Seus
cães não eram adestrados. Tampouco lhe obedeciam. Cada um era como era.
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Ninharias
Baseado em fatos reais.
Discutia diariamente com o porteiro por ninharias.
Certo dia, matou-o, esquartejou-o e tocou fogo. Hoje, encarcerado, não discute
com mais ninguém.
terça-feira, 3 de junho de 2014
Volendam
A foto do dia.
Volendam é uma antiga vila de pescadores, a meia hora de Amsterdam.
Foto: A.Vianna, maio de 2014.
Jardim das Esculturas
Depois que o viajante termina a visita ao
interior do Kröller-Müller Museum, próximo à pequena cidade de Otterlo, ao
nordeste da Holanda, e se delicia com a inacreditável quantidade (e qualidade)
de quadros de Vincent van Gogh, entre outros artistas de renome, ele penetra
num enorme espaço ao ar livre, o Jardim das Esculturas.
Impossível
não se surpreender com a “escultura” de Marta Pan (Budapest, 1923 – Paris,
2008), intitulada Anphithéâtre, construída entre 2005 e 2007.
O
viajante leva um susto ao se deparar com o nome de Ana Maria Tavares, uma
brasileira de Belo Horizonte (1958), cujo trabalho leva o título de Segredo das
Águas, ao lado de artistas como Rodin, Aristide Maillol, Bourdelle, Isamu Noguchi,
entre outros.
Uma
experiência única a visita ao Kröller-Müller Museum, incluindo o Jardim das
Esculturas.
Foi tudo mentira...
Com título sugestivo e ao mesmo
tempo poético – “Foi tudo mentira, você não me amou” – Eliana Cardoso compôs a
belíssima crônica publicada no Eu & Fim de semana, do Valor Econômico.
Iniciou
citando Borges e Rabelais (Gargântua e Pantagruel), passou por Umberto Eco e o
contemporâneo Robert Trivers, fez rápida e interessantíssima referência a Sun
Tzu (“A habilidade suprema do guerreiro é vencer sem combater”), para deter-se
em Um copo de cólera, de Raduan Nassar.
O
tema central da crônica é a mentira e o autoengano:
“Talvez não tanto quanto Baudolino, o homem comum também mente.
Mente mais para si mesmo do que para os outros. A razão, explica Robert Trivers
em Deceit and Self-Deception (Penguin, 2014, ainda sem tradução em português)
reside no fato de que mentir para si mesmo é a melhor maneira de conseguir
enganar os outros. O mentiroso mais convincente acredita nos próprios embustes.
Na perspectiva convencional, o autoengano funciona como mecanismo
de defesa. Para sobreviver num mundo perigoso onde nos sentimos vulneráveis, as
mentiras nos reconfortam como os narcóticos (conceituais ou químicos) e nos
ajudam a evitar verdades desagradáveis.” (1)
Eliana destaca três movimentos em Um copo de cólera, e disseca
a relação de amor e ódio – mais ódio que amor – entre duas pessoas “supostamente
enamoradas”. E conclui com uma frase genial (aqui, ela bem que poderia ter
citado Freud...), útil para todos nós, especialmente em se tratando de
relacionamento humano: “Quem não aprende, repete”.
A crônica integral está disponível também no site da
autora. É só clicar e deliciar-se:
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Machado facilitado
Para minha surpresa, no mesmo Caderno 2 de O Estado de S. Paulo deste domingo último, dois articulistas de peso, João Ubaldo Ribeiro e Humberto Werneck, trataram do “Machado facilitado”, se é que se pode chamar assim a publicação de O Alienista simplificada por Patrícia Secco. Portanto, o assunto permanece em aberto.
Nem preciso dizer que Ubaldo
e Werneck, de forma bem humorada, porém sarcástica, descem o malho no tal
projeto. Penso que tratar deste assunto – cometer o sacrilégio de adulterar uma
vírgula sequer em Machado de Assis –, embora tenha sua importância pedagógica,
é como chutar cachorro morto. Somos todos contra! É possível que a própria
Patrícia esteja arrependida da empreitada, tamanha a gritaria que provocou. O
Estado (MEC), responsável pela publicação, e infalível como sempre, jamais se
pronunciará arrependido.
É possível extrair/pensar
alguma coisa de útil diante deste insólito acontecimento? Parto do princípio de
que Patrícia Secco esteja bem intencionada, pois, do contrário, não há porque
tratar do assunto. Assim sendo, a constatação é: Como é difícil ensinar!
Ensinar nunca foi dar de
mão-beijada.
Quanto mais mastigado for
oferecido o conteúdo, menos interesse há de despertar no aprendiz. A preguiça
sim, haverá de ser alimentada. A materialização desta ideia é a famigerada
apostila: não há nada mais antipedagógico, mais emburrecedor que a apostila.
(Ainda há alunos e professores que a desejem.)
Se for difícil demais, o
aluno (ou alguns deles) necessitará de ajuda, e a presença do professor – que não
poderá ser substituído por um tablet –
será então de fundamental importância, ou o aprendiz criará ojeriza pela
matéria. Ler Machado de Assis cedo demais pode propiciar este efeito nocivo.
(Lembro-me da primeira vez que abri o Grande Sertão: não passei da primeira
página. Anos depois, eu que não conhecia o desfecho da história, emocionei-me
às lágrimas com o que considero o melhor livro que já li até hoje.)
Motivar o estudante será
sempre uma estratégia inteligente por parte de quem pretende ensinar. Mas o
esforço indispensável do aprendiz ainda assim deverá ser individual e
intransferível. (Certa feita, num seminário com estudantes de Medicina,
apresentei um problema e iniciei a discussão, na expectativa de que o grupo
chegasse a uma resposta satisfatória. A cada tentativa dos alunos eu respondia
com um não. Após inúmeras respostas que eu julgava incorretas, um aluno
interpelou-me, de modo grosseiro e agressivo, e disse Porque o senhor não dá
logo a resposta? De fato, se eu tivesse oferecido a resposta sem discussão, não
teria passado por este dissabor. Como é difícil ensinar.)
Simplificar não é motivar.
Dar de presente um dicionário pode vir a ser uma motivação. O Dicionário
Analógico da Língua Portuguesa, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo
(Lexicon, 2010), traz magnífico prefácio de Francisco Buarque de Hollanda, isso
mesmo, o Chico, intitulado Os dicionários de meu pai. Pouco antes de morrer, o
“pai do Chico” (assim o famoso Sérgio Buarque de Hollanda referia-se a si
próprio) deu de presente ao filho a primeira edição deste dicionário, e dele o
nosso Chico nunca se separou. Talvez a MPB não fosse a mesma sem o Dicionário
Analógico...)
Enfim, o tema “como
ensinar” é inesgotável, e não é uma croniquinha como esta que irá fazê-lo. São
apenas digressões sobre a tal simplificação de Machado, o que equivale a tirar
leite de pedra.
Assinar:
Postagens (Atom)
