quarta-feira, 11 de junho de 2014

Little street, de Vermeer


Tela exposta no Rijkmuseum, Amsterdam (1657-1661).

Canal em Amsterdam

A foto do dia.

Foto: A.Vianna, maio de 2014.

Humano, de tão desumano


A ideia de um escritor português nascido em Angola escrever um livro cuja história se passa na Islândia parece por si só extravagante.
            A outra ideia, central no romance, é bastante original: uma das irmãs gêmeas morre, e a outra passa a ser chamada de “a menos morta”. Havia uma mais morta e outra menos morta. A menos morta diz, “Éramos gémeas. Crianças espelho. Tudo em meu redor se dividiu por metade com a morte.”
            Estou falando do último livro de Valter Hugo Mãe (agora com maiúsculas), A desumanização (Cosac Naify, 2014). Não se trata de um livro fácil, definitivamente. Causa no leitor uma espécie de desconforto, de estranhamento depressivo, sensação de vazio. Há um fosso medonho no alto da montanha, chamado de “a boca de deus”, de onde as pessoas são jogadas e desaparecem. Medo, acho que senti medo com a leitura de A desumanização. Até os nomes dos personagens soam misteriosos: Sigridur, Halla, Einar, Thurid, Hilmar. E a história, que o autor apenas nos deixa entrever, pois é contada cheia de lacunas, é tristíssima, como sugere o título do romance.
            O que nos chama mesmo a atenção é a linguagem utilizada por Mãe, linguagem verdadeiramente poética e encantadora, de um forte lirismo trágico. Eis uma pequena amostra:

“Achei que a minha irmã podia brotar numa árvore de músculos, com ramos de ossos a deitar flores de unhas. Milhares de unhas que talvez seguissem o pouco sol. Talvez crescessem como garras afiadas. Achei que a morte seria igual à imaginação, entre o encantado e o terrível, cheia de brilhos e susto, feita de ser ao acaso. Pensei que a morte era feita ao acaso.”

            Podemos dizer que a leitura do curto romance de Mãe – são apenas 150 páginas – constitui-se num desafio que, no meu ponto de vista de simples leitor, vale a pena enfrentar.

terça-feira, 10 de junho de 2014

O Mito de Narciso ontem e hoje


Narciso (1594-1596), de Caravaggio

Uma bela coleção de ensaios filosóficos é apresentada no volume organizado por Cícero Cunha Bezerra e Oscar Federico Bauchwitz (Neoplatonismo: tradição e contemporaneidade, Hedra, 2012). O primeiro artigo, Plotino entre Narciso e Ulisses: jogos de espelhos e a nostalgia da casa, de autoria de Marcus Reis Pinheiro, traz interessantíssima revisão histórica e filosófica do mito de Narciso, tema de grande interesse entre psicanalistas, depois da conhecida abordagem freudiana.
            O autor apresenta cinco versões antigas do mito, a começar pelo poeta romano Ovídio (43 a.C. – 17 ou 18 d.C.), que em Metamorfoses, descreve Narciso como alguém que despreza todos aqueles que dele se enamoram. A primeira vítima é a ninfa Eco, que de tão envergonhada esconde-se numa caverna e definha até virar apenas voz. Em um dia de caça, sedento, Narciso se debruça sobre um lago de águas tranquilas e se apaixona por sua própria imagem. Segundo Ovídio, Narciso chega a ter consciência do que se passa consigo próprio, mas não consegue se desvencilhar da figura refletida, e acaba por sucumbir. As ninfas dos rios preparam-lhe o funeral, enfeitando-o com a flor do narciso, que nasceu onde ele morreu afogado.
            Conon (I a.C.), em Narrações, descreve o desprezo de Narciso pelos seus amantes e zomba explicitamente de Eros, deus do amor, que então dele se vinga.
            Pausânias (II d.C.), um geógrafo que passeia pela Grécia, apresenta versão menos conhecida, em que Narciso tem uma irmã gêmea. Após a morte dela, o sofrimento de Narciso é aliviado quando ele mira a própria imagem no lago.
            Filóstrato, o Velho (III d.C.), enfatiza a passividade de Narciso, que permanece numa mesma posição diante de sua imagem refletida, esperando que um outro tome a iniciativa (provável sinal de impotência?).
            Plotino (205 – 270), filósofo grego nascido no Egito, dos mais antigos a interpretar o mito, diz que Narciso representa o homem apegado à beleza do corpo, incapaz de compreender o amor, e que confunde a imagem com o real. Por seu desprezo por Eros – despreza todos que se enamoram por ele –, acaba por se afogar. Para Plotino (e também Platão), o homem deve aprender que além da beleza do corpo, há uma outra muito mais intensa no nível inteligível. E adverte, com palavras atualíssimas: “Nós não estamos acostumados a olhar o interior das coisas, nem o conhecemos, mas procuramos o exterior, ignorando que é o interior que nos move.”
            Em resumo, Narciso, filho do deus-rio Cesifo e da ninfa Liríope, era de uma beleza ímpar, tanto que sua mãe, preocupada desde seu nascimento, foi consultar Tirésias, que afirmou que o jovem poderia viver muito “se não se visse” (Ovídio, Metamorfoses). Narciso foi punido com a morte ao ver sua imagem refletida na água.
            Sob o ponto de vista filosófico, é difícil encontrar algo de positivo no comportamento de Narciso. Tanto que o dicionário Houaiss registra como definição de Narcisista, “que ou quem é muito voltado para si mesmo, especialmente para a própria imagem”. Narcisismo virou sinônimo de egoísmo extremo.
            Em 1914, Sigmund Freud publicou artigo fundamental, complexo, em que muitos aspectos permanecem em aberto, intitulado Sobre o narcisismo: uma introdução, trazendo à luz um novo enfoque sobre o mito de Narciso. Inicia dizendo que o termo foi inicialmente utilizado por Paul Näcke em 1899, e descreve dois tipos de narcisismo, um primário e normal, e outro secundário.
O narcisismo primário constitui uma fase necessária no desenvolvimento humano, bastante precoce, quando surge um primeiro esboço do ego, fase que vai do funcionamento anárquico, auto-erótico, à escolha de objeto. Em outras palavras, a criança investe toda sua libido em si mesma. A onipotência de seus pensamentos dá esta possibilidade à criança.
            O narcisismo secundário significa a retirada dos investimentos no objeto, e o retorno da libido ao ego. Segundo Laplanche e Pontalis (Vocabulário da Psicanálise), “Para Freud, o narcisismo secundário não designa apenas certos estados extremos de regressão; é também uma estrutura permanente do sujeito: a) No plano econômico, os investimentos de objeto não suprimem os investimentos do ego, antes existe um verdadeiro equilíbrio energético entre essas duas espécies de investimento; b) No plano tópico, o ideal do ego representa uma formação narcísica que nunca é abandonada.”
            Ou seja, narcisistas somos todos nós. Mas há uma questão de intensidade. No convívio social, não é difícil perceber o sujeito que só conjuga os verbos na primeira pessoa do singular – ele mesmo. Julga-se ainda, como uma criança, o centro do universo, e deseja tudo para si. Quando há equilíbrio entre os investimentos no ego e no objeto, e é possível olhar-se no espelho sem danos, uma certa dose de narcisismo pode estar bem próxima do que chamamos autoestima, sentimento fundamental para o ser humano.
            Marcus Pinheiro termina seu artigo explicando a intrigante epígrafe do próprio texto: “A luz no fim do túnel é um espelho”. Ele encontra tal ideia na ambiguidade sobre a busca erótico-filosófica em Plotino, afirmando que “buscamos algo somente na medida em que ainda estamos ignorantes da fonte do objeto que buscamos. Quando “encontrarmos” aquilo que buscamos, surge a constatação de que nunca havíamos nos apartado do nosso objeto amado, mas se encontrava tão próximo de nós mesmos que já o éramos: o nível inteligível.”
            

a véspera


os automóveis rodam devagar
pelas avenidas vazias
ninguém avança o sinal
não se ouvem buzinas
o trânsito flui sem engarrafamentos
as greves terminaram
(com ou sem os aumentos pretendidos)
os mais precavidos ou delicados
já não saem de casa
não há brigas entre casais
que decretaram um mês de paz
as férias escolares
fazem a festa das crianças
o caminhão do gás suspendeu as entregas
os supermercados estão vazios
(há comida estocada
para uma guerra nuclear)
empregadas domésticas avisaram
que não vão trabalhar
carteiros não entregam correspondência
farmácias ainda vendem calmantes
os suicídios estão adiados
algumas rádios só tocam música clássica
(como na Semana Santa de antigamente)
as bandeirinhas verde-amarelas se esgotaram
reina um grande silêncio
até mesmo entre os cães
(Orson Welles morreria de inveja)
pois estão todos concentrados
porque amanhã
                        amanhã!
             tem jogo do Brasil

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Mantiqueira ameaçada

A foto do dia.


“Ambientalistas temem que as imagens sejam o prelúdio de uma investida mais acentuada "montanha acima" da mineração na Serra Fina, motivada pela abertura de novas indústrias no Vale do Paraíba nos últimos anos - entre elas, várias montadoras de carros e uma filial da maior fabricante de vidros do mundo, em Guaratinguetá.”

festa no jardim


buganvília branca
grinalda numa mangueira
-- a busca do sol