quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Barbárie

A foto do dia.



Barbárie cometida pelo Estado Islâmico.

http://noticias.terra.com.br/mundo/oriente-medio/grupo-estado-islamico-decapitou-jornalista-americano,7119244f220f7410VgnCLD200000b1bf46d0RCRD.html

Relação médico-paciente: as duas faces da moeda


(Roteiro para discussão em grupo
com estudantes de Medicina)
  

            Muito se tem escrito sobre a importância da relação médico-paciente (RMP), na maioria das vezes enfatizando-se os aspectos ligados ao paciente, como a fragilidade ocasionada pela doença, pela dor física e psíquica, pelo medo da morte, entre outros. Tais fatores são todos verdadeiros e importantíssimos, e devem ser cuidadosamente observados pelo médico.
            Entretanto, já que se trata de uma relação, é preciso lembrar que a moeda tem duas faces. Pouco ou nada se fala a respeito do médico, de seu comportamento e atitudes perante o paciente, o que certamente há de influenciar de forma decisiva a RMP.
            De que é feito um bom médico? De que se constitui? Como se forma um bom médico? São perguntas difíceis, porém fundamentais, para as quais certamente não há respostas completas e definitivas. Não importa; já se afirmou que “o que estraga a pergunta é a resposta”. De modo que, se no futuro os estudantes de Medicina mantiverem em mente estas questões em seu cotidiano profissional, me dou por satisfeito.
            Nada nos impede, no entanto, de arriscar uma resposta, como estímulo ao nosso aparelho de pensar. O bom médico é composto por três elementos fundamentais, cada um deles comportando uma miríade de outros subelementos.
            O primeiro deles é o conhecimento técnico-científico inerente à Medicina. Sem isso, teremos apenas charlatães, alguns dos quais chegarão a ser “bem sucedidos” na profissão. Em consequência, é preciso estudar, estudar, estudar sempre, estudar enquanto for exercida a profissão de médico. O profissional desatualizado chega bem perto do charlatão; ele pode até ser bem intencionado, porém já não pode atender seu paciente com a eficiência desejada.
            A imensa complexidade da Medicina levou inevitavelmente à especialização médica e às subespecializações, no afã de aprofundar o conhecimento em cada área específica. Talvez possamos considerar o chamado clínico geral também um especialista, em generalidades. Isso tem profundas implicações no ensino médico, mas que não cabe no escopo deste pequeno texto.
            A Internet tem se constituído numa ferramenta poderosa e eficiente na função de manter os profissionais atualizados, em todas as áreas do conhecimento humano. Manejá-la bem é obrigação do médico contemporâneo. (Não é raro, nos dias de hoje, que o próprio paciente tenha pesquisado sobre seus males na Internet, antes da consulta médica. Cuidado, ele pode chegar muito bem informado...)
            O segundo elemento a compor o bom médico é o “bom senso”, ou senso comum. Ou senso clínico, se assim o desejarem. Não estou certo se se trata de uma condição inata, mas não há dúvida que pode ser aprimorada constantemente. O fato é que desde cedo, enquanto alguns estudantes revelam enorme aptidão para o atendimento médico, do qual a RMP é fundamental, outros mostram-se completamente inábeis, desajeitados, ansiosos, pouco à vontade diante do paciente. Estes devem procurar especialidades médicas nas quais o contato com o paciente é mínimo ou até mesmo inexistente. Alguns encontram na pesquisa o lugar ideal para se desenvolverem com sucesso. (De resto, a escolha da futura especialidade deve ser cuidadosamente pensada, discutida, para que se evitem equívocos capazes de destruir a vida de um profissional.)
            Chegamos ao terceiro e mais complexo elemento constituinte de um bom médico. Complexo pela sua abrangência e dificuldade para ser alcançado, porque demanda tempo  e forte disposição de espírito. Refiro-me à cultura geral. Sua aquisição começa bem antes do curso de Medicina e depende, no início, do adequado ensino fundamental. Quando o estudante chega à Universidade, espera-se que ele já traga um bom cabedal de conhecimentos ditos gerais, nas diversas áreas do conhecimento, particularmente na área humanística. O que há de influenciar decisivamente sua formação como ser humano, e por conseguinte, sua atuação como médico.
            Penso que o contato com as artes de modo geral, e com a Literatura e Filosofia em particular, seja da maior importância na formação do médico. Além de proporcionar o melhor conhecimento do ser humano – o objeto mesmo de trabalho da Medicina – este contato auxilia a pessoa do médico na difícil compreensão da existência, na aceitação das continuadas frustrações ao longo da vida, nas agruras da prática médica cotidiana. Ajuda, enfim, no conhecer-se a si mesmo. Só assim será possível o melhor relacionamento com o outro, seja ele um paciente ou não. Dá-se a isso o nome de formação humanística.
            Do mesmo modo que a Medicina é uma ciência que requer o livre pensar para se desenvolver, essa cultura geral deve ser perseguida também com total liberdade de pensamento, despojada de quaisquer fundamentalismos ou pré-concepções. A boa notícia é que temos a vida toda para isso!
            Diversos outros subelementos constituintes do bom médico, como por exemplo a capacidade de desenvolver empatia, o saber ouvir, o total comprometimento para com o paciente, podem ser enquadrados nos três elementos fundamentais acima descritos.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Reler Cervantes aos 70


D. Quixote e Sancho Pança, por Candido Portinari (1956)

Próximo dos 70, todas as pessoas deviam visitar D. Quixote de La Mancha. Para aqueles que nunca o leram, será uma gratíssima surpresa! Para alguns que já o conhecem, certamente será uma revisitação não menos surpreendente. Este é o meu caso.
E por que lê-lo ou relê-lo em idade mais madura, ou mesmo na velhice? A primeira razão há de saltar aos olhos do leitor, logo nos primeiros capítulos: é quando não mais se tem medo do ridículo. Os aspectos mais trágicos do texto, representados pelo Cavaleiro da Triste Figura, podem revelar a comicidade inevitável contida no ridículo. Antes mesmo de sair para as famosas aventuras, D. Quixote revelara-se inveterado leitor, o que constitui a essência mesma de seus delírios e fantasias. O mesmo pode ocorrer com o leitor mais velho e tomado desde a juventude pelo vício da leitura. (Não me lembro de um dia sequer, nos últimos 50 anos, em que eu não tivesse nas mãos um livro.) Não estou sugerindo que o leitor de hoje seja tomado pela loucura de Quixote. Antes, que ele tenha o privilégio de ter feito da Literatura uma companheira da vida inteira, livre das interpretações acadêmicas e análises morfológicas e sintáticas das obras lidas e relidas.
Passemos à segunda razão. Em idade mais avançada fica mais fácil apreender que a vida não passa de uma ilusão. Aqui, mais uma vez, ficção e realidade se misturam e se fundem, como na vida e na arte. A metáfora dos moinhos de vento torna-se mais clara do que nunca. E Dulcinéia d`El Toboso, vista também como uma miragem.
            Porém, o Cavaleiro Andante não tem nada a perder, está disposto a correr todos os riscos. Esta é a terceira razão para se ler D. Quixote na velhice: nada mais a perder. Outra maneira de dizer a mesma coisa, no tom popularesco do romance cervantino e condizente com a própria vida é O que vier agora é lucro. Sancho Pança, bem mais jovem, não pode compreender esta inclinação de seu amo e a todo custo procura trazer Quixote para uma zona de segurança, o que é recusado com veemência pelo nosso herói. (A despeito disso, na vida é sempre bom ter um Sancho por perto.)
            Agora Quixote já pode lidar com seus fantasmas. Eis o quarto motivo para ler ou reler o livro na velhice. A esta altura, nossos fantasmas tornaram-se companheiros de viagem, podem ser encarados de frente e sem medo, penso até que nem são mais fantasmas. Eles carregam todas as nossas fraquezas e fragilidades e imperfeições e vicissitudes, com a diferença que agora podem ser reconhecidos como tal. Nossos fantasmas são a nossa infância. Por isso D. Quixote parece uma criança.
            Em quinto lugar, há a oportunidade de se aprender a não temer a morte. Melhor a honra preservada, ensina Quixote. Mas que isso não seja fruto da loucura quixotesca, e sim da capacidade de pensar nossa humana finitude. “Viver é muito perigoso”, não cansa de repetir Guimarães Rosa em Grande Sertão. (Não conheço comparação sistemática entre D. Quixote e Grande Sertão; decerto haverá semelhanças, é bem possível. Fica para Eliana Cardoso, especialista em Literatura Comparada.)
            Em sexto lugar, ler dois volumes com 700 páginas cada um, em qualquer idade torna-se um ótimo antídoto contra o imediatismo, a velocidade irrefreável, a instantaneidade do mundo virtual que nos cerca e nos sufoca e nos domina na atualidade. Capítulo após capítulo, a narrativa lenta, às vezes monótona – a andadura cansada de Rocinante –, às vezes agitada, como na vida, nos ensina a ter paciência. Quem sabe ler, pensa; quem pensa, compreende; quem compreende, aprende. Como na escola da vida.
            Por último, e não menos relevante, há o imenso prazer da leitura de Cervantes, simples, clara, quase ingênua, uma permanente conversa bem humorada com o leitor, que se estiver perto dos 70, mergulha na história e delira e alucina e ri e chora com nosso herói. 
           Por inumeráveis razões, D. Quixote de La Mancha espera pela visita do leitor de qualquer idade.


Fogo e água

A foto do dia.


Ilha vulcânica no Japão.


Convivendo com o ebola



Patrícia Campos Mello e Avener Prado, enviados especiais da Folha de S. Paulo, acompanharam o trabalho da infectologista italiana Livia Tampellini, 38, no maior centro de tratamento de ebola do mundo, hospital com 80 leitos, construído no meio da selva em Kailahun, leste de Serra Leoa.(1)
A médica relata que costuma ter dois pesadelos recorrentes. Em um deles, ela está em um vilarejo, e uma pessoa com ebola vem correndo e vomita em seus pés. Em outro, ela sonha que uma de suas luvas se rasga, demora a perceber e se contamina com o vírus.
Ambos os sonhos dão a exata dimensão do terror que é trabalhar em tais condições. Livia entra todos os dias na área de alto risco do hospital para cuidar de doentes de ebola, altamente contagiosos.
Para que não haja transmissão da doença, Livia não pode tocar em ninguém durante meses, o que é muito difícil de suportar. Diz ela: “Depois de dias assistindo a pessoas morrerem, às vezes precisamos muito de um contato humano. Por isso, às vezes nos abraçamos dentro da área de alto risco, todos vestidos com a roupa de proteção, só para sentir um contato físico.”
            Imagino que este gesto possa significar o retorno à mais tenra infância, quando o bebê necessita, além do alimento que desce pela boca – o leite materno – e que vai nutrir o corpo, o contato físico com a mãe, que alimenta o espírito. Estes representam os dois elementos fundamentais na formação do ser humano.
Mesmo depois de adultos, em determinadas situações de grande ameaça a nossa integridade física e mental, precisamos de colo, o que não nos desmerece como seres humanos. Apenas não nos esqueçamos de nossas origens. (Lembro-me bem de uma “difícil” sessão de análise em que, ao final, perguntei ao meu analista se eu podia dar-lhe um abraço. Felizmente ele concordou...)



segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Certas mortes...


Morreram recentemente, em curto espaço de tempo, alguns de forma trágica ou violenta, Eduardo Coutinho, Philip Seymour Hoffman, José Wilker, Gabriel García Márquez, Jair Rodrigues, Alan Resnais, Paco de Lucia, Shirley Temple, Luciano do Valle, Nadine Gordimer, Paulo Goulart, Bellini, James Garner, Rose Marie Muraro, Max Nunes, Plínio de Arruda Sampaio, Lauren Bacall, Rubem Alves, João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna, Robin Williams, Eduardo Campos. Perdoem-me os mortos não citados; não que os desmereça, mas são tantos.
            Algumas mortes causam perplexidade antes de tudo. Chocam pelo inesperado, como se, por uma razão ou outra, o morto estivesse acima do bem e do mal, e fosse imortal. A culpa não é do morto, nós é que nos iludimos. Quando ouvimos a frase Ninguém esperava que ele morresse, estamos falando da nossa própria fantasia de imortalidade.
            É preciso a morte inesperada, abrupta e violenta de uma personalidade de projeção nacional para que as pessoas se deem conta do imponderável da vida. Mas este mesmo imponderável está presente cotidianamente na vida de todos nós, e não nos damos conta disso, ou não queremos nos dar conta; às vezes, apenas não podemos. É muito forte, porque trata-se de uma defesa, a ilusão de que temos o controle sobre nossa própria vida.
Faz parte desta ilusão a busca e a crença em um determinado sentido para a vida. Creio que o sentido da vida é a falta de sentido da vida. E reconheço que esta não é uma ideia fácil de ser aceita pelo ser humano, que perde assim o apoio da ilusão de um deus-pai que tudo e a todos provê. Não há mais o consolo da religião, e ninguém gosta de ouvir A vida é assim mesmo!, pois isso não consola nos momentos de dor.
De qualquer modo, certas mortes servem para nossa reflexão, cada um com suas convicções, é verdade, mas sempre com a possibilidade de pensar sobre elas, com liberdade e sem dogmatismos.