quarta-feira, 29 de abril de 2015

Judas, de Amós Oz



A começar pela capa da edição brasileira, Judas, de Amós Oz (Companhia das Letras, 2014) é um grande romance! Foto da magnífica escultura de Constantin Brâncusi (Romênia, 1876 – Paris, 1957), O Beijo, de 1908, ilustra a capa do livro. Nada mais sugestivo! A excelente tradução, diretamente do hebraico, é de Paulo Geiger.
            O autor, nascido em Jerusalém em 1939, é considerado hoje o mais influente escritor israelense, fundador do movimento Paz Agora. Ele defende a coexistência de dois Estados independentes, o palestino e o israelense.
            Em Judas, Oz mistura dois conflitos fundamentais: a criação do Estado de Israel e a consequente e quase insolúvel disputa entre árabes e judeus, e a “criação” do cristianismo, através da relação entre Jesus e Judas Iscariotis. (O livro bem que poderia receber o título de Evangelho segundo Judas Iscariotis.)
            Uma boa dose de erotismo é acrescentada pela ambígua relação entre o jovem Shmuel Asch e a bela viúva Atalia Abravanel, mulher marcada definitivamente pelas funestas consequências da guerra.
            O tema central do livro, a traição, tanto na figura de Judas quanto na do próprio autor, recebe tratamento original: o traidor pode ser o mais leal seguidor.

            Um belo romance!

segunda-feira, 27 de abril de 2015

As armas e as artes



         Duas manchetes aparentemente não relacionadas ocuparam a primeira página do The New York Times, suplemento da Folha, no último sábado (25/4): “Oriente Médio abre nova corrida armamentista” e “Tesouros de arte à venda”. A conexão que posso estabelecer entre elas diz respeito à face mais perversa do capitalismo contemporâneo.




                A Arábia Saudita usa caças F-15 da Boeing na guerra no Iêmen, os Emirados Árabes Unidos bombardeiam o Iêmen e a Síria com os F-16 da Lockheed Martin, os Emirados devem adquirir drones Predator da General Atomics.
          A indústria armamentista americana aguarda o pedido de países aliados árabes (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrein, Jordânia e Egito) que combatem o Estado Islâmico, de compra de milhares de mísseis, bombas, tanques, aviões, todo tipo de armamentos para a recomposição de seu arsenal de guerra. O resultado disso é um boom para fabricantes americanos de armamentos em busca de negócios no Oriente Médio.
          A Arábia Saudita destinou mais de US$ 80 bilhões para armamentos em 2014 – o maior gasto militar de sua história –, e os Emirados Árabes Unidos gastaram quase US$ 23 bilhões, no ano passado. O Qatar comprou dos EUA helicópteros de ataque Apache e sistemas de defesa antiaérea Patriot e Javelin por US$ 11 bilhões e espera ainda adquirir caças F-15 da Boeing para substituir os jatos Mirage franceses. A Boeing abriu um escritório em Doha em 2011, e a Lockheed Martin fez o mesmo este ano.
          E quem paga esta conta? Lá, como aqui, é o povo.

            A segunda manchete refere-se à venda de obras de arte de valor inestimável por vários museus da Europa, todos eles passando por dificuldades orçamentárias. Para cobrir gastos, desfazem-se da prataria da casa. 
          No Reino Unido, a estátua egípcia do Escriba Sekhemka, de 4.500 anos, pertencente ao museu de Northampton, foi a leilão e arrematada por um comprador anônimo por US$ 27 milhões. E os milionários compradores anônimos guardarão a sete chaves suas relíquias, longe dos olhos dos simples mortais.



              O museu de arte de Münster, Alemanha, pode perder uma escultura de Henry Moore, em exposição naquela instituição há 40 anos, para pagar débitos do museu. (O povo acorre ao museu para ver, talvez pela última vez, as obras de arte.)
          Quem perde com tais transações se não o povo?

             Para o feroz regime capitalista, o que importa é a movimentação do dinheiro para a obtenção do lucro, seja na fabricação e venda de armas, seja na espoliação dos museus. O povo, ah! o povo, que se dane.

Ele, mais uma vez!



A Orquestra Sinfônica de Teerã, que já foi dirigida por maestros consagrados como Yehudi Menuhim, Isaac Stern, Maurice Béjart, havia sobrevivido a eventos traumáticos como um golpe de estado, a revolução islâmica, a guerra contra o Iraque. Porém, não sobreviveu a Mahmoud Almadinejad, que encerrou suas atividades sob o pretexto da falta de verbas.
O governo moderado de Hassan Rouhani trouxe de volta o maestro Alexander Rahbari, no exílio desde 1970. O retorno da Sinfônica de Teerã aos palcos há duas semanas foi tomado como o símbolo de um país que procura normalizar suas relações com o Ocidente.
A obra escolhida para evento tão significativo não poderia ser outra que não a Nona de Beethoven, também usada como hino da União Europeia! A primeira execução pública da Nona Sinfonia ocorreu em 7 de maio de 1824, na presença do compositor, completamente surdo à época. Quase 200 anos depois, o mestre alemão permanece atual, emocionante, capaz de tocar o coração dos mais diferentes povos do planeta.
O novo projeto iraniano inclui a apresentação semanal da Sinfônica, a formação de novos músicos  e maestros pelo país.
Bela iniciativa do Irã, na contramão do fundamentalismo religioso do Oriente Médio.



domingo, 26 de abril de 2015

haicai molhado


clima enlouquecido
antigas águas de março
em pleno abril

Foto: A.Vianna, abril 2015, Brasília.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Agualusa poeta



Exorcismo


lavro versos
curtos
como orações

palavras são legiões

de demónios
expulsos

corto advérbios

pronomes

poupo os pulsos.



                                  José Eduardo Agualusa
                                  do livro Teoria Geral do Esquecimento

Dia Internacional do Livro


Monumento ao Livro, em Berlin

             Não tenho apreço pelo já arraigado costume do Dia disso, Dia daquilo, incluindo as datas religiosas, afetivas e outras efemérides. Há quase sempre um segundo interesse nessas pretensas homenagens, especialmente do comércio varejista, como se costuma dizer. “Nesse ano o Dia dos Namorados vendeu mais que o Dia das Mães!” “As vendas do Dia das Crianças estiveram aquém do esperado pelos lojistas!” “Espera-se movimento recorde nas vendas de Natal!” “Ruim o movimento nos shoppings na véspera do Dia dos Pais.” Enfim, coisas desse tipo.
            Há exceção para tudo nessa vida. Daí o anexim Toda Regra Tem Exceção. Eis a minha exceção: o Dia do Livro! E é hoje!
            Parece que o Dia Internacional do Livro surgiu na Catalunha, em 5 de abril de 1926, em comemoração do nascimento de Miguel de Cervantes. Em 1930 a data comemorativa mudou para 23 de abril, dia do falecimento de Cervantes. Em 1995 a UNESCO oficializou o 23 de abril como o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor. (Aí está!, embutida uma segunda intenção, o direito do autor. Nada contra, porém.)
            A estatística mais recente afirma que, no Brasil, em cada 10 indivíduos, 7 não leem sequer um livro por ano. Isso é assustador. (Conheci um médico que bradava Nunca li um livro em minha vida! Orgulhava-se portanto da própria estupidez. Um certo presidente da república também já fez afirmação semelhante.) Este fato, por si só, faz por merecer que se dê destaque ao Dia do Livro.
            Outra particularidade do livro a merecer destaque: ele dispensa intermediários, a conversa se estabelece diretamente entre autor e leitor. E se o autor é bom, se é ótimo, se é um Shakespeare, temos muito o que aprender com ele. (O tradutor pode ser considerado um intermediário. Se ele também é bom, se é ótimo, se é uma Bárbara Heliodora, então tudo bem, somos gratos a ele.)
            Uma grande característica: o mesmo livro pode ser lido várias vezes. (Certa feita, outro médico amigo espantou-se, Mas você lê um livro duas vezes?! Ao que respondi, provocativo e arrogante, Duas não, três, quatro, cinco...) Hamlet é um bom exemplo de livro a exigir múltiplas e repetidas leituras. Como na vida, desde a infância, aprendemos com a repetição.
            Mas é preciso escolher bem o livro que se vai ler. Cuidado com o best-seller, muito cuidado com a autoajuda, atenção às simplificações ou reduções das grandes obras, nunca é demais voltar aos clássicos. Mas não se deve desprezar os contemporâneos, penso eu.
            Bem, não é difícil cantar loas ao objeto livro. Ele merece mesmo ter seu Dia Internacional.