segunda-feira, 9 de maio de 2016

Ser ou não ser?

A Suécia aprovou em 1999 lei que criminaliza a prostituição, com a diferença de que agora a repressão combate os clientes e não mais as mulheres da vida. Noruega, Islândia e Canadá adotaram medidas semelhantes, e a França está prestes a seguir o mesmo caminho.
A decisão, naturalmente, tem o apoio integral de certos grupos feministas e religiosos.
            É bastante atraente a ideia defendida pelo chamado “feminismo abolicionista”, de que ninguém se prostitui por vontade própria. A mulher seria levada àquela vida por total falta de alternativa. Seria?
            Não há unanimidade quanto a esta posição. A Anistia Internacional votou resolução pedindo a descriminalização da prostituição. Grupos de prostitutas têm se manifestado contra essa interferência do Estado em suas atividades.
            Banir a prostituição parece tarefa fadada ao fracasso. Há uma série de outras profissões degradantes que também mereceriam o mesmo destino. Por que então se mira com tanta ênfase na escolha das putas? E se a escolha não for inevitável? E se a escolha for consciente e livre?
            Confesso que ainda não tenho opinião formada sobre o assunto. Concordo que punir as mulheres, o que vem sendo feito há milênios, não pode mais ser aceito pela sociedade moderna. Porém, impedir que “exerçam” (palavra utilizada por Jorge Amado, em abundância, ao longo de toda sua obra), punindo os fregueses, atinge diretamente a atividade das madames.
            Continuemos a pensar sobre o assunto.



domingo, 8 de maio de 2016

Parado no ar

A foto do dia




Foto: Paula Vianna, mai 2016, jardim.

Equipamento: Nikon D7200, lente DX VR Nikkor AF-S 18-300mm ED

sexta-feira, 6 de maio de 2016

O poder das cartas



Uma certa atividade que parecia morta e bem enterrada, para tristeza de uns poucos, dentre eles este Louco, ressuscita, numa bela experiência realizada pelo Colégio Santa Amália, na Saúde, SP. É a troca de cartas entre crianças e idosos, afirma Jairo Marques, em reportagem para a Folha de S. Paulo (6/5/2016), o que gerou amizade entre diferentes gerações.
Dezenove idosos residentes em Pinheiros receberam e enviaram missivas para 19 alunos de 7 a 9 anos do colégio Santa Amália, durante um período de dois meses. Esta é uma iniciativa inédita, que por meio de cartinhas escritas à mão, compartilha experiências e afeto entre as gerações.
Afirma Rosa Yuka Sato Chubaci, do curso de gerontologia da USP: "O idoso tem um ganho de autoestima ao transmitir conhecimento, tem uma oportunidade de criar uma relação nova com alguém de uma geração diferente".
Para Adriane Ideta, coordenadora na escola, “as crianças tanto puderam praticar um gênero textual com o qual não tinham familiaridade como tiveram a chance de obter mais informações sobre a velhice, suas necessidades e suas vontades.”
Como não estava no plano o encontro entre os grupos, os alunos usaram pseudônimos, mas a ansiedade das duplas foi tão grande que uma grande festa no Lar Sant'ana, onde residem os idosos, “selou as amizades à base de abraços, beijos e lágrimas”.
Jairo Marques destaca que, “mesmo depois do fim do projeto, com 120 cartas, algumas duplas resolveram seguir ativas na troca de mensagens, que continuam a ser escritas sem auxílio de tecnologia. Nessa nova fase de amizade, há também envio de presentes e visitas aos idosos.”
Belíssima iniciativa, em todos os sentidos. O processo dispensa tecnologia, utiliza-se do que há de mais simples e portanto mais eficiente, carrega uma boa dose de afetividade, o que há de aproximar as pessoas. Além do que meninos e meninas podem tomar gosto pela escrita.


Foto: Diego Padgurshi / Folhapress

quarta-feira, 4 de maio de 2016

O que se pode aprender

Assistir às reuniões das comissões do impeachment pode nos proporcionar alguns bons ensinamentos. Se não, vejamos.
           
Cada parlamentar entra na sala de reuniões com suas ideias prontas e bem organizadas. Ao final de dez horas de exaustivas discussões, todos saem do recinto com as mesmas ideias com que lá entraram.

Se alguma mudança houver em suas maneiras de pensar, serão referentes à robustez das próprias ideias, agora plenas de novos argumentos, oriundos dos embates políticos, para defender as mesmas ideias.

E por que isso acontece? Porque estão todos a defender interesses particulares, legítimos ou não. Ora são interesses partidários, outras vezes interesses ligados a ocupação de cargos, ou simples interesses pecuniários, alguns interesses são impublicáveis; não importa, são todos interesses pessoais.

Doce ilusão pensar que tal conduta é própria apenas dos ilustres parlamentares da República. Isso é próprio do ser humano. E desde que ele é uma criancinha!

Repetir repetir repetir, é assim que a criança aprende. Porque é o método mais fácil de se aprender, aquele que dá menos trabalho. E ela está sempre a defender seus próprios interesses. Sempre.

O método mais difícil de aprender: pensar!

(Porque defendem interesses particulares, já bem estabelecidos, os ilustres parlamentares não precisam pensar, apenas repetir repetir repetir. Repetem os mesmos discursos diariamente, e ainda costumam dizer: Certas coisas precisam ser repetidas para que...)

Mas o expectador que assiste ao espetáculo pode observar, analisar o que está vendo e ouvindo, e aprender que, embora dê muito trabalho, pensar ainda é a melhor opção.

É o que podemos aprender com as diversas comissões de ilustres parlamentares.


Capa do Estadão

A foto do dia


Sem comentários, mas a foto é genial.

Foto: Dida Sampaio / Estadão


terça-feira, 3 de maio de 2016

Alepo, o caos

A foto do dia


Alepo, caos após novo ataque a hospital. O mundo observa imóvel.

Foto: Karam Al-Masri / AFP

Persistência ou loucura?


Diante do irrefutável fato de que ninguém mais acessava seu blog, ele não teve outra alternativa senão continuar escrevendo.

Aprender a observar


           
           Amy E. Herman, especialista em percepção visual, levou um grupo de policiais de Nova York ao Metropolitan Museum of Art para ensiná-los a observar detalhes. É o que informa Sarah Lyall, do New York Times (2/5/2016).
Policiais sabem pouco sobre arte – raramente vão a museus –, e Herman disse que isso não é um problema:
"Já tive gente que falou odeio arte, e eu disse: Isso não vem ao caso. Não se trata de uma aula de Pollock versus Picasso. Não estou dando uma aula de arte – estou usando arte como um novo conjunto de dados, para ajudar vocês a limparem sua mente e utilizar as habilidades que vocês empregam no trabalho. Minha meta é que quando vocês saírem daqui, estejam encarando seu trabalho de outra maneira."
Para Amy Herman, uma pintura “é um repositório valioso de detalhes visuais que pode ajudar a lançar luz sobre, por exemplo, o modo de se abordar a cena de um homicídio”.
Herman inspirou-se num programa que levava estudantes de medicina de Yale para estudar obras de arte, a fim de melhor observarem seus pacientes. Mais tarde ampliou o programa para além da medicina. Ela acaba de lançar o livro "Visual Intelligence: Sharpen Your Perception, Change Your Life".
Eis mais uma função da obra de arte: aguçar a percepção visual!
Por analogia, penso que aguçar a percepção que temos das pessoas certamente nos traria benefícios, para o bem e para o mal. Ao longo da vida, acumulamos decepções sobre certos indivíduos, em quem depositamos grandes expectativas. Afirmo que só se desilude quem se ilude.
A ilusão não será um engano de nossa percepção das coisas e das pessoas?
Certa vez fomos eu e meu querido irmão a uma exposição de fotografias – já não me lembro do nome do fotógrafo famoso –, todas em preto e branco, e começamos a analisá-las, cada um apontando os detalhes que mais nos chamavam a atenção, a luz, a sombra, o contraste, o imprevisto, o instantâneo, até que notamos que um rapaz nos seguia discretamente. Às tantas, perguntamos a ele por quê nos acompanhava, e, para nossa surpresa, nos informou que era guia daquela mesma exposição, e que estava aprendendo muito com nossas observações. (Nunca fomos especialistas no assunto, é bom que se diga.) Além de lisonjeado, aprendi que observar obras de arte acompanhado de um bom interlocutor pode ajudar a aguçar nossa percepção.
Encerro esta pequena crônica com a ideia de que aguçar a percepção também constitui uma forma de se auto-educar. Tudo, de resto, é uma questão de educação.


Foto: Spencer Platt / Getty Images