domingo, 5 de abril de 2020

As irmãs Makioka




Termino a leitura de As irmãs Makioka, de Jun‘Ichiro Tanizaki (Estação Liberdade, 2019). Como o livro contém 742 páginas, e não é barato, passou-me célere pela mente uma nuvem de tristeza, só de pensar que muito poucas pessoas haverão de lê-lo, sem saber o que estarão perdendo.
            Passada a tal nuvem, retorna meu estado de espírito de esfuziante alegria, por ter lido a obra aos 73 anos de idade, em plena lucidez – sou grato à Vida por isso!
            Trata-se de um romance, parece que o único escrito pelo autor, que descreve a saga das quatro irmãs Makioka. A mais velha é casada e tem vários filhos que nunca entram na história, embora o marido seja muito atuante; a segunda também é casada, tem uma filha pequena, menina inteligente, e o marido é igualmente decisivo; a terceira, aos 35 ainda permanece solteira, e precisa casar para que a quarta irmã, a koisan (irmã caçula) possa casar. (Koisan é bem da pá virada...) Aí está o resumo da história, que vai do início do século XX até a metade da Segunda Guerra Mundial. 
            O que interessa mesmo é a literatura de altíssimo nível, a despeito de se tratar de uma tradução. (São quatro os tradutores: Leiko Gotoda, Kanami Hirai, Neide Nagae e Elisa Atsuko Tashiro, merecedores de aplausos pelo esforço hercúleo, imagino.) A leitura é agradabilíssima, mágica mesmo, pois embora nada aconteça de extraordinário, prende o leitor até a última página. Aos interessados, já postei trecho do livro, sob o título “Vagalumes”, aqui no blog:
 http://loucoporcachorros.blogspot.com/2020/03/vagalumes.html
            Minto, vez em quando acontece um tsunami de montanha, um tufão, uma doença grave em uma das irmãs, a morte de certo pretendente, mas logo a vida volta ao normal, serena e pacífica, em “ritmo milenar”, se é que existe tal expressão.
            A contínua citação de restaurantes japoneses e as respectivas comidas típicas é de dar água na boca! 
            Jun’Ichiro Tanizaki (1886-1965), nascido em Tóquio, foi um magistral contador de histórias! Inicio a crônica falando de minha alegria ao ler o livro, mas bate uma certa tristeza ao terminar a leitura, uma certa melancolia. Quem ainda não sentiu isso diante de um bom livro?
            

ensina-me


oh! gigante misterioso
não conhecerei todos teus segredos
tens o poder e a fúria dos deuses
a simplicidade do Deus único, a eternidade 
ensina-me a lidar com os ciclos
com a Lua e o magnetismo
oh! universo submerso
mostra-me que o acaso não importa
revela-me tua humildade 
que também segues leis
e sabes ser pequeno
afasta meus medos e dúvidas 
dá-me a coragem dos navegadores
oh! imenso deserto de sal
fonte preciosa de ar e vida
tantos morreram de sede em tuas águas
muitos ainda viverão do teu sopro
dá-me a calma dos pescadores
ajuda-me a aceitar o vazio
cura-me da ambição de ser eterno


                                                                  
Moisés Lobo Furtado (01/04/2020)


Com enorme prazer, este blog apresenta o agora poeta Moisés, conhecido até então como exímio microcontista! Pois ele também é poeta! 

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Moisés afiado!


Má vontade

– Queria ser você, para poder ser e conhecer tudo.
– Queria ser você, para ainda querer tanto.



Má companhia

– Por que não aproveita para conhecer um lugar bem legal?
– Porque quem vai estar lá sou eu.



Aposentado

A quarentena estava lhe atrapalhando. Não conseguia mais ficar sozinho em casa.



Avô em pandemia

Gostava de sentir a preocupação dos filhos e netos, mas o silêncio em casa era ainda melhor. 


                          Moisés Tito Lobo Furtado,
                          para a honra deste blog.

Ipanema em tempo de Apocalipse

A foto do dia


Que desperdício de felicidade!

Hora chegando

Charge do dia
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Laerte Coutinho

segunda-feira, 30 de março de 2020

O livro

Meus quadros favoritos


John Lyman
Pintor canadense (1866-1967)


eis a melhor receita
para suportar com alegria
o isolamento social

Gigante!

A foto do dia
dedicada a Paula Vianna



Nature

Depois que a quarentena acabar


...
– O que você vai fazer quando a quarentena acabar?
– Mando rezar missa pela alma dos mortos.
– E você, o que vai fazer?
– Vou passar dez dias em Paris.
– E você?
– Vou visitar uma tia que mora em Floriano, no Piauí.
– Bem, agora só falta você.
– Caio na esbórnia!
...

domingo, 29 de março de 2020

Coronavírus e a Igreja



Papa reza na Praça São Pedro vazia
Foto: Reuters/Guglielmo Mangiapane


A atitude do Papa Francisco de rezar missa em plena solidão de uma Praça São Pedro deserta, no Vaticano, em melancólica tarde chuvosa, me pareceu exemplar. “Senhor, não nos abandone”, implorou o pontífice.
            Nada de aglomerações, prescreve a Ciência. O Papa obedeceu, e mais que isso, revelou ao mundo que se dobrava às recomendações da Ciência, em rara comunhão de ideias entre Religião e Ciência. O mundo precisa disso nesse momento difícil por que passamos. Nunca dependemos tanto da Ciência e dos cientistas, dos pesquisadores e agentes de saúde que trabalham sem cessar em busca de soluções diante de inimigo poderoso.
            Que a missa vazia possa servir de exemplo para outras tantas religiões e seitas tão populares em nosso país, que teimam em realizar cultos em salões repletos de gente, em franca desobediência às recomendações da Organização Mundial da Saúde. O fundamentalismo religioso ignora a Ciência e prefere crer em milagres. Fora Satanás e seu vírus maldito, vociferam alguns pastores mais exaltados! Ou ainda, Nesta Casa do Senhor este vírus não entra! 
            Aqueles que preferem acreditar em fantasias infantis, tomados desde sempre pelo pensamento mágico, acreditam piamente no que dizem os pastores... e adoecem. O dízimo, porém, foi pago.
            Uma palavra para os que creem: Jesus Cristo exortou a vigiar e orar (Marcos 14:38): “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca”. Ensinou também onde orar (Mateus 6:6): “Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai, que vê o que está oculto; e teu Pai, que vê o que está oculto, te recompensará”. 
            A missa vazia de Francisco pode ser vista como alguém que ora em seu próprio quarto, em silêncio.
            A comunhão entre Ciência e Religião mostrada pela Igreja nesse episódio me parece um avanço no chamado processo civilizatório, quando fé e razão caminham juntas, pacificamente. Um outro fato, no entanto, ocorrido quase ao mesmo tempo, revela quão difícil é libertar-se do pensamento mágico como tábua de salvação para as angústias, temores e sofrimentos humanos. 
Na véspera da citada missa (26 mar 2010) a Itália foi palco de ato religioso contra a pandemia, quando certo crucifixo de mais de 500 anos, tido como milagroso, foi levado de uma igreja em Roma para a Praça de São Pedro, para uma oração especial conduzida pelo mesmo Papa Francisco. Em 1522, o crucifixo foi carregado pelas ruas de Roma, também  num pedido pelo fim de uma grande peste que assolava o país.  
Eis que a fé supera a razão, no retorno do pensamento mágico. Aflora a clara manifestação da infância da humanidade, a demonstrar quanto ainda nos falta caminhar em direção do predomínio da razão. Mas é preciso mesmo ter paciência para com a humanidade.