quinta-feira, 4 de novembro de 2021

A Aurora

 


Camille Claudel

Algumas respostas de Boris Cyrulnik


BorisCyrulnik em sua casa em La Seyne-sur-Mer.
Grégoire Bernardi (Hans Lucas)


 

 

“Boris Cyrulnik: “Os adolescentes mais afetados pela pandemia terão depressão crônica quando adultos”. Neuropsiquiatra francês, filho de judeus que morreram no Holocausto, cientista e divulgador, é o criador do conceito de ‘resiliência’. Publica agora um novo livro no qual afirma que o ambiente esculpe o cérebro.”Entrevista concedida a Marc Bassets para El País (31 out 2021), em conversa sobre a pandemia de covid-19.

Cyrulnik acaba de publicar PsicoecologíaEl entorno y las estaciones del alma (Psicoecologia ― O ambiente e as estações da alma). 

 

P. Tenho a impressão de que o senhor passou a vida tentando responder à pergunta sobre como é possível ter sobrevivido e superado as condições muito adversas da sua infância.

R. Acima de tudo, me perguntava como foi possível o nazismo. Os alemães eram o povo mais culto da Europa e foi na casa deles onde aconteceu um crime imenso contra os judeus, contra os poloneses, contra os russos, contra quase toda a Europa. Mais tarde, quando já trabalhava como médico e a assistente social dizia às crianças: “Olha de onde você veio, nunca poderá seguir em frente, nunca poderá estudar, não tem família”..., me lembrava do que me diziam quando eu era criança. Por isso disse a mim mesmo que trabalharia para ajudar aquelas crianças a seguir em frente.

P. A resiliência.

R. Sim, um processo familiar, amistoso e cultural que lhes permita recuperar um bom desenvolvimento apesar do traumatismo.

 

P. O cérebro não é algo isolado e imutável, como afirma em Psicoecologia.

R. Quando eu estudava medicina, diziam-me que o cérebro estava na caixa craniana, separado do mundo, e que chegávamos com um armazém de bilhões de neurônios e que todos os dias perdíamos alguns. Agora constatamos, graças à neuroimagem e à neurobiologia, que acontece exatamente o contrário. O ambiente esculpe o cérebro, molda-o. [Grifo meu.]

P. O cérebro é uma escultura?

R. Quando uma criança é privada da alteridade, seus dois lobos pré-frontais atrofiam, o circuito límbico desaparece e as tonsilas rinoencefálicas ficam hipertrofiadas. O cérebro se torna disfuncional porque não há ambiente, não há alteridade. Isso se fotografa, é muito fácil ver. Mas quando se reorganiza o ambiente, e desde que não tenhamos deixado a criança sozinha por muito tempo, vemos que os lobos pré-frontais e o circuito da memória se desenvolvem novamente e as duas tonsilas desligam. Ou seja, quando agimos sobre o ambiente, modificamos a escultura cerebral.

 

P. O que exatamente é o ambiente?

R. Existem três ambientes. O primeiro é o ambiente imediato do bebê: o líquido amniótico, a química. O segundo é o afetivo: a mãe, o pai, a família, a vizinhança, a escola. E o terceiro é o ambiente verbal: os relatos, os mitos. E esse ambiente também participa da escultura do cérebro.

 

[Digo eu: interessante a expressão “ambiente verbal”. Refere-se à força da palavra, da linguagem, alimento indispensável para o desenvolvimento do espírito. Penso que a leitura faz parte desse ambiente, e deve ser cultivada ao longo de toda a vida, o que haverá de modificar constantemente a “escultura cerebral”, no dizer de Cyrulnik.]

 

P. Por que os adolescentes são os mais afetados?

R. Na adolescência ocorre uma poda de neurônios. O cérebro funciona melhor com menos neurônios, com menos energia. Os adolescentes têm dois ou três anos para aprender a aprender, para se orientar em uma direção. Se por um conflito familiar ou porque os meninos preferem jogar futebol, esses dois anos são perdidos, depois lhes custa voltar aos eixos. Na escola ou faculdade, você ri, concorda ou discorda de um professor, seu cérebro está ativado. Diante de uma tela, o cérebro fica entorpecido.

P. Quais são as consequências de tal situação para esses adolescentes quando adultos?

R. Estarão em depressão crônica. Terão pequenos ofícios que não os interessarão. Aprenderão que a sociedade se encarregará deles. Perderam um período sensível do seu desenvolvimento. Para se reconectar, terão de trabalhar 10 vezes mais.

 

P. Eu vejo o senhor pessimista.

R. Sim e não. Isto não foi uma crise. Em uma crise de epilepsia a pessoa fala, cai, tem convulsões, se levanta e acaba a frase. As coisas voltam a ser como antes. E agora as coisas voltarão, mas não como antes. A palavra adequada agora não é crise: é catástrofe. Depois das guerras e das epidemias houve revoluções culturais. A formação profissional, a universidade, a relação entre homens e mulheres, a velhice, tudo isso já está sendo repensado. Vamos repensar nossa maneira de viver juntos.

 

            Ótima entrevista. Vale a pena lê-la por inteiro.

 

 

https://brasil.elpais.com/internacional/2021-10-31/boris-cyrulnik-os-adolescentes-mais-afetados-pela-pandemia-terao-depressao-cronica-quando-adultos.html

 

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Nelson e os Noturnos




 Nelson Freire grava os Noturnos, de Chopin


Ouça aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=-EX-olyM2U4&list=PLU60dlhvHX0qtaZYd9gXcFE26zJYljk4c


Nelson Freire não morreu!

Algumas postagens sobre Nelson Freire nesse blog.

 

 

70 anos de Nelson Freire

 



https://loucoporcachorros.blogspot.com/2015/01/ainda-nelson-freire.html

 

 


Nelson Freire toca Chopin

 



https://loucoporcachorros.blogspot.com/2015/04/mais-de-nelson-freire.html

 

 


Freire toca Bach

 

 

https://loucoporcachorros.blogspot.com/2016/07/freire-toca-bach.html

 

 

 

O gênio de Nelson Freire

 

 

https://loucoporcachorros.blogspot.com/2015/01/o-genio-de-nelson-freire.html

 

 

Tudo azul!

Fotografia 


Cecília Vianna


O tecido azul claro emoldura a cabeça e o dorso do gato, criando belo efeito em contraste com o azul arroxeado. Ótima composição, com o animal bastante confortável. Gatos não são fáceis de fotografar. Parabéns, Ciça!


Nov 2021.

Isolado



 Kleber Sales, Correio Brasiliense hoje

Morre Nelson Freire

 

Nelson Freire  durante o prêmio Victoires 

de música clássica em Cannes, França, em 2005. 

Pascal Guyot / AFP

 


Carta escrita por José Freire Silva, pai de Nelson Freire, enviada ao filho quando este tinha apenas seis anos, e já “assombrava professores com seu prodigioso talento ao piano”, assinala Sergio Rodrigues em Cartas Brasileiras (Companhia das Letras, 2017).

            Assim José Freire da Silva conclui sua carta:

 

 

“Em junho de 1950, portanto, uma decisão embaraçosa se apoderou de mim e de tua mãe, colocando-nos diante de um dilema de difícil solução. Devemos dar razão ao nosso coração? Permanecer em nossa querida terra? Criando-te como o fizemos com os nossos outros filhos, no ambiente de paz e de concórdia onde se acham localizados os nossos interesses materiais e onde nos prendem os laços mais caros do sentimento familiar? Ou, por outro lado, rumaremos para o Rio, onde o custo da vida é muitíssimo mais dispendioso e o ambiente meio padrasto em infusões afetivas, mas onde as tuas aptidões poderão desenvolver-se ilimitadamente? Depois de muito meditar, resolvemos seguir esta última vereda, entregando nosso futuro a Deus. Cumprindo a nossa obrigação, deslocamo-nos do interior de Minas para a capital da República, com a finalidade primordial de acompanhar-te os passos, porque ainda não prescindias de nossa companhia e de nossa assistência, mas o teu destino, este nós o colocamos na mão de Deus.

Afetuosamente,

 

                                                                            o Papai”

 

 

            Brasil e o mundo mais pobres.

 

https://loucoporcachorros.blogspot.com/2018/01/aorganizacao-e-do-prolifico-sergio.html

 

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Play it safe in Dulwich

 

Dulwich Park


 

Gostei tanto do curta Play it safe, escrito e dirigido por Mitch Kalisa, cineasta nascido em Rwanda e criado na Inglaterra, que resolvi sugerir ao diretor que transforme seu filme num longa-metragem. A empreitada é arriscada, eu sei, pode acabar estragando o curta e gerando um monstro disforme, perdida assim a tremenda força da mensagem original. Mas o esboço de roteiro está tão bem arrumado em minha cabeça que desejo correr o risco.

            O roteiro está dividido em três partes, que aparecem na tela com letras brancas  e fundo preto, à medida que o filme se desenrola: PRÓLOGO, O INCIDENTE, O DESFECHO. Título do filme:

 

Play it safe in Dulwich

 

            PRÓLOGO

 

            Jonathan trabalha como vendedor em uma loja de discos especializada em música clássica em Dulwich, elegante bairro aristocrata ao sul do Tâmisa, Londres, onde se encontram belas residências, um lindo parque e a Dulwich Gallery, com sua rica coleção de pinturas dos séculos XVII e XVIII. Com bolsa de estudos oferecida pelo British Council, Jonathan é aluno de renomado curso de teatro para atores jovens.

            Ele gosta do emprego, e o salário, além da bolsa, são suficientes para mantê-lo numa vida austera, de poucos gastos; sobra algum para o pub numa manhã de domingo – cena externa alegre, ensolarada, cheia de vida . O que Jonathan mais aprecia é o contato na loja com os clientes do bairro, pessoas educadas, sempre bem-vestidas, amantes da música. O que Jonathan não gosta é que, com frequência os clientes se espantam pelo fato de um rapaz negro conhecer tão bem música erudita.

            Essa primeira parte do filme, com 30 min de duração, mostra pessoas entrando e saindo da loja – atenção para o toque de um pequeno sino sempre que a porta se abrir ou fechar, uma tradição londrina –, pedindo informações ao vendedor, conversando com ele com o sotaque posh dos esnobes britânicos, Jonathan atendendo a todos com elegância e paciência. Às vezes ele perde a paciência com o preconceito que os clientes mal disfarçam, mas engole os desaforos, precisa do emprego; isso o torna um tanto arredio, desconfiado, de espírito prevenido.

 

       O INCIDENTE

 

            Agora entra o curta do Kalisa, com seus 12 min 58 seg de duração, como exposto em postagem anterior desse blog. http://loucoporcachorros.blogspot.com/2021/10/play-it-safe.html

            

            O DESFECHO

 

            Jonathan aceita o convite dos dois colegas do grupo de teatro e vai à festa. A cena se abre na belíssima residência dos Jonhson, tradicional família inglesa há mais de século residente em Dulwich, cujos pais sempre ausentes permitem que os dois filhos homens, os responsáveis pelo convite, e a irmã adolescente vivam à larga, com dinheiro e arrogância de sobra. 

            Desde logo o racismo se revela explícito, mais uma vez Jonathan é o único negro da festa. Desconfortável, ele se pergunta por que aceitou o convite; os demais colegas do grupo dão gargalhadas estridentes, forçadas, nervosas, histéricas, também de certa forma desconfortáveis pelo que sucedeu na aula passada, embora procurem tratá-lo com naturalidade. As repetidas conversas entre os convivas se arrastam monotonamente por 50 min, a câmara trabalha sempre em close e as expressões faciais revelam a natureza crua, primitiva, rude, daquela gente endinheirada, arrogante, uns cretinos, todos brancos racistas. As cenas de interior são entrecortadas por raras tomadas externas, mostrando os vastos gramados desertos do Dulwich Park, o céu sempre coberto de pesadas nuvens escuras.

            Às tantas, provocante e bela, surge a tal mulher interessada em Jonathan, que o assedia acintosamente. Ele a repele com certa rudeza, o que choca os irmãos donos da casa. Interessado desde que a viu pela primeira vez, Jonathan se aproxima de Christina, a filha dos Jonhson, cujos irmãos percebem imediatamente a relação que se descortina. As cenas transcorrem lentas; drogas, álcool e fumo tornam o ambiente enevoado, taciturno, pesado, malévolo mesmo, prenúncio de um possível crime. Pequena orquestra começa tocando jazz dos anos 50 e 60, termina em rock estridente.

            A relação entre Jonathan e Christina se torna cada vez mais íntima, agarrados num canto do grande salão, e não percebem que estão sendo observados atentamente pelos irmãos da moça, contrariados, cheios de ódio. Aquilo era demais para eles, Quem esse macaco pensa que é?! Peter, o mais velho, se aproxima, separa o casal com brutalidade, expulsa aos berros Jonathan da festa.

            Ao atravessar o grande portão dos jardins da mansão dos Jonhson e entrar no Dulwich Park, deserto àquela hora da noite, na volta para casa Jonathan é brutalmente assassinado a tiros por três homens encapuçados que o esperam no interior de um carro preto.

 

The end

            

Duas vezes Paula

 




Búzios, RJ, out 2021

domingo, 31 de outubro de 2021

Play it safe




O curta-metragem quando é bom, pega na veia da gente. É o caso de Play it safe (2021), escrito e dirigido por Mitch Kalisa, disponível na plataforma MUBI.

            Depois de ver quatro vezes seguidas o filme de 12 min 58 seg, sinto imperiosa necessidade de escrever sobre ele; não penso que esteja fazendo um spoiler, pois o que realmente importa é o que ficará na mente de cada um que o assistir. Cada um ficará com seus próprios sentimentos e ideias sobre o que acabou de ver.

            À primeira imagem percebemos que se trata de uma aula para jovens aprendizes de teatro ou cinema; no centro da roda, uma moça imita um felino selvagem, ao rastejar pelo chão. Ao final ela é aplaudida, mas a professora pede mais empenho.

            Corte na cena: a sala será ocupada por outra classe, e o grupo se desloca para o andar de cima. No corredor, Jonathan (Jonathan Ajayi), o único negro do grupo, é convidado por alguns colegas, aparentemente de classe sócio-econômica superior, para uma festa, e denota certo desconforto. Os colegas afirmam que ele não precisa se preocupar com as despesas, que ficarão por conta deles. Além do que haverá uma moça muito interessada em conhecê-lo, e a fotografia dela no celular é mostrada a Jonathan. O desconforto dele agora é patente, ao ser tratado como objeto, foco até de curiosidade.

            Em seguida dois colegas lhe oferecem um papel em certo roteiro, que vem a calhar com sua pessoa, que será muito valorizada pelo texto. Jonathan segue cada vez mais desconfortável, bastante desconfiado e inquieto, diante da tentativa de manipulação francamente racista. Por quê o papel há de servir para um ator negro? (Não consegui ler o texto mostrado no filme, que parece indicar que o personagem seria um bandido.)

            Sentados no chão, formando uma roda, tem início o próximo exercício. A aluna passa uma cartola contendo baralho com figuras de animais. A colega retira carta com a figura de um esquilo e o representa. Agora é a vez de Jonathan; ele fecha os olhos e retira uma carta; a reação de contrariedade é imediata, o semblante se fecha, a perturbação é mais que evidente; a carta mostra a figura de um macaco.

            Talvez Jonathan não faça representação alguma, tamanha sua contrariedade. O grupo aguarda, apreensivo; a professora pergunta se está tudo bem. A dúvida sobre o que virá em seguida toma conta igualmente do expectador que vê o filme.

            Até que a atuação de Jonathan tem início. Lentamente ele se curva, fecha os punhos e os apoia no chão, com forte ruído. Urros guturais impressionantes são emitidos, à medida que o ator caminha pela sala. A câmera nunca o revela por inteiro, mostra apenas partes desfocadas de seu corpo, sua expressão facial não é revelada, o que potencializa o clima de suspense e mistério. 

            A câmera passeia pela sala, demora nas expressão de surpresa, aflição, mal-estar, medo, desconforto intenso de todo o grupo, incluindo a professora, que se assusta com um grito mais agudo do “animal”. Aos poucos Jonathan se aquieta, retorna ao seu lugar na roda, o suor pregado em sua testa.

            O grupo não volta a ser mostrado, termina o filme. O desconforto persiste em nós.