segunda-feira, 15 de julho de 2013

2. Diário: 25/06/13


Ao escrever a frase “Se terá sucesso e tempo para esta empreitada, nem ele ainda o sabe”, na Introdução ao texto, senti o peso do tempo que passa, inexoravelmente. Escrever, ao mesmo tempo que ajuda, pois é o que posso fazer enquanto o tempo passa, me traz à consciência, insistentemente, como uma pedra no sapato, este fato, de que o tempo está passando. Dizem que o passar do tempo ajuda. O que fazer enquanto o tempo passa, eis a questão. 

1. Introdução


Pensar a morte continua sendo um problema para os vivos. Afinal, os mortos não têm problemas.
            Dos inúmeros enfoques que o tema comporta – religioso, antropológico, filosófico, social, etc – o que nos interessa aqui é o vértice médico, de como a morte e o processo de morrer afetam desde o estudante de medicina que se defronta com o cadáver nos primeiros semestres do curso, até o médico experiente, mas que evita o assunto quando se trata da morte de um paciente seu.
            Alguma coisa mudou nos últimos 40 anos, especialmente no que diz respeito às informações prestadas aos pacientes e seus familiares sobre o verdadeiro diagnóstico. Informações falsas ou omissões tornaram-se passíveis de processo judicial contra o médico e contra o próprio hospital, determinando tais mudanças de atitude. O que pouco mudou foi o real sentimento do médico para com o paciente terminal, para a inevitabilidade da morte em determinadas circunstâncias; e tem dificuldade para ajudar tais pacientes com a experiência do processo de morrer, sem que se sinta culpado pela morte deles.
            Uma das principais razões para que tais mudanças, quando ocorrem, se façam tão vagarosamente, é a pouca informação dedicada ao estudante de medicina durante toda a sua formação. No Brasil, a morte e em particular a abordagem do paciente terminal não chegam a ser mencionados em vários currículos médicos, ou são superficialmente tratados em outros, através de aulas esporádicas, a critério de um ou outro professor. As dificuldades surgem gritantes quando o aluno chega ao chamado Internato, o último ano do curso, quando entra em contato com o paciente grave, de forma mais íntima e  responsável. Durante a Residência Médica, premido pelo excesso de trabalho, o médico relega o assunto para segundo plano.
            O objetivo deste texto, dedicado ao estudante de medicina, ao médico residente, a todos os médicos que de um modo ou de outro estão envolvidos com a morte de seus pacientes, e ao leigo que se interessa pela morte e pelo processo de morrer, é tratar do assunto com base na experiência pessoal do autor, que há mais de 30 anos vem acumulando experiência clínica, no atendimento aos pacientes terminais; durante igual período, teve o privilégio de poder discutir o tema várias vezes em cada semestre, com alunos de graduação, médicos residentes, colegas professores da Universidade de Brasília, através de seminários, discussões de grupo, conferências e participação em congressos médicos. A publicação do artigo científico “O estudante, o médico e o professor de medicina perante a morte e o paciente terminal”, na Revista da Associação Médica Brasileira, e o capítulo “Cirurgião e paciente terminal: a educação pela morte”, no livro Controle Clínico do Paciente Cirúrgico, constituíram importantes momentos para o autor.
            A esses fatos soma-se a condição do próprio autor, portador de um câncer com disseminação óssea e linfonodal, neste momento considerar-se um paciente terminal. Antes de dar prosseguimento, faz-se imperioso conceituar o termo “paciente terminal”: é a pessoa portadora de doença grave, que provavelmente a levará à morte, num espaço de tempo muito variável, compreendido entre semanas ou anos. Não se trata portanto do chamado paciente moribundo, ou seja, aquele que está morrendo. O termo paciente terminal, embora bastante criticado atualmente, ganhou aceitação em nosso meio e é de fácil compreensão até mesmo pelo leigo, e por isso será aqui empregado.
            A partir do momento em que decidiu registrar sua experiência com o tema, o autor decidiu também iniciar um Diário onde pudesse registrar a evolução de sua própria doença e as repercussões psíquicas decorrentes, com o intuito de trazer alguma luz ao que será chamado doravante de O Processo de Morrer. Se terá sucesso e tempo para esta empreitada, nem ele ainda o sabe. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Franqueza


Quando o idoso voltou à farmácia pela terceira vez na semana, o balconista sapecou: Cuidado moço, quem vem muito aqui um dia não volta mais.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Juras de amor sobre o Sena






Em algumas pontes sobre o Sena, em Paris, a moda agora é trancar-se um cadeado com os nomes dos enamorados, ou apenas as iniciais, nas proteções laterais da ponte, uma espécie de jura de amor, suponho.

O número dos tais cadeados é assombroso! Há locais onde não cabe mais nem um daqueles cadeadinhos de mala, bem pequenos. São milhares deles, às vezes colocados às pencas, sabe-se lá se representando algum tipo de amor grupal. 
       
Para o viajante que presencia o fenômeno pela primeira vez, ele causa sem dúvida uma certa surpresa, há um efeito plástico interessante, especialmente quando visto de longe, ou durante um passeio de barco pelo Sena. O metal dourado dos cadeados brilha à luz do sol parisiense, iluminando ainda mais uma cidade já iluminada. De perto, gera mais curiosidade que outra coisa.

O viajante não se animou a colocar seu cadeado, seja porque no momento sentisse seu amor bem preso, seja porque não acredita em juras de amor eterno, nem mesmo as trancadas à chave nas pontes sobre o Sena. 

Para que não se corra o risco de um dos amantes algum dia desejar destrancar o cadeado, suponho que a chave seja jogada na água. Mas não pude comprovar este fato.


Fotos: A.Vianna, Paris, 2013.

Briga de rua


No almoço semanal com dois amigos, disparo a pergunta assim-sem-mais-nem-menos, sem qualquer expectativa, como quem não quer nada, Quem já teve uma briga de rua?
            A resposta do primeiro veio imediata, Dei umas porradas num colega de turma, e quando pensei que iria ser punido por isso, minha atitude recebeu aprovação generalizada, só porque eu era considerado bom aluno, e nem bom aluno eu era! Saí envergonhado do episódio.
            Na primeira chance o segundo amigo emendou, Um vez dei um soco na cara de um menino que ele caiu desconjuntado e eu saí cantando de galo! No dia seguinte ele me pegou desprevenido, me deu uma porrada no olho direito, deixou aquele roxo enorme tomando metade da cara, e passei toda a semana sendo gozado na escola, porque tinha apanhado.
            Chegou a vez de contar minha façanha (e esta foi a razão da pergunta assim-sem-mais-nem-menos-como-quem-não-quer-nada no início do almoço...). Foi com um menino que morava em frente a nossa casa, da mesma idade que eu, um pouco mais alto (todos eram mais altos), colega de turma na escola primária, ambos com 7 anos de idade. Não faço a menor ideia da razão da tal briga, mas me lembro bem que num golpe de sorte derrubei-o ao chão e o calçamento de paralelepípedo fez o resto do serviço: abriu-lhe a testa. Sangrando, entrou chorando para casa. Eu, vitorioso.
            Na hora do frege, não pude me lembrar de um detalhe importantíssimo, o de que o pai do menino era Juiz! Na época, eu não sabia bem o que significava de ser um Juiz, mas pensava que era o homem que mandava prender as pessoas. Pelo menos, em casa falava-se dele com respeito. Passei o resto da tarde apreensivo, até que no início da noite toca a campainha, meu pai foi atender, era o Juiz! Tremendo de medo, ouvi a conversa atrás da porta.
            O Juiz nem sequer foi convidado a entrar, a conversa deu-se ali mesmo, à porta da frente. O homem falou falou falou, protestou até não poder mais, ameaçou meu pai, disse outras tantas coisas das quais não me lembro (em mim só cabia o medo de ser preso), esbravejou esbravejou esbravejou.  Meu pai permanecia em silêncio, nem uma única palavra, enquanto o magistrado despejava toda sua indignação.
    Não tem jeito, vou ser preso mesmo, pensei.
            Às tantas, parece que o homem se cansou, fez uma pausa, era a chance que meu pai parecia esperar:
            – Foi só uma briga entre meninos.
            Fechou a porta em seguida, e nunca mais se falou do assunto.