quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Chiclete de 6.000 anos


O 'chiclete' vem do cozimento da casca de bétula.
THEIS JENSEN


“Uma espécie de chiclete de 6.000 anos ainda conserva a marca dos dentes de quem o mascava. Com isso, um grupo de pesquisadores pôde obter DNA humano, mas também o das bactérias que tinha na boca. E mais, conseguiram identificar um vírus que portava e até o que havia comido antes de mastigar a goma de mascar milenar. A garota (puderam determinar seu sexo graças à genética) tinha pele e cabelos morenos e olhos claros. Os pesquisadores a chamam de Lola.” É o que informa Miguel Ángel Criado (17 dez 2019) para El País.


Lola



terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Nina Simone: saudade

A foto do dia




Nossa saudade.
Por ora, é o que podemos dizer.

Abuso sexual

Redação, Ansa e Reuters (17 dez 2019):

Papa abole 'segredo pontifício' em casos de pedofilia na Igreja.
Documentos promulgados por pontífice determinam que suspeitas de abuso sexual sejam comunicadas a autoridades civis.

Até que enfim!!! 

CIDADE DO VATICANO - O papa Francisco promulgou nesta terça-feira, 17, mudanças abrangentes na maneira como a Igreja Católica lida com casos de abuso sexual de menores de idade, abolindo a regra de "sigilo papal". Dois documentos emitidos pelo pontífice cobrem práticas que estão em vigor em alguns países, entre elas relatar suspeitas de pedofilia às autoridades civis quando exigido pela lei. 
Os documentos também proíbem que se imponha uma obrigação de silêncio àqueles que relatam abusos sexuais ou alegam ter sido vítimas. 


domingo, 15 de dezembro de 2019

Etimologia


no suor do rosto
o gosto
do nosso pão diário

sal:  salário



                     José Paulo Paes
                     em tempo escuro, a palavra (a)clara
                     Global, 2007.

Escolha definitiva




Aos 19 anos José Mário conseguiu juntar um dinheirinho, sobras daqui e dali, e resolveu experimentar algo inédito em sua curta vida, dar-se um presente. (Naquele instante talvez ele começasse a gostar de si mesmo.) 
            Pela primeira vez experimentou o dilema de quem nunca havia juntado qualquer soma de dinheiro e muito menos tivesse o desejo de transformar isso na aquisição de algum bem material. Comprar o quê? Queria mesmo uma máquina fotográfica Nikon, porém o dinheiro dava apenas para um LP. Precisava então escolher um LP.
            Sob forte influência materna, José Mário se interessou por música erudita; os clássicos Bach, Mozart e Beethoven moldaram seu gosto desde o início. Bom começo. Depois apaixonou-se por Erik Satie, mas isso foi bem depois, melhor não atrapalhar o desenrolar da história.
            No centro da cidade do Rio de Janeiro, mais precisamente no Largo da Carioca, nos idos dos anos 60, havia uma enorme loja de discos no térreo do Edifício Central, com vastíssima coleção de clássicos, além dos populares. José Mário entrou na loja com o coração batendo forte. Analisou com cuidado a prateleira de Bach, Mozart e Beethoven, encantado com a diversidade de gravações, com os álbuns caprichados, nas contracapas uma pequena biografia do autor, o resumo sobre a importância daquela obra específica, dados sobre a orquestra ou sobre o intérprete, um mundo de informações que José Mario devorava sem pressa, havia tirado folga naquela tarde de quarta-feira. Escolheu os Concertos para trompa de Mozart. Grande escolha! 
            José Mário envelheceu ouvindo música erudita. Adquiriu respeitável coleção de CDs, e nas manhãs de domingo ouvia infalivelmente as Valsas nobres e sentimentais, de Ravel; depois de alguns anos, estas foram substituídas pelo Requiem, de Mozart. Para ele, réquiens, missas, qualquer que fosse a música sacra, não significavam pesar, luto, tristeza, nada disso, ele as ouvia com o encantamento de sempre.
            Eram fases, como ele mesmo dizia, Agora estou na fase do estoniano Arvo Pärt, e ouvia o mesmo compositor durante meses. Houve tempo em que parou nos Noturnos, de Chopin; colecionou 11 gravações diferentes, na tentativa de definir sua preferida. Parou também em Stravinski e Shostakovitch, semanas ouvindo The Jazz Album, deste último. Longa foi a fase Villa-Lobos; depois de ouvir quase tudo, parou nas Bachianas, e de lá voltou às Suítes para violoncelo de Bachem particular à de número 6, lembrando sempre que o irmão preferia a de número 1, e de tanto ouvir Bach e Villa, já não sabia mais o que era de Villa e o que era de Bach, bela fusão musical, diriam os menos ortodoxos. Demência, diriam os racionais. José Mário expandiu seu gosto pela música a ponto de gostar do fantástico Quarteto de cordas e quatro helicópteros, de Karlheinz Stockhausen.
            José Mário continuou envelhecendo e com a velhice chegou uma certa surdez, que fez com que o volume do amplificador fosse paulatinamente aumentado, chegando a incomodar vizinhos e própria esposa, Abaixa isso, José Mário, que não tem ninguém surdo por aqui, esbravejava ela. Impossível saber se este fato foi determinante nos acontecimentos que agora passo a narrar.
            De repente o próprio José Mário notou que nas últimas semanas ouvia apenas as Sonatas para piano n. 30, 31 e 32, opus 109, 110, 111, de Beethoven, sempre nessa ordem, certo de que elas compunham uma única peça musical, a mais linda de todos os tempos, finalizada pelo segundo movimento da sonata n. 32, opus 111, descrita como Arietta: Adagio molto semplice e cantabile, música do futuro capaz de levá-lo às nuvens, ao céu, ao paraíso enfim, na interpretação de Alexandre Tharaud. 
            Já com a voz enfraquecida por um tosse crônica, José Mário confidenciava à esposa que sentia muito que a maior parte da humanidade nunca tivesse vivido a experiência de ouvir aquelas sonatas, uma vez na vida que fosse. Talvez elas pudessem ter mudado o mundo para melhor. A força de Beethoven.
            José Mário morreu em paz, ouvindo as Sonatas para piano n. 30, 31 e 32, de Ludwig van Beethoven, em uma tarde de fim de primavera.
            
            

sábado, 14 de dezembro de 2019

Obra de arte mais antiga


 

Um búfalo-anão rodeado de figuras antropomorfas
Ratno Sardi


Obra de arte mais antiga da humanidade é descoberta na Indonésia.
Cena de caça pintada há 43.900 anos pode ser a primeira narração humana conhecida, milênios antes do ‘homem-pássaro’ de caverna francesa. É o que informa Nuño Domínguez (12 dez 2019), para El País.
“Em dezembro de 2017, um homem chamado Pak Hamrullah descobriu a entrada de uma caverna desconhecida em um penhasco da ilha de Sulawesi (também conhecida como Celebes), Indonésia. Subiu por uma figueira até alcançá-la e ao chegar ao fundo avistou uma cena de caça pintada em uma tela de rocha de mais de quatro metros de largura. Após dois anos de estudos, a equipe de arqueólogos que acompanhava Hamrullah naquele dia afirma que essa é a obra de arte figurativa mais antiga do mundo.” 
“O único autor possível dessa surpreendente obra é o Homo sapiens, nossa própria espécie, que chegou a essas ilhas do sudeste asiático entre 40.000 e 50.000 anos atrás.” 
“Não queremos substituir um centro de origem por outro no sudeste asiático”, diz Brumm, “mas é muito interessante encontrar arte rupestre mais antiga do que a europeia”. “Isso nos obriga a nos perguntar se os humanos modernos desenvolveram a capacidade artística quando saíram da África [há 70.000 anos]”, acrescenta. Até agora foram encontradas em Sulawesi mais de 200 cavernas e abrigos com pinturas rupestres. De acordo com Brumm, a cada ano sua equipe encontra “dezenas de novas pinturas rupestres com imagens de todos os tipos”. 
O mais interessante da história é que esta não é a última palavra sobre o assunto.



terça-feira, 10 de dezembro de 2019

História de um casamento




Impossível não associar o atual História de um casamento, de Noah Baumbach, ao filme de Ingmar Bergman, de 1974, Cenas de um Casamento. Ambos tratam do difícil comportamento humano a dois, ainda mais complicado pela presença de um terceiro sujeito, o filho, cuja guarda é disputada em tribunal, na história de Baumbach.
            Na postagem anterior deste blog, Mães “Virgem Maria”(http://loucoporcachorros.blogspot.com/2019/12/maes-virgem-maria.html), damos destaque ao monólogo da advogada da esposa e mãe, ao planejar o discurso no tribunal, no julgamento do divórcio. Agora falaremos do problema do pai. Diz a advogada (laura Dern, em interpretação digna de Oscar):

“O conceito de um bom pai só foi inventado há uns 30 anos. Antes era normal que os pais fossem calados, ausentes, pouco confiáveis e egoístas. É claro que queremos que eles não sejam assim, mas no fundo nós os aceitamos. Gostamos deles por suas imperfeições, mas as pessoas não toleram essas mesmas coisas nas mães. É inaceitável em nível estrutural e espiritual. Porque a base de nossa conversa judaico-cristã é Maria, a mãe de Jesus, que é perfeita.”

            Como pai de duas filhas, devo admitir que esta fala me tocou profundamente. Penso que não estamos a tratar propriamente de pais, e sim de homens. Os homens, na sua soberba de ser mais forte e dominante desde sempre, permitiram-se calados, ausentes, egoístas, eles em primeiro lugar, depois mulher e filhos. Não estou a falar nenhuma novidade.
            Em História de um casamento, o pai ausente apresenta mil justificativas para tal, direitos adquiridos pelo homem, que o tornam acima do bem e do mal. Ou simplesmente a manifestação do exuberante narcisismo.
            A seu favor, do pai, em meu modo de ver – e isso é discutível – ele ama a esposa e o filho, daí tanto sofrimento diante da separação. Parece que tanto amor não basta! Há certas atitudes que contam muito, e que devem ser consideradas cuidadosamente pelo pai real. Uma delas, talvez a principal, seja considerar a esposa e os respectivos desejos e direitos dela. (O que vale também para a esposa.)
            Para expressar tais ideias o filme é repleto de longos diálogos em ambientes fechados, a câmera quase parada – Bergman fala! – a beirar a monotonia, como se assistíssemos a uma peça de teatro. Ao final do filme há um diálogo que beira a morte, o casal movido pelo ódio irracional, cruel e desumano, onde Scarlett Johansson e Adam Driver  brilham intensamente, emprestando ao filme excepcional destaque.
O filme é tocante e doloroso, pelo menos o foi para mim. Um grande filme, cuja profundidade e detalhamento dificultam em muito a análise por parte deste crítico amador. Agora resta rever o mestre Bergman.


Mães "Virgem Maria"




No momentoso filme História de um casamento, do diretor Noah Baumbach, Nicole (Johansson) e sua advogada Nora Fanshaw (Dern), combinam estratégia para declarar diante do tribunal, no caso de divórcio e guarda do filho pequeno. Nicole, a mãe, pensa em declarar que costuma beber de vez em quando uma taça de vinho; pretende confessar também que às vezes insulta o filho, quando ele passa dos limites. A advogada então a adverte, em monólogo memorável!

“Vou te interromper aqui. As pessoas não toleram mães que bebem e dizem ao filho: ‘idiota’. Eu entendo, também faço isso. Nós podemos aceitar um pai imperfeito. O conceito de um bom pai só foi inventado há uns 30 anos. Antes era normal que os pais fossem calados, ausentes, pouco confiáveis e egoístas. É claro que queremos que eles não sejam assim, mas no fundo nós os aceitamos. Gostamos deles por suas imperfeições, mas as pessoas não toleram essas mesmas coisas nas mães. É inaceitável em nível estrutural e espiritual. Porque a base de nossa conversa judaico-cristã é Maria, a mãe de Jesus, que é perfeita. Ela é uma virgem que dá à luz, apoia incondicionalmente o filho e segura seu cadáver quando ele morre. O pai não aparece. Nem apareceu para a trepada. Deus está no céu. Deus é o pai e Deus não apareceu. Você tem que ser perfeita, mas Charlie pode ser um puto desastre. Você sempre será colocada no nível mais alto. Você é uma fodida, mas é assim que é.” 

Prossegue NOELIA RAMÍREZ em seu artigo História de um casamento ou a síndrome das mães ‘Virgem Maria’, para El País (9 dez 2019):

“A invenção do mito da “mãe virgem” é um clássico que se reproduz repetidamente em culturas isoladas, como recorda Katixa Agirre no recente Las Madres No (Transit, 2019), onde destaca outras referências históricas sobre este arquétipo. A autora lembra que na mitologia grega já se estabelece uma moral similar sobre a história da virgem Atenea, deusa da sabedoria e da guerra, que engravida depois que Hefesto ejacula em suas roupas e ela, com nojo, joga os restos de sêmen no chão, de onde nasce Erictonio. Maia, mãe do Buda, também concebeu o filho castamente em um sonho. Coatlicue, deusa asteca, ficou grávida enquanto varria e penas caíram do céu para que gerasse, sem pecado, um deus mexica, Huitzilopotchi. Na tradição persa, Anahita também gestou um deus, Mithras, sendo virgem.”

            Há treze dias este blog publicou o texto Sincretismo religioso, (http://loucoporcachorros.blogspot.com/2019/11/sincretismo-religioso.html) inspirado em publicação de Leandro Karnal, na qual o historiador afirma:

“Maria passou a ser cultuada em Éfeso, mesmo lugar do culto a Diana/Ártemis, uma entidade sempre virgem. A fusão de deusas-mãe do Crescente Fértil com a figura de Nossa Senhora foi bem documentada. Em alguns casos, transforma-se o lugar: o Partenon de Atenas, consagrado a outra virgem, Palas-Atena / Minerva, virou igreja de Nossa Senhora. Dogmas marianos foram proclamados em Éfeso e o processo de construção da imagem de Maria vai até o século 20 (dogma da Assunção). Nascer de uma virgem é comum a Mitra e a Jesus. Ressuscitar é lembrado como atributo de Osíris e Cristo.”

A conclusão a que se pode chegar é que tudo é sincretismo, mistura  de diferentes culturas e muitas tradições, incluindo o processo de criação de Deus ou de Maria. Karnal enfatiza:  “Não existe uma religião original e pura ou uma fonte primária. Religiões funcionam como cebolas com muitas camadas e, enfim, depois de retiradas, inexiste uma essência primeira. Sincretismo é a base de todas as culturas...”

O provocante filme História de um casamento traz inúmeros outros aspectos a serem debatidos, incluindo aquele do “pai ausente”. Voltaremos a eles nesse blog.