segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Assustado

Tamanha a intolerância dele a sustos que, independente do filme, quando as luzes do cinema se apagavam ele saía correndo.

Desintoxicação


Ele tomava 10 remédios, 28 comprimidos por dia. Intoxicado, resolveu diminuir a dose: 27, 26, 25... Morreu limpo!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

adversidade

Ao meu amigo Sergio.


junto ao meio-fio
no ambiente mais adverso
as pequenas flores

Foto: A.Vianna, Brasília, 2013.

A mão do homem


A Natureza, muitas vezes belíssima, não produz arte; a intervenção humana cria a arte.

Foto: A.Vianna, Brasília, 2013 (tronco de um eucalipto).

terça-feira, 22 de outubro de 2013

As imagens e as palavras


No caderno Ilustrada da Folha, no último domingo (20/10), Ferreira Gullar publicou a crônica A magia da imagem (1), título que sugere algo aparentemente batido, repetitivo, exaurido mesmo, embora verdadeiro: a força da imagem. Ele começa falando da necessidade do homem pré-histórico em pintar bisões cravejados de flechas nas paredes das cavernas, talvez para que as caçadas tivessem êxito. Ou seja, imagem e realidade unindo-se em uma única representação, dando origem à Arte.
            Às tantas, o poeta afirma: “Esse universo de significações, no entanto, não se contenta com a expressão visual das formas, das imagens. Ele necessita decifrá-las, traduzi-las na linguagem das palavras. Mas como disse Ernst Cassirer, as linguagens são intraduzíveis entre si, ou seja, o que a imagem diz, a palavra não consegue dizer.”
            Eis a contradição interessantíssima: a necessidade humana de interpretar imagens e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de fazê-lo.
            O que me remete imediatamente a Arthur Bispo do Rosário e sua obra indecifrável. Falo especialmente das peças em que repetição de objetos comuns, prosaicos, banais, causam no expectador o indizível impacto, a impossibilidade do entendimento, a falta de sentido.
            Num primeiro momento, o expectador associa esta falta de sentido à reconhecida loucura do autor. Num segundo momento, e esta é a ideia que prevalece hoje em dia, percebe-se que há algo mais além da loucura, ou que a loucura por si só não explica a obra de arte.
O expectador “sofre” em silêncio o impacto da imagem, sem ter o que dizer, sem saber o que pensar, diante do objeto que se lhe é apresentado. Chega a doer na alma.



 









Gullar acrescenta mais adiante: “Isso não significa, porém, que a expressão vocabular seja um exercício descabido e inútil. Pelo contrário, por ser também uma linguagem autônoma, a palavra cria significações – leituras – que se somam à expressão visual das imagens. Nesse sentido, o texto crítico, analítico ou poético sobre uma obra de arte pode de certo modo incorporar-se a ela, não como tradução da obra, mas como interpretação que a enriquece.”
Quando o homem dedica-se ao estudo da História da Arte – as imagens e as palavras lado a lado –, é precisamente isso que ele busca, enriquecer-se a partir das diferentes leituras das obras de arte, que são dinâmicas e mudam com o passar do tempo e com os diferentes modos de ver e pensar a própria arte.


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O livro ameaçado


O Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa afirmou no 5º Congresso Internacional da Língua Espanhola, no Panamá, que “o espírito crítico se empobrecerá se as novas tecnologias fizerem o livro desaparecer”. (1)
E acrescenta: “O espírito crítico, que sempre foi algo que resultou das ideias contidas nos livros de papel, poderá se empobrecer extraordinariamente se as telas acabarem por enterrar os livros. ...Estou convencido de que a literatura que se escreverá exclusivamente para as telas será uma literatura muito mais superficial, de puro entretenimento e conformista".
Não se trata, portanto, de discutir apenas o valor da mídia, o veículo, se eletrônico ou papel. (O homem se acostuma a tudo, até a ler Machado de Assis em um tablet. Para ser mais franco e amargo, nesse mundo há gosto pra tudo...) A questão que Vargas Llosa levanta é a de que o uso da mídia eletrônica altera, afeta, muda o conteúdo e/ou a forma do que é escrito, e consequentemente a qualidade do texto. Não sei se foi assim que ele disse, mas é assim que estou dizendo.
A multiplicação dos blogs na Internet é algo indiscutível nos dias de hoje. Não são poucos os autores mais jovens que antes de publicarem em papel, fazem-no em seus blogs. E alguns são muito bons! Aquilo que escreve um Hélio Schwartsman, por exemplo, quase sempre é muito bom, independentemente se no blog de um jornal ou em qualquer outro lugar, porque o homem sabe pensar. Porém, é possível que esta seja desde já uma exceção.
E o escritor peruano toca num ponto crítico, a superficialidade do texto na Internet. Parece que o leitor também não quer se aprofundar diante da tela, ele deseja uma leitura rápida, ágil, informativa acima de tudo. Isso, mais informação e menos literatura! No menor tempo possível.
Costumo dizer que o melhor antídoto para quem está viciado em Internet é ler um bom livro de 700 páginas. (Posso até sugerir As benevolentes, de Jonathan Littell, Objetiva/Alfaguara, 2007.) Mas reconheço que não há como obrigar um viciado a uma “tortura” dessas.
O tema é controverso, mas a afirmação de Vargas, que merece nossa consideração, é categórica: "É preciso fazer todo o possível para que o livro de papel não desapareça; ... há uma problemática nova com a grande transformação que significa para o livro e para a cultura em geral o desenvolvimento de novas tecnologias e, sobre isso, há muita incerteza".
            Enquanto perduram as incertezas, sugiro que continuemos comprando livros de papel.
            E “livro de papel” não seria um pleonasmo?

Espreita!

A foto do dia.


Foto: Sarah Pripas, São Carlos, SP, 2013.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Contos e contistas




Tenho um amigo inteligentíssimo que diz, em tom de mofa troça galhofa – e com isso ele deseja diminuir a importância da literatura nacional –, que o Brasil é um país de contistas. A canadense Alice Munro, recém ganhadora do Nobel de Literatura, é considerada uma especialista: ao que me consta, publicou quinze livros de contos, e com eles foi laureada!
            Vai longe a discussão sobre a importância/relevância do conto e a do romance na Literatura. Quando se trata de um cânone como Machado de Assis, fica fácil tecer os mais rasgados elogios a um e outro gênero. O homem era um mestre em ambos. Mas quando se fala, por exemplo, em Dalton Trevisan (que salto no tempo!), fica claro que estamos a falar de um contista, também um mestre no gênero dos curtos.
            Desde logo advirto, não sou especialista, sou apenas um apaixonado leitor, de tudo que é bem escrito, especialmente em língua portuguesa. (De alguns anos para cá, raramente leio uma tradução.) E como amador irresponsável, vejo com ótimos olhos a contemporânea publicação de contos em nossa literatura. Não é à toa que proliferam as antologias dos “melhores” contos brasileiros. (Infelizmente, muitas vezes fica evidente apenas o interesse comercial em tais publicações.)
            Nelson de Oliveira compilou os escritos da Geração 90 – manuscritos de computador (Boitempo, 2001). Gente de peso, como Marçal Aquino, Fernando Bonassi, Rubens Figueiredo, Marcelino Freire, Marcelo Mirisola, Luiz Ruffato, para citar alguns deles. Em seguida, este antologista publica  Geração 90 – os transgressores (Boitempo, 2003), com textos especialmente escritos para esta antologia.
Mais recentemente, o mesmo Nelson publicou Geração zero zero – fricções em rede (Língua geral, 2011), incluindo os ficcionistas que surgiram na primeira década do século 21: João Filho, Andréa del Fuego, Daniel Galera, Lourenço Mutarelli, José Rezende Jr, muitos deles postando sua produção na Internet, de onde se tornaram conhecidos antes mesmo da publicação em livro. Em tempo, José Rezende Jr. publicou o interessantíssimo Estórias mínimas (7 letras, 2010), coletânea de microcontos cabíveis no Twitter. (O autor deste blog nutre particular predileção pelos microcontos, e os cultiva sempre que uma boa ideia lhe surge no bestunto.)
Em 2012, o número 9 da prestigiosa revista Granta (em português), consagrada internacionalmente, teve como título Os melhores jovens escritores brasileiros (Ed. Objetiva), trazendo nomes como Michel Laub, Laura Erber, J.P.Cuenca, Luisa Geisler, Ricardo Lísias, Tatiana Salem Levy.
Há três autores, nem tão conhecidos assim, que gostaria de citar individualmente, pela qualidade excepcional de seus textos: Ronaldo Cagiano, com Dicionário de pequenas solidões (Língua geral, 2006); Cesar Cardoso, com As primeiras pessoas (Oito e meio, 2012); e Paulo Sergio Viana, com Fica limpo! – quase heresias (Perse, 2012).
A lista de antologias e de autores avulsos que se dedicam ao cultivo do conto é interminável, mas não posso deixar de citar a minha preferida: Mar de Histórias – antologia do conto mundial, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai (Nova Fronteira, a primeira edição em 1945, e a terceira em 1980). No prefácio, os autores levantam a questão:

“Que é, afinal, o conto? A etimologia da palavra sugere de pronto a primeira resposta: o que se conta. Mas nem tudo o que se conta é conto.”

Aurélio e Rónai buscam uma definição para o conto, no intuito de diferenciá-lo do romance, da novela, e concluem:

“Em razão de sua indefinibilidade, suas flutuações constantes, suas possibilidades inesgotáveis, sua incessante diferenciação, o conto é, pois um gênero típico que se renova sem cessar.”

Melhor conceito não pode haver! E, penso eu, a produção da literatura brasileira contemporânea atesta essa constante renovação. Se chegamos ao Nobel ou não, esta é uma outra história.