terça-feira, 24 de julho de 2018

Desolação

Décima edição do iPhone Photography Awards 2017.

Grande Prêmio, Fotógrafo do Ano: Sebastiano Tomada.



Niños de Qayyarah

Para ver outras fotos premiadas clique aqui:



segunda-feira, 23 de julho de 2018

Tristeza, depressão e música

Da série
Mais 47 cenas de um romance familiar


– Gosta de música?
– Adoro!
– E por que não ouve?
– Tornou-se um tormento.
– Um concerto para piano de Beethoven...
– Martelação infernal.
– A tranquilidade de Couperin?
– Barulho barulho barulho.
– Então os Noturnos de Chopin.
– Só a vontade de chorar.
            
            No início da adolescência, foi nossa mãe quem nos apresentou a música erudita, a mim e meu irmão. Colocava o vinil na vitrola (era assim que se chamava o equipamento de som naquela época) e enquanto ouvia, comentava sobre a vida do compositor, sobre a escola musical a que pertencia, destacava os trechos de que mais gostava, fazia crítica bastante adequada à música.
            Sua fonte de informação era a Rádio MEC, da qual era assídua ouvinte. Possuía ótima memória, e o que ouvia, tratava de reproduzir aos filhos, nem tão disciplinados como a mãe.
            Gostava de Bach, Vivaldi, Mozart, mas por Beethoven o que sentia era mesmo uma espécie de veneração quase religiosa. Adorava Chopin, Brahms, Ravel (foi com ela que aprendi a ouvir para o resto da vida as Valsas Nobres e Sentimentais), Debussy (Clair de lune a preferida!). Apreciava Petrushka e a Sagração da Primavera, de Stravinsky, e parava por aí, nada de Shostakovich e outros russos.
– Aprecio muito Villa-Lobos, mas não suporto os quartetos para cordas dele, aliás, nem dos quartetos de Beethoven eu gosto, afirmava ela categórica (como sempre). Ela mesma impunha-se a limitação, manifestação de rigidez psíquica.
Seu gosto para música era clássico, e pronto. Às vezes tecia comentários como se fossem dela mesma e que me despertavam a dúvida, Onde será que ouviu isso? Dizia que Chopin era ótimo compositor para piano, mas que os dois Concertos para Piano e Orquestra dele pecavam pela pobre orquestração. Seria dela mesma observação tão sutil?
Isso antes da doença.
Depois da depressão, na tentativa de animá-la, eu perguntava Por que a senhora não ouve mais música, gosta tanto!
A resposta era sempre a mesma:
– Não consigo, não consigo, um tormento. 
Assim é que, se quisermos saber se uma pessoa está apenas triste, ou está doente, com depressão, basta perguntar:
– Tem ouvido música?
            

In-felicidade


O prolífico Drauzio Varella, por quem nutro grande admiração, quase sempre ocupado com temas ligados à saúde e à pesquisa científica, nos surpreende ao escrever sobre a Felicidade, em crônica dominical para a Folha de S. Paulo (22 jul 2018). E escreve em grande estilo:

“Felicidade plena, mesmo, só no conforto protegido do ventre materno. Lá, a sobrevivência está à mercê exclusiva da fisiologia, não há encruzilhadas, armadilhas nem espaço para dúvidas que nos levem à angústia das escolhas.
A plenitude chega ao fim em nove meses. Os religiosos que me perdoem, mas o paraíso com serpentes e frutos proibidos do qual Adão e Eva foram expulsos por graça do pecado original é um mundo inóspito se comparado aos ditames da vida intrauterina.
Para destruir a convivência idílica com o organismo materno, são necessárias contrações uterinas tão brutais que chegamos à luz aos berros, prenúncio do que está por vir.”

            É possível que haja felicidade na vida pré-natal. Entretanto, serão tão primitivos os sentimentos vividos pelo feto que dificilmente poderíamos compará-los àquilo que denominamos felicidade diante do mundo real. A própria consciência (parece que está mesmo presente intra-útero) há de ser primitiva, ainda em formação, em paralelo ao desenvolvimento do sistema nervoso central. Assim, penso que a “felicidade plena” no ventre materno de que fala Varella é muito mais uma romântica figura de linguagem, bem longe da realidade. Se ela existe mesmo, não temos consciência dela depois que nascemos. 
            Porém, a “destruição da convivência idílica” de que trata o cronista, no momento do parto – súbita brusca violenta separação – esta existe mesmo, trauma que fica para sempre, momento de intensa in-felicidade. Se não é a única responsável por nossa eterna busca, esta brutal separação, como diz Varella, contribui em muito para a chamada “angústia existencial” de que tanto se fala. Prefiro chamá-la apenas de FALTA, uma falta que permanece por toda a vida, sem que saibamos (ou tenhamos plena consciência) do que sentimos falta! 
            Sentir plenamente a falta – em vez de negá-la –, aprender a sofrer a dor da falta, ter consciência dela, pode nos ajudar a suportá-la. (O processo psicanalítico nos ajuda a tornar consciente aquilo que é inconsciente.)
            Nada disso nos impede de usufruir de momentos de felicidade, como o nascimento de um filho, de um neto, uma viagem interessante, a audição da Nona de Beethoven, visitar um belo museu, vencer a Copa do Mundo, vibrar com um gol de nosso time preferido. (Inútil classificar os momentos de felicidade em ordem de grandeza ou intensidade: o que conta é o que sentimos naquele determinado momento.)
            A vida é mesmo feita de perdas, a começar pelo nascimento. Reconhecer os momentos de felicidade e vivenciá-los da melhor forma possível, eis a arte de sobreviver.
            Até que nada disso faça mais sentido, quando a vida perde a graça e perdemos a vontade de viver. Alongar, com o passar dos anos, por um bom tempo, o aparecimento deste estado de espírito, então talvez seja possível continuar pensando em felicidade.







sábado, 21 de julho de 2018

Memórias coloniais



Pouca gente até agora ouviu falar de Isabela Figueiredo, nascida em Lourenço Marques, hoje Maputo, Moçambique, residente em Portugal desde 1975, onde é professora e escritora. Seu segundo livro, Caderno de memórias coloniais (Ed. Todavia, 2018), publicado em Portugal em 2006, há de torná-la conhecida também no Brasil. 
            O passado colonial de Portugal é tratado pela autora na primeira pessoa, cruamente, onde brancos são brancos e pretos, pretos. A luta íntima contra o pai amado e racista e bruto talvez tenha sido exorcizada pela autora, através de relato de tamanha sinceridade. Talvez.
            A par do conteúdo interessantíssimo, de enorme valor histórico, o livro nos oferece estilo forte, duro, por vezes áspero, porém original e elegante. Eis pequena amostra:

“Nunca tinha batido em ninguém, mas dei-lhe uma bofetada, porque ela me irritou, porque não concordou comigo, porque eu é que sabia e que mandava e estava certa, porque ela tinha dito uma mentira, porque me tinha roubado uma borracha, sei lá por que lhe dei a maldita bofetada!
Mas dei-lha, na Escola Especial, no intervalo da manhã, encostada aos fundos da sala da 4aclasse. Uma parede branca. Era a Marília.
Foi premeditado. Tinha pensado antes, se ela voltar a me irritar, bato-lhe. Podia perfeita e impunemente bater-lhe. Era mulata. E a rapariga comeu e continuou em pé, sem se mexer, com a mão na cara, sem nada dizer, fitando-me com um estranho olhar magoado, sem um gesto de retaliação. Disse-lhe, já levaste, e depois afastei-me para o fundo do pátio, absolutamente consciente da infâmia que tinha cometido, esse exercício de poder que não compreendia, e com que não concordava. Não por ser uma bofetada, mas porque tinha sido à Marília. A Marília era um alvo fraco. Nada podia contra mim. Queixasse-se, e depois?! Eu era branca. Quem poderia cantar vitória logo à partida?”

            O racismo português à flor da pele, as mágoas do colonialismo. Vale a pena conferir! 
            

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Coisas que a gente não deve contar

Da série
Mais 47 cenas de um romance familiar



Há coisas que a gente não devia contar a ninguém. Coisas das quais nos envergonhamos tanto que são quase impensáveis, quanto mais compartilhadas. Porém, permanecem caprichosamente guardadas em nossa memória, passa o tempo e não se apagam. Até que em um belo dia resolvemos nos ver livre daquela pedrinha no sapato, que os gregos chamavam sabiamente de “escrúpulo”.
            Vamos à história, que começa com o sítio de nosso avô Breno, onde íamos todas as manhãs de domingo, o avô, nosso pai, meu irmão e eu, para ataques desesperos reclamações esbravejamentos de minha mãe que permanecia sozinha em casa todas as manhãs de domingo. Dizia que não gostava de roça. (Mas gostava de reclamar.)
             O avô era pessoa especial, talvez a melhor cabeça de toda a família, passada e presente, verdadeiro intelectual, professor de economia com livros publicados, porém no sítio dele não era capaz de nos dispensar a menor atenção, às voltas com o gado, a plantação, as galinhas, as formigas saúvas. Lembro-me dele e sua azáfama com aquele pequeno pedaço de chão, mais trabalho que prazer. Mas ele gostava de dizer que o comprara para agradar minha avó Ceci, a mulher a quem tanto amava. (Há coisas que a gente precisa contar.)
            Acordávamos bem cedo, os adultos na cabine da caminhonete, as crianças na caçamba – nada da superproteção tão em voga hoje em dia, os meninos que se segurassem –, estrada de terra poeirenta esburacada, Pé na tábua, gritava nosso pai animado. Abrir a porteira do sítio era a primeira façanha; mais alguns metros e estávamos na sede, casa-de-roça muito simples, varanda, sala, dois quartos, cozinha, banheiro, cômodos todos pequenos, uma pinturinha azul desbotada nas portas e janelas. 
O mais importante é que à frente da varanda havia um pequeno gramado, nosso campo de futebol, meu pai meu irmão e eu formávamos o time, todos a favor de todos. (Marcante episódio para o menino, foi quando em meio a uma jogada mais brusca meu pai não aguentou correr, parou, língua de fora, cansado mesmo, e então pensei Ele está ficando velho. De fato ele era moço, viveu muito ainda. O medo era meu.)
Quando a fome apertava havia o leite tirado na hora, do qual não gostávamos muito porque era quente espumoso. Mas o pai levava de lanche pão e banana para cada um. Certa feita o irmão inconformado perguntou, Não tem manteiga?, Come esse pão aí e não enche, menino, foi a resposta do pai, acompanhada de uma gostosa afetuosa risada.
Bem próximo à casa passava um corregozinho, água limpíssima e fria, leito de areia e pedras, piscina praia mar oceano para alegria dos meninos que se banhavam pelados.
Há coisas que a gente não devia contar. 
Em uma de nossas idas ao sítio o pai apareceu com espingarda calibre 22, marca famosa, culatra de madeira lustrosa, mira inigualável de tão calibrada, e uma caixa de balas de verdade. Próximo ao curral havia um pequeno açude, ladeado por elevação, onde colocávamos as latas e garrafas para o tiro ao alvo. Postávamo-nos do outro lado do açude, a uma boa distância, para o excitante impensável indizível prazer do tiro ao alvo com espingarda e balas de verdade.
Até que certo dia, já na varanda da casa, avistei belo pássaro de penas marrons, grande em comparação a pardais e cambaxirras, empoleirado sossegado em galho de arbusto não muito distante. Pedi a espingarda ao meu pai e ele ma deu. Foi um tiro só, certeiro, tombou o pássaro diante da descomunal violência para com sua natureza tão frágil, vi-o cair ao chão e ali permanecer inerte.
A confusão de sentimentos que se seguiu àquele ato insano permanece mais viva do que nunca. Por que? Para que? E agora? Mas está feito!
Há coisas que a gente não deve mesmo contar. Não havia culpa. Naquela época menino matava passarinho. Porém, após o tiro certeiro, nunca foi tão forte o sentimento de que aquilo era errado e que jamais deveria se repetir. Dos males, o menor.

O quarto poema

EL PAÍS publica o quarto poema da corrente lírica Hilda Hilst, poeta homenageada no evento literário. Indicada pela curadora da Flip, Joselia Aguiar, Josely Vianna Baptista começou a corrente que passou para Antonio RisérioRicardo Aleixo e agora chega na poeta gaúcha Eliane Marques. Sem título, o texto faz parte do livro e se alguém o pano.



resta na medula das coisas
ali onde sobram em conluio
os sapatos

se pudesse fraturá-las
deitá-las sobre a cama

se o crime alguém o intentasse somente com o pranto
mas tem lá o seu cavalo mouro um lenço para as louças
e outro (mais curto) às canecas de estanho

a negrinha dada aos serviços da casa
corpo que se aquieta no tropel dos infantes

corpo a quem se indefere
o bilhete de passagem
um corpo pequeno um corpo estranho

ao seu braço não basta a cabeça de piolhos
esmagá-los como castanha

esse braço dado aos serviços dos outros
tem lá o seu cavalo mouro seu ruído entre os zimbros
tem lá o seu cavalo mouro seu cheiro de crina
contra a força que se impõe às insistências do morto

a negrinha braço da casa
louça partida entre tantos

a negrinha dada aos serviços da casa
tem lá o seu cavalo mouro
eu disse: tem lá o seu cavalo mouro


“Eliane Marques, nascida em 1971, é gaúcha de Sant'Anna do Livramento, e tem formação em Pedagogia e Direito; atua como auditora pública do tribunal de contas do Rio Grande do Sul. De formação ampla, a poeta ainda estuda psicanálise e coordena a Escola de Poesia, vinculada à instituição de psicanálise Après Coup Porto Alegre Psicanálise e Poesia. Hoje em Porto Alegre, Marques ainda edita a revista Ovo da Ema. Seu primeiro livro de poesia, Relicário, foi publicado em 2009. Já e se alguém o pano, de 2015, ganhou o Prêmio Açorianos de Literatura (categoria poesia -2016), organizado pela prefeitura da capital gaúcha.”



quarta-feira, 18 de julho de 2018

Operários

Meus quadros favoritos


Tarsila do Amaral


100 anos de Mandela

A foto do dia


100 anos do nascimento de Nelson Mandela
Uma data para ser comemorada!

Imigração




Leandro Karnal inicia sua crônica de hoje (Imigrar, para O Estado de S. Paulo, 18 Jul 2018) com uma frase interessante: “O Brasil é um mosaico.”
            Não há tema mais atual e mais importante que o problema da imigração, e das levas de desvalidos refugiados mundo afora. As notícias dos africanos que tentam atravessar o Mediterrâneo e morrem afogados – famílias inteiras – estão todos os dias na mídia. São imagens dramáticas, que preferimos não ver. A xenofobia prospera em praticamente todos os continentes.
            As soluções são complexas, naturalmente. Para entender melhor do que se trata, destaco trecho da crônica de Karnal, que toca em pontos fundamentais do fenômeno imigração:

“Ser descendente de imigrantes pobres deveria nos tornar muito receptivos aos novos grupos de pessoas em fuga. Especificamente, imigrantes atuais como bolivianos, venezuelanos e haitianos, que repetem o que nossos avós alemães, italianos, japoneses, portugueses e espanhóis fizeram. Nem sempre temos a solidariedade que nossa condição imporia. Pelo contrário, é comum que o imigrante da segunda-feira olhe o da quinta-feira como um invasor arrivista, um perigo. Acontece no Brasil. Acontece nos EUA, onde Trump, descendente de imigrantes alemães e casado com uma imigrante eslovena, aperta o cerco contra “forasteiros”. Sempre me pareceu que, entre a utopia pouco praticável de escancarar fronteiras e a ideia de uma muralha xenofóbica, poderiam existir soluções equilibradas. Temos espaço no território. Talvez tenhamos pouco espaço nos corações. É sempre estranho que um ser humano possa ser ilegal no planeta Terra.”

            Esperemos pelas soluções equilibradas de que fala o cronista.





Chaim Soutine no Jewish Museum de NY


Peixe, pimentas e alhos


Peru dependurado


Carne


Fotos: AVianna, jun 2018, NY.