Uma confusão cotidiana: de tanto representar Otelo no teatro, confundiu realidade com fantasia: matou sua Efigênia!
quinta-feira, 29 de março de 2012
Convicção
Quando chegou tarde da noite, encontrou as portas trancadas, fechaduras trocadas. Ninguém atendeu a campainha. Voltou para a casa do amante.
Questão de justiça
Desejavam muito um filho. A criança nasceu, morreu com um ano, de meningite. Nova gravidez, nasceram gêmeos: Deus errou mas pediu desculpas.
Concretude
Ela não saía do shopping. Diante de sua incapacidade de amar, resolveu abrir uma loja de conveniências.
Luta pela morte
Ganhava a vida como dublê de cinema, nas cenas mais perigosas. Num belo dia de primavera não foi trabalhar. Morreu de verdade.
C de Clareira
Da série Abecedário Pessoal
A palavra mais bonita da língua portuguesa não é saudade, é clareira.
Claro está que se origina do latim clarus, e tem como derivados aclaração aclarador aclarar clara clarão clarear clareza claridade clarificação clarificar clarividência claraboia esclarecer esclarecido preclaro, findo aqui este esclarecimento.
Clara Clarice Clarisse Clarissa Clarinda são nomes de mulher - que privilégio! - com a mesma origem.
Claro é o que clareia, que alumia, que é brilhante, luminoso, resplandecente.Mas é ainda o que se distingue bem, que é penetrante, perspicaz, nítido, evidente. Quando juntamos a noção de espaço a todos esses significados, surge então a ideia de clareira. Em bosque, mata ou floresta, é o espaço onde as árvores rareiam ou faltam por completo; clarão, claro, limpo.
Se na dantesca floresta escura surge uma clareira...
Se na dantesca floresta escura surge uma clareira, posso então morrer e ali ser sepultado. Se na dantesca floresta escura surge uma clareira, posso então viver e ali ser coroado.
Clareira é lugar de descanso. Lugar de relva macia onde a luz do sol penetra livremente e alimenta as flores-do-campo regadas por um riacho de águas claras. Clareira é lugar de matar a sede.
Clareira não rima com poesia porque não precisa: é a poesia. Se o viajante, depois de árdua caminhada, encontra uma clareira, e se ele carrega na mochila um livro de poemas, ele se deita na macia relva, ao som do riacho, e lê:
caminhada
floresta escura
uma clareira - você
Se o viajante, depois de árdua caminhada, encontra uma clareira, e se ele carrega na mochila um livro de orações do santo Bandeira, ele se deita na macia relva, ao som do riacho, e lê:
“Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
de feição.
Estes mares, estes ares
clareai.”
Clareira é o espaço que aclara, limpo geral, e Bandeira bem que podia ter escrito:
oração do vivente
Santa Clara
clareai, mostrai-nos
uma clareira
Eis porque eu penso que clareira é a palavra mais bonita da língua portuguesa.
Psicanálise e processo criativo
Dois gênios da literatura - por quem nutro sentimento de quase veneração -, o mesmo ponto de vista sobre a psicanálise, exposto de forma enfática e definitiva, e a minha mais profunda discordância deles, nesse aspecto. Quem sou eu para discordar destes gigantes?, é a interrogação que de imediato me vem à mente. Mas outras ideias afloram em seguida, outras possibilidades, resultado não de conhecimento teórico ou de leituras e especulações filosóficas, e sim de aprendizado adquirido a partir da experiência pessoal de ser analisado.
Gosto de pensar que aquilo que o processo de análise pode nos proporcionar de melhor é uma vida mais confortável. Podemos supor que o escritor retire de seu mais profundo desconforto perante a vida a matéria bruta para sua escrita criativa. Remover, portanto, este desconforto seria o mesmo que secar a fonte da criatividade? Tal receio, por hipótese (mesmo que de origem inconsciente), não pode ser afastado; esta ideia há muito tem sido ventilada por analistas e não analistas, ao discutirem a conveniência ou não conveniência de escritores criativos, ou artistas de um modo geral, submeterem-se à psicanálise.
Eis a questão apresentada de outra maneira: é preciso viver desconfortavelmente para que se possa manter vivo o processo criativo? (A esta altura, o leitor há de ter percebido que evito as palavras “felicidade” e “infelicidade”, demasiadamente gastas para exprimir certos estados de espírito, substituindo-as por “conforto” e “desconforto”, estas mais modestas, mais comedidas, mais realistas.) Este é o preço que se tem de pagar para preservar a capacidade criativa? Não será um preço alto demais? Bem, cada um sabe de si, do ônus e do bônus, dos custos e dos benefícios.
No entanto, podemos perguntar ainda: se removido, pelo menos em parte, o desconforto de que estamos tratando, por intermédio de uma análise bem sucedida, será possível manter e até mesmo desenvolver, aprimorar mesmo, a capacidade de criar? Por que não? De que tem medo o escritor criativo? De que tem medo até mesmo o analista que se deixa contaminar por tais idéias? O que haveria de tão poderoso na psicanálise que poderia apagar o que de melhor tem uma pessoa? De fato, há aqueles que pensam que não vale a pena correr riscos, como se o risco de algo melhor também não fosse uma possibilidade. Risco, para eles, significa sempre e apenas o pior, o negativo, a ameaça, o perigo de morte. É verdade que corremos riscos desde que nascemos. Nossas mães não nos deixaram aprisionados em um quarto escuro para que não corrêssemos qualquer tipo de perigo. Pois, em um sentido mais amplo no modo de pensar a vida, risco apresenta também a possibilidade de uma experiência nova, criativa, positiva, que proporcione crescimento psíquico, algo, portanto, inerente ao processo de se estar vivo.
Não faltam exemplos como o de Georges Bataille (1897-1962), que de aspirante a escritor passou à condição de autor consagrado, após ter sido aconselhado por seu analista a registrar suas fantasias sexuais e obsessões de infância. Ao se referir ao papel libertador da análise, Bataille afirma: “O primeiro livro que escrevi só pude escrevê-lo depois da psicanálise, sim, ao sair dela. E julgo poder dizer que só liberto dessa maneira pude começar a escrever.” (História do olho, Cosac & Naify, 2003).
Não penso que esta seja uma visão exageradamente otimista, mas a ótica de quem deseja viver plenamente suas possibilidades e desenvolver seu potencial como ser humano. Uma análise bem sucedida pode nos proporcionar tal experiência, e com ela o risco de vivermos mais confortavelmente, sem perdermos nossa capacidade de criar. A existência de incontáveis psicanalistas bons escritores, sobretudo aqueles que se dedicam à escrita ficcional, pode ser considerada uma evidência do que aqui exponho.
Pura ficção: que tal pensarmos Kafka e Saramago, ainda vivos, mais felizes e de bem com a vida, e escrevendo ainda melhor! Para nosso deleite, é claro.
Traição
Caminhoneiro, soube que sua mulher havia fugido com seu melhor amigo. Escreveu no para-choque do caminhão: perdoar é fácil, difícil é esquecer.
Ausência
A saudade era tamanha que ele saiu para comprar cigarros no bar da esquina e nunca mais voltou. Perdeu-se no passado.
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