segunda-feira, 29 de julho de 2013

leminskiana


em busca da rima
          poeta - confuso e pateta
                     perdeu-se
                                    na
                                         linha

inverno


manhã gelada em Brasília
quem sabe à noite
uma sopa, um bom tinto

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Poetrix: quem não conhece?


“O POETRIX é um poema composto de título e uma estrofe de três versos (terceto) com um máximo de trinta sílabas métricas.”

Goulart Gomes


devoção


subserviência
com muito amor:
o cão de barriga para cima
A. Vianna


BULA POETRIX


O hai-kai é uma pérola; o poetrix é uma pílula.
Goulart Gomes

"Em 2009 o POETRIX completa 10 anos de criação. Nesse período ele obteve uma significativa propagação no Brasil, Portugal e em outros países de língua latina.
Com o objetivo de melhor defini-lo, estabelecendo critérios quanto à sua forma e conteúdo que possam orientar mais precisamente os seus autores - os poetrixtas – a Coordenação Geral do Movimento Internacional Poetrix (MIP) divulga, agora, esta BULA POETRIX, conjunto de orientações para o aperfeiçoamento e uniformização desse gênero literário.
  
1 POETRIX – Informações Técnicas
  
CONCEITO

Poetrix (s.m.): poema com um máximo de trinta sílabas métricas, distribuídas em apenas uma estrofe, com três versos (terceto) e título.
  
FORMAS MÚLTIPLAS

São criadas em contextos comunicativos e constituídas como derivações do POETRIX; sua elaboração tem como características básicas o dialogismo, a intertextualidade e a polissemia da linguagem. Identificadas e reconhecidas pelo MIP como Duplix, Triplix e Multiplix são mesclagens de dois ou mais poetrix que se compõem com a participação obrigatória de variados autores e com suas poéticas formando sentidos complementares entre si (individualidade-interação-universalidade). 
  
2 CARACTERÍSTICAS DO POETRIX

2.1      O poetrix é minimalista, ou seja, procura transmitir a mais completa mensagem em um menor número possível de palavras e sílabas.
2.2      O título é indispensável. Ele complementa e dá significado ao texto. Por não entrar na contagem de sílabas, permite diversas possibilidades ao autor.
2.3      Não existe rigor quanto à métrica ou rimas, mas o ritmo e a exploração da sonoridade das sílabas é desejável.
2.4      Metáforas e outras figuras de linguagem, assim como neologismos, devem ser elementos constitutivos do poetrix.
2.5      É essencial que haja uma interação autor/leitor provocada por mensagens subliminares ou lacunas textuais.
2.6      Os tempos verbais – pretérito, presente e futuro - podem ser utilizados indistintamente.
2.7      O autor, as personagens e o fato observado podem interagir criando, inclusive, condições supra-reais, cômicas ou ilógicas (nonsense).
2.8      O poetrix deve promover a multiplicidade de sentidos e/ou emoções, não se atendo necessariamente a um único significado.
  
3 COMPOSIÇÃO

O POETRIX deve ser composto por ao menos um dos seguintes elementos, inspirados nas Seis Propostas para o Próximo Milênio, de Ítalo Calvino:
  
3.1      CONCISÃO: o mínimo é o máximo. O importante é dizer muito, falando pouco. O poetrix é uma pílula, que tem seu propósito determinado; é um projétil em direção ao alvo;
3.2      SALTO: é a metamorfose da idéia inicial, provocada no segundo ou terceiro verso da estrofe, acrescida de outros significados, permitindo uma nova perspectiva de compreensão do poetrix;
3.3      SUSTO: é o elemento inusitado e imprevisível que provoca surpresa ao leitor; é a fuga do lugar-comum, da obviedade, que desconstrói e amplia horizontes, mostrando outros caminhos, possibilidades, contextos;
3.4      SEMÂNTICA: exploração da polissemia de determinadas palavras ou expressões, permitindo a possibilidade de variadas leituras ou interpretações;
3.5      LEVEZA: jeito multifacetado de utilização da linguagem. Nesse sentido, o uso de imagens sutis deve trazer leveza, precisão e determinação ao poetrix e, com isso, provocar, no leitor, a abertura de renovadas construções mentais impregnadas de imprecisões e indeterminações, de novas possibilidades de interpretar a realidade, de desanuviar a opacidade do mundo.
3.6      RAPIDEZ: máxima concentração da poesia e do pensamento; agilidade, mobilidade, desenvoltura; busca da frase em que todos os elementos sejam insubstituíveis, do encontro de sons e conceitos que sejam os mais eficazes e densos de significado;
3.7      EXATIDÃO: busca de uma linguagem que seja a mais precisa possível como léxico e em sua capacidade de traduzir as nuanças do pensamento e da imaginação;
3.8      VISIBILIDADE: qualidade de expressar e pensar imagens, colocando visões em foco; reflexo da qualidade imagética do poetrix, em cor, sombra, contorno e perspectiva; é o substantivar da poesia;
3.9      MULTIPLICIDADE: expressão da pluralidade de possibilidades intertextuais e polissêmicas, provocando interações e criando novas formas;
3.10    CONSISTÊNCIA: através da fuga das obviedades, dos lugares-comuns, buscando expressar-se de forma original. O poetrix rompe, naturalmente, com antigos esquemas simplificantes e reducionistas e investe num sistema complexo, cujas categorias são opostas à simplicidade: a complexidade, a desordem e a caoticidade, próprias de sistemas não-lineares, capazes de realizar trocas com o meio envolvente.
  
4 INDICAÇÕES:

4.1       EXPLORAR O PODER DO TÍTULO,. para o qual não há limite de sílabas. Uma das grandes vantagens do poetrix é a existência do título, que habitualmente não existe no hai-kai .

4.2       MINIMALIZAR. Eliminar todas as palavras que estão sobrando. Escrever um poetrix é lapidar um diamante. Raramente um texto está pronto em sua primeira versão. É necessário, sempre, aprimorá-lo.

4.3       PESQUISAR. Uma idéia original pode ser enriquecida com informações complementares, ampliando-a em conteúdo e significado.

4.4 UTILIZAR FIGURAS DE LINGUAGEM. Em todas as formas poéticas, o uso de figuras de linguagem, metáforas, tropos e imagens enriquecem bastante o texto.

4.5       PERMITIR QUE O NÃO-DITO FALE. Evite menosprezar a inteligência e a perspicácia do leitor. O poetrix deve instigá-lo a buscar significados nas entrelinhas, a descobrir outros contextos e sentidos.
  
5 CONTRA-INDICAÇÕES:

5.1      EVITAR AS ORAÇÕES COORDENADAS. Um poetrix não é uma frase fragmentada em três partes.

5.2      NÃO CONFUNDIR POETRIX COM HAI-KAI. Para isso, é importante conhecer, também, os fundamentos do hai-kai, que tem suas próprias características.

5.3      CONJUNÇÕES EMPOBRECEM O POETRIX: mas, contudo, porém, todavia, não obstante, entretanto, no entanto, pois, geralmente não servem para nada em um poetrix, podendo ser eliminadas sem prejudicar o texto.

5.4      NÃO FORÇAR RIMAS. Poetrix não é trova. Às vezes pode-se dispensar completamente uma rima utilizando-se bem o ritmo, a sonoridade e a riqueza semântica das palavras.

5.5      POETRIX NÃO É PROVÉRBIO, MUITO MENOS DEFINIÇÃO. Muito menos, frase de parachoque de caminhão.

Coordenação Geral do Movimento Internacional Poetrix
Brasil, Janeiro de 2009
Versão 1.2 - Janeiro/2010
Leia, também, o texto FORMAS MÚLTIPLAS - DEFINIÇÕES."

Goulart Gomes

(participe dos grupos Poetrix ou Poetrixtando no Facebook).
Outros contatos: movimentopoetrix@hotmail.com
Movimento Poetrix

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Meninos, eu vi...


Em homenagem a Djalma Santos,
falecido há dois dias.






            Estávamos no final dos anos 50 ou no início dos 60, não me lembro bem. O que importa é que o Palmeiras iria jogar em Guaratinguetá, contra a também querida Desportiva. O menino levou para o campo – o jogo seria à noite, onde o gramado e as cores dos uniformes ficam ainda mais bonitos – a íntima e dolorosa dúvida: torcer por quem?
            O pai não perguntou, também ele palmeirense, muito menos o irmão, corinthiano roxo. Foram em silêncio para o estádio.
            Quando o Palmeiras entrou em campo a torcida local ensaiou vaia, logo reprimida pela presença de grandes jogadores, entre eles Djalma Santos, escolhido o melhor lateral direito da Copa de 58, na Suécia.
            Lá pelas tantas, a bola correndo pela lateral do campo em direção à ponta direita, bem próximo de onde nos encontrávamos na arquibancada, aconteceu a insólita jogada. Corriam juntos o Djalma – ele era lateral mas atacava como ponta – e o defensor da Desportiva, quando, num tranco lícito de ombro, o palmeirense jogou o adversário no alambrado, prosseguindo com a jogada, que terminou em cruzamento sobre a área do Desportiva.
            A torcida vaiou feio, juiz-ladrão-filho-da-puta, pedindo falta do palmeirense. Foi quando o menino levantou-se e começou a gritar, Foi de ombro, foi de ombro, isso vale, futebol é pra homem...
            O pai e o irmão espantaram-se com a desenvoltura do menino, e agora todos sabiam por quem ele torcia...

Uma informação preciosa


Dr. Álvaro precisava desesperadamente daquela informação!
Assumira recentemente a direção do Hospital Municipal de Paraíso do Oeste, que como todo hospital público, encontrava-se atolado em dívidas. Os fornecedores ameaçavam interromper as entregas, medicamentos, até os mais simples como os analgésicos, já não eram encontrados na farmácia do hospital, cirurgias começavam a ser suspensas por falta de material, até mesmo a cozinha sofria com a falta de recursos, empobrecido o cardápio dos já desnutridos paraisenses internados.
A crise agravava-se rapidamente, sem que se vislumbrasse qualquer socorro por parte da Prefeitura, do Governo do Estado, ou do Governo Federal. Paraíso, sem um deputado ou senador a quem pudesse recorrer, o próprio diretor, um simples médico sem qualquer apadrinhamento político, e que assumira o cargo muito mais por ingenuidade e idealismo, pois jamais pensara em auferir qualquer benefício político ou financeiro com o cargo, tudo e todos conspiravam contra a situação do HOMPO, a disfônica sigla pela qual era conhecido o nosocômio.
Até que surge a inesperada visita!
Fizeram-se anunciar por um telefonema de véspera, atendido pela secretária do diretor, que passou adiante a notícia, a de que dois senhores, representantes de uma organização internacional, tinham uma proposta a fazer, A salvação do HOMPO!, segundo eles mesmos.
No dia seguinte, grupo seleto de representantes do corpo clínico do hospital aguardava desde cedo pelos ilustres visitantes. Apresentaram-se os dois, simpáticos e bem falantes, com indisfarçável arrogância, diante da equipe que administrava o hospital. Nada pedimos, adiantaram, apenas desejamos ajudar: dispomos de quantia praticamente ilimitada de recursos financeiros para resolver em definitivo o problema do HOMPO! Apresentem com urgência uma lista dos equipamentos desejados, e serão rapidamente atendidos.
Correu o boato – alguém teria ouvido de um dos visitantes – que ofereciam cem milhões de reais ao hospital. A quantia era astronômica,  para as pretensões dos paraisenses. Embora desconfiados, puseram-se a organizar o rol de equipamentos, incluindo tomógrafos, ressonância magnética, tudo o que havia de mais moderno nas várias especialidades médicas, ambulâncias, leitos novos, monitores de última geração para a UTI, um não acabar mais de itens.
Desconfiados, é verdade, e por dois motivos. Primeiro porque os visitantes não explicaram bem a origem do dinheiro. Diziam que os recursos vinham de multinacionais ligadas a Unesco, com finalidade filantrópica, dinheiro de fundos perdidos. Segundo, porque não deixaram claro a função que eles mesmos representavam, quer diante da Unesco, quer frente às referidas multinacionais. A despeito da arrogância, não passavam de dois ilustres desconhecidos. Mas o que temos a perder?, disseram os médicos, Eles nada pedem em troca!
Dr. Álvaro, preocupado com a reputação do hospital, iniciou investigação pessoal a respeito dos dois senhores. Ligou para Brasília, falou com representantes do Ministério da Saúde, do Ministério das Relações Exteriores, até com a Casa Civil manteve contato. Falou com diretores de hospitais do Rio e São Paulo, e nada, ninguém conhecia os dois visitantes!
Até que recebeu telefonema de antigo colega de turma, médico atuante em São Paulo, que dizia conhecer alguém que dispunha das informações que Dr. Álvaro precisava. Apenas não podia transmiti-las por telefone, mas esperava o amigo para um jantar em sua residência, no afamado bairro do Morumbi, onde Álvaro seria apresentado a uma determinada pessoa que conhecia os supostos benfeitores.
No dia seguinte, bem cedo, Dr. Álvaro foi de carro até a capital de seu estado, e de lá tomou avião para São Paulo. Às próprias expensas, nem é preciso dizer, e no maior sigilo. Apenas sua esposa sabia de sua destinação. Ao cair da tarde chegou à mansão do amigo, cirurgião cardíaco de renome, solicitadíssimo pelos políticos e autoridades do país, diante da menor suspeita de doença do coração. Foi recebido amavelmente pela esposa do colega, Ele não chega em casa antes das onze da noite, informou ela. Mas prometeu que chegaria mais cedo naquela noite.
Dr. Álvaro não teve outro remédio senão esperar. Servido com salgadinhos e quitutes refinados, aproveitou para matar a fome, pois comera apenas o parco sanduíche do avião. Também não recusou o uísque 18 anos oferecido pela dona da casa.
Às dez da noite chegou o colega, acompanhado de um amigo, O tal que sabe das informações, pensou Álvaro. Entre abraços cordiais e manifestações de amizade, o jantar foi servido. A anfitriã era natural de Salvador, e não perdia a oportunidade para demonstrar suas habilidades culinárias a quantos visitantes recebia, com lauto banquete das mais variadas comidas típicas. Álvaro, não há em toda São Paulo comida baiana que se iguale a de minha mulher, adiantou orgulhoso o colega. Tudo regado a um chardonay francês de estirpe!
Ao final do jantar, passaram ao salão do café, onde, afinal, a portas fechadas, haveria a conversa tão aguardada pelo Dr. Álvaro. O homem, de pouquíssimas palavras, pois se manteve calado durante todo o jantar, foi lacônico, Aqui está, Dr. Álvaro, o nome e o número de telefone da pessoa que haverá de prestar-lhe todas as informações de que o senhor precisa. Passou-lhe uma folha de papel, contendo apenas um nome e o número do telefone, que Álvaro guardou cuidadosamente no bolso interno do paletó. Mais não disse, nem lhe foi perguntado.
Mudaram rapidamente de assunto, para espanto de Álvaro. Depois do café, foi servido o melhor conhaque e acesos os perfumados cohibas. Falaram de tudo e de todos, de como era agitada a vida paulistana, dos clientes famosos do cirurgião, do trânsito impossível da Capital, mas Álvaro já não prestava atenção à conversa. Sentia uma reviravolta nas tripas, a cabeça também a revirar-se, uma urgência absoluta, talvez a única real urgência desta vida, a necessidade de uma privada. A dona da casa, sempre solícita, indicou-lhe o lavabo junto à sala de jantar.
Enfim, o alívio. Acho que exagerei um pouco, pensou Álvaro. Porém, aquele ainda não era o fim de seu sofrimento. Terminada a abundante exoneração, ao buscar o papel higiênico, para seu desespero o rolo estava completamente vazio. Olhou em volta, na esperança de encontrar um rolo sobressalente, e nada. Procurou, não sem grande esforço e desconforto, no pequeno armário debaixo da pia, nada. Mais esta agora, exclamou! Que dia, que dia!
Não lhe restou outro recurso senão usar a folha com o nome e o número de telefone. Álvaro ainda tentou memorizá-los, mas a cabeça girando, girando, não ajudava.
Despediu-se constrangidíssimo, tomou um táxi, procurou um hotel barato próximo à Praça da República, e dormiu um sono sem sonhos. Acordou por volta do meio-dia, ingeriu apenas uma xícara de café preto, e por sorte conseguiu embarcar num voo para a capital de seu estado. Perto das onze da noite estava em casa. Sua mulher espantou-se, Álvaro, você está verde, o que aconteceu? Nada, nada...
Como havia partido em sigilo, em sigilo retornou ao trabalho. Encontrou pronta a lista de equipamentos generosamente elaborada pelos colegas. Naquela mesma manhã os dois misteriosos visitantes voltaram ao hospital, informando que todos podiam aguardar com tranquilidade, que os pedidos seriam atendidos dentro de poucas semanas. O HOMPO está salvo!
Dr. Álvaro nunca mais teve notícias deles. Muito menos de qualquer equipamento, que aliviasse a penúria em que se encontrava o hospital. E que se encontra até hoje.