Gostava de História, mas já não se importava com as datas. Na velhice, para ele o Tempo perdera sua importância.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020
Moisés 4 por 4
O Louco por cachorros vai apresentando os microcontos do Moisés em conta-gotas, com muita honra. Mais 4:
Esperto ao contrário
Era tão sagaz, que não conseguia perceber o que realmente importava.
Visita boa
– Venha de UBER. Vai que anoitece.
Amém
– Senhor, que na próxima vez que eu olhe nesse espelho eu já não esteja pensando nisso.
Deixa pra próxima
Procurou tanto o sentido da vida, que não viveu.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2020
simplicidade
a simplicidade linda
do branco mais branco
do branco mais branco
na flor do jasmim
Foto: AVianna, jan 2020
iPhone 11 Pro Max
Meu pai fugiu com minha mãe
Meu pai fugiu com minha mãe
depois de a espreitar por dez anos.
– dez anos de inquietação dela
– dez anos de paciência e audácia dele.
Recados escritos com sangue
e sinais pela janela.
Ele no quartel
ela na casa do pai
contida.
Amava-se assim naquele tempo.
Fugia-se
e pensava-se que o amor seria eterno.
Affonso Romano de San’Anna
A vida é um escândalo, Ed. Rocco, 2017.
Filósofo Gilles Lipovetsky
O pensador e escritor francês Gilles Lipovetsky,
na sede do Instituto Cervantes em Paris. LÉA CRESPI
O filósofo Gilles Lipovetsky dá entrevista a El País (3 fev 2020): “Nem tudo pode ser discutível. O professor tem de recuperar a autoridade”. (Reportagem de Borja Hermoso.) Seleciono apenas dois ou três temas, que considero mais importantes, mas vale a pena ler toda a entrevista.
“R. Antes, as pessoas não queriam comprar o mais recente modelo de tablet ou smartphone o tempo todo, nem queriam sair de férias para todos os lugares possíveis, ou tomar um avião todo fim de semana, ou morar em um apartamento maravilhoso, ou ir a um restaurante dia sim e dia não... Simplesmente não se vivia assim. Fui a um restaurante pela primeira vez quando tinha 25 anos. Agora, crianças com oito anos vão com frequência ao McDonald's. Então, por um lado, temos uma sociedade na qual as desigualdades crescem sem parar, mas, por outro, temos um volume de aspirações que também não param. É, mais do que o bem-estar, o sonho do bem-estar. As marcas de luxo! Antes nem se pensava nisso. Hoje, qualquer pessoa em um bairro popular pode usar uma Nike de 125 euros. E todos os jovens sabem o que é Louis Vuitton, Hermès, Gucci... Só vivem para as marcas! Não querem sapatos, querem uma marca de sapatos.”
“R. É necessária uma economia liberal, porque é a única via possível para a iniciativa e a eficiência. Mas, ao mesmo tempo, é preciso ajudar as pessoas porque, do contrário, caminhamos para uma situação explosiva. A melhor solução é o que já fazem em certos países escandinavos, o que chamam de "flexisegurança". Uma economia flexível, em que as pessoas possam ser demitidas se for necessário, mas na qual existam ao mesmo tempo programas de treinamento e reciclagem de habilidades, e não um simples sistema de assistência social. Quando alguém é demitido, recebe os meios para se reciclar. Assim, pelo menos, não terá a sensação de que a sociedade o abandonou. E, em segundo lugar, é preciso investir em educação, em inteligência e em criação.”
“R. A escola pública não é uma despesa, é um investimento para o futuro. É preciso pagar bem aos professores e ensinar o aluno a respeitá-los. Não sou eu quem diz isso, hein. Platão já dizia. Se acreditamos que computadores e tablets resolverão todos os problemas, estamos em um erro grave. O professor é imprescindível. E é preciso formar os jovens de modo que sejam mais adaptáveis, com menos medo de mudar. Assim, haverá menos frustração. E muito importante: é preciso dar muito mais importância à arte e à cultura. Caso contrário, só nos restará o shopping!”
"R. Uma sociedade cujos eixos exclusivos são as telas, o trabalho e a proteção social é uma sociedade deprimente. É preciso investir em educação. E as possibilidades de investimento em assuntos educacionais são infinitas. Um dos maiores fracassos nas sociedades ocidentais do pós-guerra foi a "democratização da cultura". Pensou-se que, ao abrir muitos museus por muitas horas e com grandes obras, graças ao dinheiro do Estado, muita gente nova se juntaria às visitas, mas não foi assim. Quando se presta atenção, ao longo do tempo as pessoas que vão aos museus são as mesmas de sempre: gente de um certo nível educacional. Os camponeses e os operários da construção em geral vão pouco. É uma questão de educação.”
“P. O senhor escreveu contra o fato de que os pais eduquem seus filhos com luvas de pelica. O que queria dizer exatamente?” [Pergunta]
"R. É um erro imenso. É indispensável que o professor recupere a autoridade. Há alunos que insultam o professor, e isso é inadmissível. Educar não é seduzir. Há obrigações. Em um dado momento, é preciso obrigar a fazer coisas. Nem tudo pode ser flexível, agradável, discutível. É preciso trabalhar duro, e forçar a trabalhar. O homem é Homo faber, é preciso ensinar a fazer. E é preciso recuperar a retórica, ensinar as crianças a se expressarem e a raciocinar, porque o computador não vai fazer isso por eles. O homem é Homo loquens, o ser que fala.”
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
Reconhecimento facial
“Se aprendi alguma coisa em 30 anos frequentando cadeias, foi a reconhecer marginais. Podem disfarçar os modos, o jeito de andar, o palavreado, os gestos, mas o olhar os trai. Anos atrás, quando vi pela primeira vez na TV o cidadão que se intitulava João de Deus, não hesitei em dizer para minha mulher, ao lado: é bandido.”
Interrompo aqui a excelente crônica de Drauzio Varella para a Folha de S. Paulo, intitulada João 171, de ontem (2.fev.2020), para relatar inusitada experiência pessoal, que adianto, verídica.
(O aluno cursava o último ano de Medicina e fazia estágio na Cirurgia Geral, Serviço sob minha responsabilidade. Desapareceu por uma semana, sem que qualquer colega soubesse seu paradeiro. Apareceu numa segunda-feira. Chamei-o para conversar e me pediu que o fizéssemos em sala reservada. Contou-me a seguinte história.
– Professor, no fim de semana passado fui a Goiânia [cidade a 200 km de Brasília, para os que não conhecem o Planalto Central]. No meio da viagem dei carona a uma mulher, que depois percebi tratar-se de uma prostituta. Mas a viagem transcorreu sem problemas. Ao chegar em Goiânia fui parado pela polícia, pediram meus documentos, perguntaram quem era a minha acompanhante, expliquei ser apenas uma carona, revistaram a bolsa da mulher... e imagine o senhor, encontraram cocaína na bolsa dela! Fomos todos para a delegacia. Não sei o porquê, não acreditaram na história da carona, de modo que fui tratado como traficante. Permaneci detido por uma semana, enquanto faziam as devidas averiguações. Foi horrível, Professor. Só ontem fui liberado, de modo que não pude comparecer ao Serviço durante toda a semana.
Confesso que fiquei pasmo diante do que acabara de ouvir, mas acima de tudo, extremamente penalizado com o sofrimento imposto ao rapaz pela polícia truculenta. Procurei consolá-lo, que tivesse mais cuidado durante as viagens, que voltasse ao trabalho pois suas faltas seriam relevadas. Nos despedimos com caloroso aperto de mãos.
A segunda surpresa veio logo a seguir, quando ao deixar a sala, dois ou três colegas me esperavam para conversar sobre o tal aluno. Me informaram que viram a matéria no jornal da manhã na TV local: o aluno foi pego em flagrante em Goiânia, fazendo vestibular para Medicina para outra pessoa; o impostor foi preso, mantido atrás das grades durante toda a semana, e só então liberado.
Agora a segunda confissão: não fiquei pasmo, fiquei estarrecido, com minha ingenuidade e incompetência para identificar um salafrário, depois de mais de 30 anos como professor universitário.
O aluno foi encaminhado ao Serviço Jurídico da Universidade.)
Voltemos a Drauzio Varella e sua perspicácia para identificar um bandido. Ele afirma que os olhos acabam por entregar o malfeitor. “O tal João que apregoava incorporar o espírito de um médico do além-túmulo, que lhe trazia a capacidade de curar enfermos, tinha o olhar em desencontro com a expressão piedosa que a fisionomia se esforçava para transmitir, fugidio, arisco, incapaz de se fixar nos olhos da repórter que o entrevistava.”
“No auge da fama, o número de visitantes chegou a 2.000 por dia [a Abadiânia, Goiás]. Oncologista a vida inteira, vi surgirem vários tipos como esse, curandeiros que apregoavam trazer a saúde de volta aos desenganados, graças à intervenção de entidades extraterrenas que reencarnavam em seus corpos bem aventurados. Com a esperteza para enganar tanta gente por tanto tempo como esse tal João, entretanto, não soube de outro.”
Prossegue Varella: “Como é inevitável na carreira dos meliantes, no entanto, um dia a casa caiu. O jornalista Pedro Bial entrevistou mulheres que afirmavam ter sido molestadas pelo espertalhão. A essas delações se juntaram centenas de outras. O ex-emissário de Deus não passava de um homem desprezível que se valia de sua posição para atacar mulheres fragilizadas por tragédias pessoais e dramas familiares. A credulidade, entretanto, é tão irracional que ainda há quem defenda separar o joio do trigo: de um lado, o homem e as fraquezas da carne, de outro, os poderes transcendentais das entidades que ele garantia encarnar. Depois de condenado a mais de 50 anos de cadeia por pequena parte de seus crimes, há devotas que teimam em visitar a hoje decadente Abadiânia, na esperança de captar eflúvios energéticos remanescentes nas instalações em que o vigarista as abençoava.”
Captar a “energia”, como se diz por aí. Que energia é essa?
Varella conclui dizendo que compreende que pessoas simplórias e de boa fé sejam ludibriadas; o que ele não compreende é que pessoas que tiveram o privilégio de estudar em boas escolas possam “crer em milagres”, em “curas mirabolantes” e em “personagens tão bizarros quanto esse senhor”.
De minha parte, aprendo sempre com Drauzio Varella. Aprecio forma e conteúdo de seus textos, apoiados em vastíssima experiência pessoal e grande capacidade de observação. Quanto a este último quesito, não tenho do que me vangloriar: não reconheço um bandido a meio metro de distância.
A meu favor, a voz de Shakespeare: "Não existe arte que ensine a ler no rosto as feições da alma" (MacBeth, ato I, cena IV).
A meu favor, a voz de Shakespeare: "Não existe arte que ensine a ler no rosto as feições da alma" (MacBeth, ato I, cena IV).
sábado, 1 de fevereiro de 2020
Dedicar-me às pequenas coisas
Dedicar-me às pequenas coisas
que as grandes
– me escaparam sempre.
Mas as íntimas
me esperam complacentes.
O que ficou guardado na memória
isto me pertence.
O resto
foi destruído pelas hordas de Gengis Khan.
Affonso Romano de Sant'Anna
Jade vermelha
fulgura escondida
pequeno sol no jardim
a jade vermelha
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Foto: Avianna, jan 2020
Nikon D7200.
morre a grande árvore
pavoroso estrondo
tomba a grande árvore
pessoas morrem
cães morrem
árvores morrem
ainda que mais brando
vivo este luto
arrancada pela raiz
brutalmente
morre a grande árvore
a serra elétrica lhe despedaça o corpo
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