quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Pomar de palavras


A deliciosa crônica de hoje  (21.fev.2019) Sobre laranjas e bananasde Sérgio Rodrigues fala do “pomar de palavras” da língua portuguesa no Brasil. Ou uma salada de frutas, se o leitor assim o preferir.
            A fruta do momento é a laranja, presente no dia de ontem no Congresso Nacional, distribuída por um certo partido político aos parlamentares e visitantes presentes! 
            Afirma Rodrigues que “na primeira metade do século 20, "laranja" já aparecia em registros escritos na acepção hoje um tanto esquecida de "pessoa ingênua, bocó". A mesma que nas últimas décadas evoluiu para a de "indivíduo que, ingenuamente ou não, tem seu nome usado em fraudes financeiras". Se os primeiros laranjas eram simplesmente otários, os atuais são agentes ativos das fraudes, espertos que visam lucro fácil, emprestando apenas o nome e cpf. 
O sentido da palavra "laranja" não é muito diferente de "banana". Desde a primeira metade do século 18 significa "indivíduo covarde" e por extensão, "pessoa fraca, sem iniciativa". É possível que a forma e consistência da fruta sejam responsáveis pela acepção depreciativa. (Penso que os laranjas de hoje não são nada bananas...)
Outra fruta bastante utilizada nessa nossa salada é o "abacaxi", que ainda segundo o autor da crônica “tornou-se em algum momento do século passado um símbolo de trabalho difícil, problema grave ou situação intrincada”. O aspecto agressivo da fruta, áspero espinhento rude, que machuca a mão, aliado à dificuldade para descascá-la,  parecem ser os responsáveis pelo novo significado.
Já o mamão pode sugerir um duplo sentido. Pode indicar pessoa imbecil, palerma, lelé da cuca, pancada,  mas também o sentido de "tarefa de fácil execução, moleza", “forma reduzida da expressão metafórica "mamão com açúcar". 
A palavra “uva”, sabe-se lá por quê, indica "mulher muito bonita".  Penso que menos pelo aspecto da fruta que pela sua doçura e consistência na boca, de preferência sem semente.
            Rodrigues não inclui em sua crônica certas frutas que mais recentemente passaram a ser identificadas com determinadas partes do corpo humano, em particular o corpo feminino, como mulher-pera, mulher-melancia, cujas similitudes dispensam comentários.
             A simples colocação de um adjetivo acoplado à fruta muda completamente seu sentido; é o caso da maçã-podre, capaz de estragar toda uma caixa ou cesta de maçãs. Fazer do limão uma limonada é artifício análogo e muito elegante.
            Enfim, infindável é este "pomar de palavras". É preciso encontrar um bom uso para o “gold kiwi”, fruta saborosíssima, delicada, bonita, e muito cara. Talvez uma linda adolescente mimada possa ser comparada ao gold kiwi. Este blog aceita sugestões.





segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Vínculo de irmãos




Dois leões machos adultos, provavelmente irmãos, cumprimentam-se esfregando os rostos por 30 segundos. A foto foi tirada em Ndutu, Serengeti (Tanzânia). 'Vínculo de hermanos' é a imagem vencedora do 'Wildlife Photographer of the Year 2018'.

Foto: DAVID LLOYD / NHM


https://brasil.elpais.com/brasil/2019/02/14/album/1550166704_220021.html#foto_gal_1

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Suzete escreve um microconto


Meu querido André,

mostrei a última cartinha que você me escreveu a minha colega Abigail e ela quase morreu de inveja, que nunca recebera uma carta assim, tão delicada, embora não tenha apreciado um certo palavrão, como é que pode começar falando de cachorros, passar ao amigo e terminar com microcontos, no que concordei com ela em tudo, menos no palavrão muito bem colocado diante do dentinho afiado de Lila, ai como dói, putaqueopariu! 
            Ao final da carta você me pede que escreva um microconto! Muito difícil, meu amigo, para uma simples cabeleireira. Não é de hoje que venho acompanhando esta sua predileção pelo gênero e penso que preciso desenvolver capacidade de síntese para escrevê-los, o que não é fácil diante das conversas de salão de beleza, onde as pessoas falam falam falam até secar a garganta, para não dizer nada. Parece que o bom microconto é aquele que dá um recado.
            Em seu livro minimalismosvocê escreveu aquele que achei um belo microconto, na forma e conteúdo:

“Esperava pelo irmão como quem espera pelo Messias. Ao chegar, viu que o irmão era de carne-e-osso. Amou-o ainda mais.”

            Acho que não consigo fazer nada parecido, André. Mas estou tentando, e de tanto tentar, saiu-me isso:

Diante da desilusão amorosa, Sansão pediu-me que lhe raspasse a cabeça. Foi perdendo forças, definhando, até morrer. 

            E você acha que podia sair outra coisa do bestunto de uma cabeleireira que só corta cabelo de homem? Diga-me, sinceramente, posso continuar tentando?
            Pelo que você tem escrito no blog, a visita de seu amigo Sergio foi um sucesso. Agora sou eu quem fica com inveja. Amizade dessas não tem preço. Pois vou lhe contar o sucedido recentemente comigo. 
            Há 8 meses e meio apareceu por aqui uma tal de Mara, vinda de Santa Catarina (em toda a minha vida eu nunca havia conhecido ninguém de Santa Catarina), toda branquinha que nem leite, quase transparente, fala mansa de gente educada, pegou a cadeira ao lado da minha, mas só cortava cabelo de mulher. Foi se chegando, ficou minha amiga, nos fins de semana não saía lá de casa, elogiava minha comida, gostava dos meus livros, e acho que foi isso que acabou por me cativar, gostar dos meus livros. Também eu me apeguei. 
            André, não vale a pena encompridar essa história patética (é a primeira vez que uso a palavra patética). Certo dia Mara me disse que precisava visitar a mãe doente em Santa Catarina (já viu desculpa mais esfarrapada?), pediu-me dinheiro emprestado para a viagem, nunca mais deu notícia. Acabou-se a amizade, acabou-se a patética história. 
            Eram todas as minhas economias, acredita? Foi o que me deixou putadavida, não senti a perda da amizade porque não era mesmo amizade, não me senti ludibriada porque não fiz nada de errado, nem boba me senti porque continuo acreditando nas pessoas e é possível que volte a cair num golpe desses, mas perder meu dinheirinho ganho honestamente cortando cabelo de homem – e alguns são muito chatos –, aí não, isso eu não me conformo. 
            Estava juntando dinheiro para visitar Nova Iorque. Agora não dá nem pra ir a Aparecida do Norte, a pé, e lá não vou mesmo, ateia degenerada (não foi assim que seu irmão chamou você?, degenerado?) que sou, que se creditasse em promessa fazia uma para Santo Expedito, o das causas perdidas, para ter meu dinheirinho de volta.
            Portanto, de volta ao salão, isso sim. Haja cabelo de homem.
            Termino por aqui, meio chateada com esta resposta tão sem graça desenxabida insossa insípida inodora, longe da graça com que me escreveu. Paciência. A próxima será mais inspirada.
            Beijo da sempre sua

                                                           Suzete.
            

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Suzete conhece o Anjo Exterminador


Querida Suzete,

tempos estranhos esses que estamos vivendo. Tragédias e mais tragédias, mortes e mais mortes, de repente perdemos o homem que nos traduzia os acontecimentos cotidianos de forma lúcida e corajosa, e o país acorda de luto nesta terça-feira 12 de fevereiro, uma tristeza sem fim. Ficou difícil pensar.
            Depois de ler quatro ou cinco jornais e percorrer o Twitter de ponta a ponta, o sentimento é de desalento, de desesperança. Então bateu a vontade de escrever para você, minha amiga.
            Há um animal novo aqui em casa. Como o irmão mais velho se chama Costela, botei-lhe o nome de Bisteca. Não pegou, ninguém gostou, lindo animalzinho da raça dachshund, ou linguicinha, ou Cofap, com nome tão vulgar. Passou a chamar-se Lila, inspiração oriunda de uma certa série da tv, A amiga genial. Todo mundo gostou. Com o passar dos dias, agora com 3 Kg e uma voracidade infernal, tem sido chamada de Anjo Exterminador, Capeta, Cão Chupando Manga, Dragão de Komodo, e até Filha-da-Puta, quando prega os caninos em meu pé.
            O prazer de Lila é infernizar a vida dos outros quatro cães daqui de casa, morder a orelha das duas pequenas e o rabo das grandes. Vamos ver se melhora com a idade e um pouco de juízo. Mas ela é linda!
            Não sei o que seria desta casa sem a presença dos cães. Seria um ermo triste cheio de silêncio. Sabe, Suzete, os que já se foram – Dora, Berta, Lenda, Camões, Lola – permanecem todos presentes, enchendo a casa de lembranças doces, do amor que nos legaram.
            Enveredei por este assunto canino para lhe contar que esteve conosco nesse fim de semana o meu amigo Sergio Pripas, de São Carlos – a Capital do Mundo! 
Falávamos de cães, naturalmente, dos diferentes temperamentos de cada raça, Sergio teve um dogue alemão arlequim, lindíssimo, eu tive um rottwailer imenso chamado Zenon, falávamos das diferentes personalidades desses animais, de como se relacionam com seus donos, (e o Anjo Exterminador mordendo nossos pés debaixo da mesa da cozinha, Ôôô Raça-Ruim!), até que lhe apresentei o gold kiwi, que ele não conhecia, embora seja grande conhecedor de plantas, flores, frutos, bichos e muito mais. Ele gostou, impossível não gostar de um gold kiwi, e ficamos dissecando o complexo sabor da fruta, um tanto do kiwi comum, o verdinho, um toque de laranja, de limão, textura de mamão, sabor elegante, até que meu amigo saiu-se com a antológica frase, que por si só constitui um excelente microconto:

Gold kiwi é cachorro.

            Portanto, Suzete, aqui estão os três grandes microcontos da Literatura Universal:
1 - O Dinossauro, de Augusto Monterroso: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”
2 - Manoel de Barros: “Ovo de lobisomem não tem gema” (que só eu classifico como microconto; para o autor, um verso apenas).
3 - Agora, Sergio Pripas: “Gold kiwi é cachorro.” Para a glória eterna, como o terceiro melhor microconto de todos os tempos!

Suzete, nunca recebi um microconto seu. Quem sabe na próxima carta? 
            Bem, termina aqui o lero-lero sobre cães e afins. Termina também esta cartinha, que já me deixa mais animado para enfrentar o dia-a-dia deste país tropical “abençoado por Deus e bonito por natureza”...
            Do amigo de sempre,

                                                           andré

            

Grande perda

A foto do dia


Morre Ricardo Boechat

Gold kiwi é cachorro




– Os cachorros, cada raça um temperamento.
– É mesmo, cada um cada um.
– Este gold kiwi tem diversos sabores.
– Gold kiwi é cachorro.



(Microconto em parceria com Sergio Pripas, autor da última frase, que por si só constitui um microconto autônomo.)

Poema


A poesia está guardada nas palavras - é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.
        
         Manoel de Barros
In Tratado geral das grandezas do ínfimo