sexta-feira, 21 de março de 2014

natureza em perigo


cerrado em alerta
com a chegada do outono
o risco de incêndio



O saxofone



Do âmago de sucessivas noites,
entre estrelas pálidas e frágeis,
soavam as notas indefinidas
de um saxofone distante.
Estranhas melodias que nunca se repetiam,
às vezes escalas monótonas como mantras,
líquida música a pairar no breu.
Fiquei sabendo depois:
era aquele sopro musical,
puro vapor de som,
que afugentava o soturno voejar da morte
que rondava em círculos
e lançava silvos e saliva infecta,
ávida, voraz, impiedosa.
Abençoado saxofone.
                                               Paulo Sergio Viana

No Dia Mundial da Poesia, minha homenagem ao poeta Paulo Sergio.


Prestando atenção

A foto do dia.


Em pouco tempo, eles estarão mais bem alfabetizados que muitos conterrâneos nossos...


quarta-feira, 19 de março de 2014

Alta tecnologia


Feliz da vida porque ganhou um tablet do MEC, o aluno exclamou:
– Agora não preciso mais prestar atenção às aulas.

terça-feira, 18 de março de 2014

Trabalhar e consumir


Em conversa entre Hannah Arendt e Günter Gaus, em 1964, o jornalista interroga a filósofa sobre a questão do “ser humano que encontra satisfação no processo de mero trabalho e consumo”. (1)  Arendt responde:

“Não acredito que possa existir nenhum processo de pensamento sem experiência pessoal. Todo pensamento é um pensamento posterior, isto é, uma reflexão sobre algum fato ou assunto. Não é assim? Vivo no mundo moderno, e evidentemente minha experiência se dá no e sobre o mundo moderno. Isso, afinal, é incontroverso. Mas a questão de simplesmente trabalhar e consumir é de importância crucial porque aqui se define também uma espécie de amundanidade. Ninguém mais se importa como o mundo aparenta estar.”

            Solicitada a explicar melhor o que significava “mundo” para ela, complementa:

“Agora emprego o termo num sentido muito mais amplo, como o espaço onde as coisas se tornam públicas, como o espaço onde a pessoa vive e deve parecer apresentável. Onde surge a arte, claro.”

            É nesse espaço chamado mundo que, 50 anos depois das palavras de Hannah Arendt, as pessoas concentram-se cada vez mais em trabalhar e consumir. Talvez mais ainda que há meia década; atualíssimo, portanto, o assunto. E para dar a devida importância a este espaço onde vivemos, a filósofa arremata com uma frase curta e poderosa: “Onde surge a arte.”
            Trabalhar e consumir, sem tomar conhecimento da arte, é ignorar o mundo. É negar o mundo em que vivemos.
            Certa feita ouvi de uma pessoa que não voltaria ao Louvre porque já lá estivera uma vez, tinha visto tudo. Pois rever, repetir a experiência é outra forma de experimentar um novo processo de pensamento. Daí a necessidade de se continuar re-vendo, durante toda a vida, se possível.
            Também ouvi de um amigo, surpreso diante daquilo que não podia compreender, Mas você lê um livro mais de uma vez? Ele nunca ouvira falar de re-leitura.
            Quantas vezes será necessário ouvir a Sonata para piano no. 32, op. 111, de Ludwig van Beethoven, para não mais se surpreender por algum trecho da magnífica obra?
            Infinitos olhares, audições, releituras, são infinitas as possibilidades de cada um em re-experimentar a obra de arte, re-viver o mundo onde se apresenta. Cada uma e todas elas, estas experiências passam a fazer parte do sujeito, tornam-se experiências pessoais, realizam a expansão psíquica de cada um. Porém, no dizer de Arendt:

“No trabalho e no consumo, o homem é totalmente lançado de volta para si mesmo.”

            Não se trata aqui de um voltar-se a si mesmo no sentido do autoconhecimento, da autorreflexão, da compreensão da posição do próprio homem no universo, enfim, sobre o possível sentido da vida. Trata-se de um ensimesmamento empobrecedor, que acaba por redundar em mera e vazia solidão, quando não em profunda melancolia.
Não há pois qualquer possibilidade de expansão psíquica no simples trabalhar e consumir, alertava Arendt há meio século. Um bom conselho para o homem contemporâneo.
           

(1) Arendt H. Compreender: formação, exílio e totalitarismo (Ensaios). Companhia das Letras, 2008.

Alegria

A foto do dia e haicai.


os doces à venda
- o sorriso da menina
 esse não tem preço


Vendedora de doces em Macoco, Lagos.
Foto: Devesh Uba