segunda-feira, 19 de outubro de 2015

domingo, 18 de outubro de 2015

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Quem conhece Samuel Rawet?




Difícil encontrar algum livro de Samuel Rawet (pronuncia-se “rávét”), a não ser em sebos, pois ele publicava através de editoras pequenas, de distribuição precária, esparsamente. Até que a Ed. Civilização Brasileira reuniu sua obra em um único e alentado volume (bastante mal acabado, desses que soltam as folhas à medida que o livro vai sendo manuseado), Contos e novelas reunidos (2004), mas o homem permanece um ilustre desconhecido para o leitor comum.
Sua leitura não é fácil, seus personagens são angustiados, inadaptados, têm dificuldade para se comunicar, são imigrantes deslocados, exilados como ele mesmo o foi. Porém, sua escrita é única, originalíssima, de uma profundidade e dramaticidade incomparáveis.
Samuel Urys Rawet nasceu em Klimontow, aldeia próxima de Varsóvia, em 1929. De família judaica, em 1936 naturalizou-se brasileiro, criado no subúrbio carioca da Leopoldina.
Engenheiro de profissão, membro da equipe de Oscar Niemeyer, participou da construção de Brasília, sendo o responsável pelos cálculos da construção de vários edifícios importantes, como o Congresso Nacional. Fixou residência em Brasília, onde morreu em 1984.
O volume recém publicado inclui os livros Contos do imigrante (1956), Diálogo (1963), Os sete sonhos (1967), O terreno de uma polegada quadrada (1969), Que os mortos enterrem seus mortos (1981), e as novelas Alabama (1964) e Viagens de Ahasverus à terra alheia em busca de um passado que não existe porque é futuro e de um futuro que já passou porque sonhado (1970).
Destaco o parágrafo inicial do conto O profeta, pequena amostra do estilo rawetiano:

“Todas as ilusões perdidas, só lhe restara mesmo aquele gesto. Suspenso já o passadiço, e tendo soado o último apito, o vapor levantaria a âncora. Olhou de novo os guindastes meneando fardos, os montes de minérios. Lá em baixo correrias e línguas estranhas. Pescoços estirados em gritos para os que o rodeavam no parapeito do convés. Lenços. De longe o buzinar de automóveis a denunciar a vida que continuava na cidade que estava agora abandonando. Pouco lhe importavam os olhares zombeteiros de alguns. Em outra ocasião sentir-se-ia magoado. Compreendera que a barba branca e o capotão além do joelho compunham uma figura estranha para eles. Acostumara-se. Agora mesmo ririam da magra figura toda negra, exceto o rosto, a barba e as mãos mais brancas ainda. Ninguém ousava, entretanto, o desafio com os olhos que impunham respeito e confiavam um certo ar majestoso ao conjunto.”

Vale a pena conhecer Samuel Rawet!


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

rumor que fica

da série
anavilhanas




o barco que passa
fica o rumor das ondas
nas margens do negro


Foto: A.Vianna, out 2015.


Ainda sobre a conversa


Francisco Daudt publicou hoje (14/10) excelente artigo na Folha, intitulado Começo de conversa (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/236372-comeco-de-conversa.shtml), com início provocador:

“Você mataria sua mãe a facadas? Não? Nem eu! Então já temos alguma coisa em comum, é um começo de conversa." Essa era a anedota que meu tio Marcello contava para dizer que, quando a divergência com alguém era grande, fazia-se necessário buscar fundações comuns para a construção do edifício do entendimento.”

            Daudt prossegue:

“Arno Viero, doutor em filosofia da lógica (a coisa mais complicada que já vi), me dizia: "Se você não partilha axiomas, não converse". Axiomas são verdades auto-evidentes, que não precisam de demonstração. "Se você esgrima floretes, não vá duelar com um moleque, pois ele vai te tacar uma pedra na cara."
Mas qual é a aplicação prática do conselho do Arno? É evitar um atrito que produza mais calor do que luz. Claro, isso se você estiver interessado na luz; há gente que se interessa mais pelo embate em si, por derrotar o outro na discussão, por se mostrar por cima, por humilhar sadicamente, por fazer o outro se sentir um merda.”

            De certo modo, Daudt radicaliza o que passo a chamar de A arte de conversar, ao recusar o diálogo com determinado tipo de interlocutor:

"Se eu soltar esse lápis, ele vai para o chão ou para o teto?" De acordo com a resposta, eu fico ou vou-me embora sem conversar...
E as pessoas de fé? Elas se regem pelo "Credo cuia absurdum" (Creio PORQUE é absurdo), não há nada de racional no que creem. Bem, então vejamos: "Há um homem que ressuscitou depois de três dias morto". Não converso, mas respeito. "O corpo de Cristo está presente na hóstia." Não converso, mesmo respeitando sua crença.
No entanto, crenças religiosas podem ser fonte de grave intolerância, mormente quando o religioso não tem muita segurança em sua fé e precisa combater externamente sua dúvida, como um homofóbico precisa eliminar sua perturbação sexual interna matando um gay. Se um desses grita "Morte aos cães infiéis!", sinceramente: não converso, não respeito e vou lutar contra.
O mesmo se aplica aos fanáticos da religião lulopetista.”

            O tema interessa muitíssimo a este blogueiro, que publicou em O mito do vaso partido e outros escritos (ExLibris, 2010), artigo intitulado A arte de conversar. (http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2015/10/conversar-uma-arte.html)
            Em um determinado aspecto, difícil de ser praticado, é bom que se diga, discordo de Daudt.
            É verdade que aquele que está disposto ao exercício da conversação tem a expectativa de receber de seu interlocutor ideias de valor, de espírito, concatenadas e vigorosas. Não espera conversar com um tolo. Em Montaigne encontramos valioso alerta:

“A tolice é uma qualidade má; porém não poder suportá-la, e irritar-se e roer-se por causa dela, como me acontece, é uma outra espécie de doença que pouco fica devendo à tolice em importunidade.”

O desenvolvimento da tolerância (não no sentido moral ou religioso da palavra, porém no autêntico reconhecimento das diferenças), portanto, nos parece outro elemento fundamental para o diálogo.
Esta mesma tolerância tem a ver com o não-desejo do convencimento. Se há “necessidade” (interior, inconsciente) do convencimento do outro, a conversa torna-se impossível.
            Concluo A arte de conversar apresentando uma condição ímpar, facilitadora da boa conversa:

Conversar com um amigo é outra coisa. A amizade constitui-se então em uma condição facilitadora do diálogo, especialmente pela existência de intimidade e confiança recíprocas. Desaparecem o temor, a preocupação com o interesse, a tendência ao julgamento: desarmam-se os espíritos. Concordar ou divergir tornam-se nada mais que qualidades intrínsecas do diálogo, nunca uma ameaça, mesmo que isso represente um “sacrifício” narcísico. Uma conversa entre dois amigos tem o poder de transformá-los a ambos.

Assim dá gosto conversar!