio, com quem conversou
longamente (na bela tradução de Bárbara Heliodora, Teatro completo, Ed. Nova
Aguilar, 2009):
Fantasma:
“Sou
o espectro de teu pai;
Condenado
a vagar durante a noite,
Preso
ao fogo, até que este consuma
E
purifique as faltas criminosas
Que
cometi em vida. Mas proibido
De
contar os segredos de meu cárcere,
Pois
se os narrasse, a mínima palavra
Cortaria
tu’alma e gelaria
O
próprio sangue jovem do teu corpo;
Faria
teus dois olhos, como estrelas,
Saltar
das órbitas, e os teus cabelos
Eriçarem-se
rijos, como as cerdas
Se
eriçam no irritado porco-espinho.
Aos
ouvidos humanos. Ouve! Escuta!
Ouve!
Se amaste um dia um pai querido...”
Hamlet:
“Oh,
Deus!”
Fantasma:
“Vinga
a sua alma e o seu assassinato!”
O
Fantasma de Gógol apareceu a uma cidade inteira! Diante de um personagem que o
autor chama ironicamente de “figurão”, eis a cena:
“Mas
o pavor do nosso figurão ultrapassou
todos os limites quando viu o morto entortar a boca e, exalando pavorosamente
sobre ele o cheiro de sepultura, pronunciar essas palavras:
– Ah!
até que enfim! Até que enfim vou te... aquilo... te agarrei pela gola! É do teu
capote mesmo que estou precisando! Não intercedeste para encontrar o meu e
ainda me repreendeste – então agora me dá o teu!
O
pobre figurão por pouco não morreu.”
Nada
mais real que um bafo de fantasma, bafo de sepultura!
Pois é assim que um livro puxa outro,
que puxa outro (o bafo do Fantasma de Gógol lembrou-me o bafo de cebola do
delegado, em O ano da morte de Ricardo
Reis, de José Saramago, Companhia das Letras, 1988), até voltar ao primeiro
livro, no caso em questão, A Metamorfose.
Nabokov,
ainda segundo Eliana Cardoso, afirma com inteira propriedade:
“Gregor
é um ser humano em disfarce de inseto; sua família é composta de insetos
disfarçados de seres humanos.”
Viva
a Literatura!
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Escolha definitiva
Filho de brasileira e marroquino, não encontrando seu lugar, entrou para o Estado Islâmico aos 20 anos. Enterrado em local desconhecido.
Uma mesinha na calçada
A crônica de
hoje (19/11) de Luís Fernando Verissimo no Estadão, intitulada Volta, começa com a descrição do retorno das férias, aquela
sensação de “sair de um
coma”. Mas o colunista logo desperta, para tratar dos últimos acontecimentos
ocorridos em Paris.
Reproduzo
aqui as palavras de Veríssimo, porque não consegui fazê-lo com minhas próprias
palavras, o que penso retratar de forma perfeita o que era estar em Paris, numa
simples mesinha na calçada:
“Mesinha.
Não existe lugar para você se sentir ao mesmo tempo no mundo e fora do mundo
como uma mesa de calçada em Paris, tomando um café ou um “verre”. Entre
turistas e nativos passa o mundo na sua frente. Você e eles estão na cidade
mais cosmopolita do planeta, onde os pequenos prazeres (a mesa na calçada, o
café, o “verre”) e os grandes prazeres (a beleza da cidade em si e o banquete
cultural que ela oferece) convivem como em nenhum outro lugar da Terra. Ao
mesmo tempo, em nenhum outro lugar você se sentia tão longe das desavenças e dos
perigos do mundo como na sua pacífica mesinha de calçada. Não mais. Tanto os
pequenos quanto os grandes prazeres de Paris entraram no raio de alcance dos
rifles AK-102.”
A
possibilidade de perder esse privilégio para sempre me parece impensável.
Recuso-me a aceitar que, então, o terror venceu. Sim, pode-se falar em Paz – há
cartazes com esta palavra nas calçadas do mundo inteiro, junto à velas e
flores, em homenagem aos mortos de Paris – porém depois que os extremistas do
Estado Islâmico tenham sido eliminados da face da Terra.
A paz precisa ser conquistada.
Foto: Mercêdes Fabiana, Paris, 2015.
Homenagem a Diesel
A foto do dia
Diesel, cadela da raça malinois, de 7 anos, foi baleada e morta por terroristas ontem, em Saint-Denis, França.
Fica aqui a homenagem emocionada deste Louco por cachorros.
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
"Nós temos champanhe!"
Charge do dia
Capa da próxima edição do Charlie Hebdo: “Ele têm as armas. Eles que se
f... Nós temos o champanhe!
Pomba da guerra
A foto do dia
Operação anti-terror em Saint-Denis, subúrbio ao norte de Paris, hoje.
Foto: François Mori /AP.
Palavra do ano
Quem gosta de ler ou escrever, quase
sempre gosta de palavras. É um tipo de gente meio lelé-da-cuca, que também
gosta muito de dicionários, os berçários de palavras.
Catrâmbias!, diria o Evandro Affonso Ferreira.
Pois a cada ano, um júri (exatamente
esse tipo de gente!) designado pelo Dicionário Oxford de língua inglesa escolhe
uma palavra vencedora – a palavra do ano – com base em seu "potencial
duradouro" e sua "significância cultural".
A palavra do ano de 2012 foi
"GIF"; a de 2013 foi "selfie". Em 2014 o termo
"vape" (ligado aos cigarros de vapor) foi o vencedor.
Neste ano
de 2015, uma surpresa: uma não-palavra.
É a
carinha que solta lágrimas de tanto rir, oficialmente chamada de "rosto
com lágrimas de alegria". Um emoji.
Interessante isso, o fato de uma imagem
pictográfica usada para "expressar uma ideia ou emoção" receber o
título de palavra do ano sem ser uma palavra.
O emoji foi o vencedor entre 9
finalistas, dentre eles "refugiado", "bloqueador de
anúncios" (em inglês: "ad blocker"), "companhia
compartilhada" ("sharing economy") e "they" (pessoas de gênero não especificado).
O Dicionário Oxford considerou que os
emojis "foram abraçados como uma sutil forma de expressão, que pode cruzar
barreiras linguísticas."
Minha filha Cecília haverá de gostar!
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