terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Brooklin



Brooklin, de John Crowley, é um filme delicado, desses que não se fazem mais nos dias de hoje.
Em meio a tanta pancadaria (Mad Max, tão badalado, exagera na violência e cansa o expectador; O Regresso nos deixa exaustos, com pena do DiCaprio tanto que ele apanha, do urso, dos índios, da vida...), Brooklin conta uma história de imigração – nem tão dramática assim – mas que é capaz de nos emocionar, pois o filme é bem feito, o roteiro bem adaptado, baseado no romance homônimo de Colm Tóibín.
A mocinha Eilis, vivida por Saoirse Ronan, candidata ao Oscar de melhor atriz, tem um desempenho sensacional. Quando ela encontra o namorado, um italianinho bonito e amoroso, o filme ganha cores de um certo romantismo exagerado, mas agrada a plateia, que torce pela protagonista.
            A historia transcorre calmamente, Eilis parece adaptar-se bem à nova vida, porém o expectador aguarda com ansiedade o surgimento de algum conflito. Isso é interessante porque ocorre na vida real, com pessoas reais. Algumas delas não suportam que a vida transcorra serena, feliz mesmo, e ficam permanentemente esperando por uma tragédia. São incapazes de serem felizes.
            Mas no filme o conflito acaba por chegar. Surge a questão das escolhas, o que também aplica-se à nossa vida cotidiana. De modo que, fiel à ideia de que um bom filme é aquele capaz de provocar conversas ao final, regadas por um bom vinho, então Brooklin é um ótimo filme!

Paixão por um partido?


Militantes do PT e do PSDB trocam tapas em São Paulo.
Foto: Michel Filho / O Globo

Faz sentido ser apaixonado por um partido político?, pergunta Fernando Schüler, em crônica publicado no site da Época (16/2). Ele inicia sua argumentação citando Barthes:

“O apaixonado é frequentemente um tolo, ensinou Roland Barthes. Barthes se referia à paixão amorosa. A paixão louca dos amantes, dos namorados. Dos amores eternos e dos impossíveis, desses que a gente vê nos filmes.
Não faço ideia do que Barthes diria de um sujeito apaixonado por um partido político. Ou pior: por um político de carne e osso. Um prefeito, governador, presidente ou ex-Presidente. De minha parte, teria um bom nome a dar a esse sujeito, que prefiro não usar aqui.
Digo apenas que acho o passionalismo partidário um tanto ridículo, ainda que eficiente para quem dele se aproveita para chegar – ou se manter – no poder.”

            Outro modo de dizer a mesma coisa é: A Paixão é uma espécie de Loucura. Quando se trata da paixão entre duas pessoas – e isso acontece às vezes de forma inevitável – observa-se que as duas consideram-se uma só pessoa, unidas pela paixão. Este o maior sintoma da loucura, porque impossível na realidade.
            Acontece, vá lá, e a experiência é tão intensa que ouso dizer que quem nunca a experimentou, é porque não viveu.
            Agora, apaixonar-se por um partido político?! É uma loucura insana, desculpem-me o pleonasmo. Schüler classificou-a como “um tanto ridícula”, porém acrescentou uma boa dose de racionalismo, ao destacar que há os que se aproveitam do amor ao partido para chegar ao poder ou manter-se nele.
            Penso que a pergunta que dá origem à crônica é tão oportuna quanto atual. Vemos diariamente na mídia o estado de decomposição em que se encontram nossos partidos políticos, atolados numa corrupção institucionalizada, sem liderança, sem rumo, a não ser o de manter-se no poder. Por que então esta loucura de defender a todo custo as atitudes de um partido, de seus líderes ou até ex-líderes?
E Schüler conclui:

“A política pode ser feita com um sentido de missão e um senso de responsabilidade, como sugeriu Max Weber. O primeiro serve como ímpeto, o segundo como comedimento. Não é uma equação fácil, nestes tempos nervosos, mas é a melhor para a democracia, além de preservar velhas e boas amizades.”

            O Louco conclui: é melhor que pensem sobre o assunto.




Prestes Maia ocupado

A foto do dia.



Edifício Prestes Maia, em São Paulo, antiga fábrica textil, hoje é o lar de 400 famílias dos sem-teto espalhadas por seus 22 andares.



sábado, 13 de fevereiro de 2016

Aldravia n. 26


raízes
expostas
vanda
vive
de 
ar



Fotos: A.Vianna, fev. 2016, jardim.

O filho de Saul


O Holocausto, a mais terrível das tragédias do século XX, parece ser um tema inesgotável, talvez pelo desejo de compreender aquilo que nos parece incompreensível, o fenômeno do nazismo, oriundo no seio da própria humanidade.
O cinema tem brilhado nesse mister e O Filho de Saul, dirigido pelo húngaro László Nemes e protagonizado por Géza Röhrig não deixa por menos: concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2015.
            Os primeiros 10 ou 15 minutos do filme são de cortar a respiração do expectador. Quando finalmente o protagonista sai do Inferno – o complexo subterrâneo onde os judeus são encaminhados para os fornos crematórios de Auschwitz – e surge a luz do dia, pode-se respirar com certo alívio.
            Tudo por causa de um artifício técnico surpreendente: uma câmera grudada na nuca do protagonista, agilíssima, desloca-se enquanto ele corre de um lado para outro, tentando sobreviver, como tantos outros judeus que fazem o mesmo serviço. Às vezes a câmera muda de posição e focaliza a face do judeu, com a cor da cinza dos corpos já cremados e aparentemente inexpressiva, talvez pelo estresse insuportável das circunstâncias: além de sobreviver ele precisa enterrar um morto, porque é “o certo que se deve fazer”, nas palavras de Saul. Pode-se supor uma culpa imensa em todos aqueles que faziam o tal serviço, pois evidentemente não era o certo que se devia fazer.
            Porque a câmera está permanentemente grudada em Saul, a profundidade de campo torna-se limitadíssima, pois só importa o que ele vive em cada momento. O segundo plano é mostrado quase sempre fora de foco, o que haverá de gerar grande desconforto em alguns expectadores, especialmente naqueles que desconhecem certos detalhes do que foi a vida num campo de concentração como o de Auschwitz. Parece que o desejo do diretor foi mesmo este, de indicar que é impossível construir uma visão total e completa daquilo que foi um desses campos. Primo Levi (1919-1987), autor do monumental É isso um homem?, haveria de concordar.
            Um filme espetacular!


Intolerância religiosa

A  foto do dia


Encontro histórico entre o Papa e o Patriarca Russo ocorrido ontem em Havana, Cuba. O cisma ocorrido em 1054 e que perdura por quase mil anos dá bem uma mostra do que é a intolerância religiosa, mesmo entre cristãos.