terça-feira, 22 de julho de 2014

O trocadilho não morreu: Homenagem a Emílio de Menezes



Em recente crônica na Folha de São Paulo (27/7/2014), José Simão saiu-se com esta pérola: “O Maluf partiu pro Skaf. Skafedeu!” Eis o trocadilho perfeito!
Segundo Houaiss, trocadilho vem de troca + -ilho; em espanhol, a expressão a la trocadilla, significa “às avessas”. Deonísio da Silva, em De onde vêm as palavras (Novo Século, 2009), ao tratar do verbete cita Millôr Fernandes, que se referia a José Sarney como Sir Ney; e João Batista Figueiredo, que chamava Tancredo Neves de Tancredo Never.
            A conotação política está presente em grande parte dos trocadilhos, mas não é obrigatória. Entre os anos 50 e 60, cursava eu o segundo grau em Guaratinguetá, no Instituto de Educação Conselheiro Rodrigues Alves, e fazia parte de um quarteto de trocadilhistas, composto por dois vetustos professores, o de física, Valdemar da Ponte, a de química, Santina Gianico, o colega Geraldo e este modesto blogueiro. A disputa era permanente e motivo de muita gargalhada. Tínhamos até um patrono ilustre, Emílio de Menezes!
            Emílio Nunes Correia de Menezes nasce em Curitiba em 1866. Aos 20 anos embarca para o Rio de Janeiro, trabalha por pouco tempo no Banco do Brasil, quando passa a se dedicar ao jornalismo. Envolve-se com a Bolsa de Valores, ganha muito dinheiro e vive como um boêmio, frequentador assíduo da Colombo. Publica inúmeros livros de poesia, quase todos de cunho satírico.
Josué Montello prefacia a Obra Reunida do autor (José Olympio Editora, 1980) e registra que, com a morte de José do Patrocínio, em 1905, fala-se em Emílio de Menezes para seu sucessor na ABL. Sondado por alguns acadêmicos, o presidente da instituição, ninguém menos que Machado de Assis, leva alguns imortais a um bar no centro da cidade, “em cuja parede aparecia o poeta a empunhar um copázio espumante”. O nome de Emílio não é aprovado.
Em 1916, com a morte de Salvador de Mendonça, Emílio candidata-se à vaga, sendo eleito por larga margem de votos, batendo o grande Gilberto Amado. Seu discurso de posse é censurado e Emílio não toma posse. Morre em 8 de junho de 1918. Apenas em 1924 a ABL divulga, com modificações, seu discurso de posse.
Emílio traduziu o famoso poema O Corvo, de Edgar Allan Poe, e dedicou-o a Machado de Assis, com as seguintes palavras: “Ao inexcedido e inexcedível tradutor do genial poema de Edgar Poe, consagro esta pálida paráfrase que em nada se aproxima e jamais pretendeu aproximar-se da imorredoura tradução feita pelo Mestre dos Mestres.”
Grande cultor do soneto, eis um exemplo do poeta parnasiano (Poesias, 1909):

Noite de insônia

Este leito que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,
Onde este grande amor floriu, sincero e justo,
E unimos, ambos nós, o peito contra o peito.
Ambos cheios de anelo e ambos cheios de susto;

Este leito que aí está revolto assim, desfeito,
Onde humilde beijei teus pés, as mãos, o busto.
Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito.
Mudou-se, para mim, num leito de Procusto!...

Louco e só! Desvairado! A noite vai sem termo
E, estendendo, lá fora, as sombras augurais.
Envolve a Natureza e penetra o meu ermo.

E mal julgas talvez, quando, acaso, te vais,
Quanto me punge e corta o coração enfermo,
Este horrível temor de que não voltes mais!...

Além de poeta satírico, Emílio cultivou a arte do trocadilho. Cito alguns exemplos, todos de uma ingenuidade comovente.

“O ministro da fazenda adquiriu, para o serviço externo da Diretoria Geral do Gabinete, uma “barata” da força de 60 cavalos. Admira que tenha feito semelhante aquisição um financeiro como o sr. Xico Salles. Por que não adquiriu s. ex.a um landaulet? Pois não sabe s. ex.a que a barata sai cara?”

“– Conheces? É a mulher do Properoso: é uma santa...
– Já ouvi dizer: por isso é que os amigos do marido a chamam Nossa Senhora.”

“Dizem os telegrama de Roma que os italianos tomaram o porto de Acaba. A crer na verdade das palavras deve ser esse o fim da luta.”

            “Entre funcionários:
            – A minha repartição é um verdadeiro Mar Morto.
            – Por que?
            – Faltam-lhe vagas”.

            “Fala-se de um dos nossos mais conhecidos elegantes colombianos, grande bilontra, e cuja esposa é muito ciumenta:
            – Sabes? O S. tem agora uma deliciosa amante.
            – Já me disseram; por sinal que há um ponto de semelhança entre ela e a esposa legítima, observa o Domingos.
            – Qual?
            – É que a amante é deliciosa e a esposa dele ciosa.”

            “Numa festa, a senhora da alta sociedade perguntou a Emílio:
            – O sr. sabe quais são os encantos da mulher?
            Ao que ele respondeu de pronto:
            – Sei-os...”

Logo que cheguei a Brasília, uma senhora aflitíssima abordou-me numa superquadra, dizendo ter sido informada que precisava de autorização de um ministério para poder viajar com seu cãozinho. Perguntou-me se eu sabia que ministério era esse, ao que respondi instantaneamente, Minha senhora, só pode ser o Ministério das Cãomunicações! A mulher não gostou da pilhéria e saí de fininho, mas orgulhoso de minha obra prima.
Da lavra de meu irmão Paulo: A mulher entra numa loja chique e pergunta o preço de um par de luvas. "Mil e quinhentos reais", informa a vendedora. "Cara!", reage a cliente. "Elas são de couro de javali, Senhora." O marido, ao lado, solta, sem pestanejar: "Então eu já-vou-ali e volto..."

Há quem classifique os trocadilhos como algo infame. Discordo. São apenas jogos de palavras, cheios de humor, e quando espontâneos, são capazes de provocar o riso sincero em todos nós. E dizem que rir é o melhor remédio...


Pé-quente, pé-frio


Baseado em fatos reais.

 Perdeu o voo, o avião caiu. Perdeu outro voo, o avião caiu. Foi proibido de comprar passagens aéreas.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

A dança, de Henri Matisse




Existem duas versões desta obra. A primeira (de 1909), atualmente no MomA, em Nova Iorque, e que aqui vai estampada, usa cores mais pálidas, com menos detalhes. A segunda versão (1910) encontra-se no Museu Hermitage.

Foto: A.Vianna, NY, 2012.

(In)comunicaveis


Ao reclamar da altura da música, o vizinho gritou:
– Tem alguém surdo aí?
– Heim?

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A infância de Eliane Brum



            
                       Eliane Brum, gaúcha de Ijuí, é documentarista, jornalista e escritora. Eu já conhecia a moça, de crônicas esparsas em jornais e revistas, e já gostava muito dela.
               Em uma resenha publicada no Valor em 11 de julho último, por Gonçalo Júnior, tomei conhecimento de seu novo livro, Meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras (Ed. LeYa, 2014). O livrinho (porque de formato pequeno, 140 páginas) é ótimo!
            Eliane começa falando da irmã que morreu antes dela nascer e que marcou definitivamente sua primeira infância. “E é curioso que minha primeira lembrança seja a morte”, escreve ela. Lembrei-me do último romance de Valter Hugo Mãe, A desumanização, cujo tema central é semelhante: uma das irmãs gêmeas morre e a outra passa a ser chamada de “a menos morta”. Havia uma mais morta e outra menos morta.
            Lembrei-me ainda do livro de José Saramago intitulado As pequenas memórias (Companhia das Letras, 2006), onde o  autor revive a infância, seus medos, humilhações, toda sorte de dificuldades.  
            A menina, que desejava ser Isabel mas foi nomeada Eliane, cresce, fala da família – particularmente dos avós e pais – com aguçadíssimo senso de observação, numa escrita bem humorada. Transcrevo a descrição do avô:

“Meu avô a rigor não era um analfabeto, faltavam-lhe as vogais da alma.
Não se interessava por romances nem por sutilezas. Para ele, a vida parecia bastante simples. Bastava uma bela polenta, uma mulher bonita que soubesse fazer uma bela polenta, uma caçada de codornas (para comer com uma bela polenta, na companhia de uma mulher bonita).”

            Eliane entremeia o passado com atualidades, destacando sua atuação como jornalista de posições firmes e independentes.

“A reportagem me deu a chance de causar incêndios sem fogo e espernear contra as injustiças do mundo sem ir para a cadeia. Escrevo para não morrer, mas escrevo também para não matar.
            Ouvi de alguns chefes que a indignação faz mal para o exercício do jornalismo, que bom jornalista não tem causa. Discordo. Indignação só não faz bem para quem tem como única causa a do patrão.”

            O livro termina – a autora por volta de seus 21 anos de idade – com uma confissão corajosa, intimista, de uma mulher que aprendeu fazer de sua fragilidade a sua força. Eliane destaca, acima de tudo, a importância da escrita nesse processo, e que ela domina magistralmente.
            Eu, modestamente, não me canso de repetir: a escrita é terapêutica.