sábado, 17 de novembro de 2018

David Hockney



Retrato de um artista
(Piscina com duas figuras)
(1972)

Quadro recém leiloado em Nova Iorque por R$ 342 milhões.
David Hockney (1937) é artista britânico.


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Futebol bruto




Escrevo poucas horas depois da brilhante vitória do Palmeiras sobre o Fluminense pelo elegante placar de 3 a 0, com direito a gol de placa de Felipe Melo.
            Não é um torcedor do Internacional, do Flamengo, do São Paulo ou do desvalido Corinthians, ameaçado de rebaixamento, quem escreve, e que poderia ser acusado de ressentimento, mágoa, inveja ou outros sentimentos do mesmo naipe, pela provável perda do Campeonato Brasileiro de 2018 para o Palmeiras. É um palmeirense genuíno quem escreve, torcedor desde que se entende por gente, criança ainda vivendo no interior, muito antes da invenção da Internet. Portanto, não há qualquer sentimento pessoal negativo no que passo a registrar em seguida.
            O futebol brasileiro anda muito feio!
            Anos atrás os cronistas esportivos chamavam o futebol europeu, em particular o inglês, de futebol força. Nós tínhamos o futebol arte! Pois isso inverteu-se completamente. Dá gosto ver um Barcelona ou um Real Madri jogando. Por aqui, sobram caneladas.
            Os jogos são interrompidos a cada minuto pelas faltas (ou infrações) praticadas por jogadores de ambos os times, de modo que ao final no jogo o torcedor vê menos de 50% do tempo com a bola rolando. (A Fifa sugere no mínimo 60%.) Leva-se uma eternidade para a arrumação da barreira e cobrança de uma falta. O tempo de jogo é surrupiado, o torcedor enganado. É fraude.
            Porém, o que desejo mesmo salientar são os dois tipos de falta tão em moda no futebol de hoje no Brasil, ambas detestáveis, covardes, desumanas, repugnantes mesmo. Precisariam ser combatidas com veemência pelos árbitros, implacavelmente  com o cartão vermelho. 
A primeira delas chamo de pisão-no-pé. O jogador tem a bola nos pés e ainda não teve tempo de decidir o que fazer com ela; o adversário chega com força desmedida, com violência mesmo, e pisa-lhe o pé, crava-lhe as travas da chuteira no dorso do pé do inimigo. Esquece a bola e visa tão somente o pé do adversário. Muitas vezes a bola já nem está por perto, mas sobra o famigerado pisão. As consequências podem ser graves, como torções, rompimento de ligamentos, e até fraturas. O juiz (é assim que o árbitro era chamado no meu tempo de criança) quase sempre aplica o cartão amarelo. Só o uso do vermelho será capaz de coibir esta prática detestável tão difundida em nosso futebol. 
            A segunda falta chamo de mão-na-cara, ou cotovelo-na-cara. Em qualquer tipo de disputa, mesmo sem qualquer perigo de gol, o jogador agressor olha para a bola mas seu braço é dirigido para a face do adversário, atingindo o nariz, a boca, os olhos, o supercílio, com frequência causando algum tipo de sangramento. Muitas vezes o cotovelo é utilizado para a agressão, brutalidade pura. A palavra que se aplica ao lance é mesmo agressão. Por isso, com maior frequência é punida com expulsão. 
            Tudo isso enfeia muito o nosso futebol. Falta educação e humanidade ao jogador brasileiro de futebol.


Foto: Marcelo Fim / O Globo

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Duas recomendações a Suzete


Querida Suzete,

em falta com você porque tardam minhas respostas às suas deliciosas cartinhas, volto a lhe escrever. Passada a tormenta das eleições posso pensar melhor. Verdade que este “período de transição” não é menos tormentoso, uma notícia atrás da outra, algumas até interessantes, porém, melhor esperar para ver...
            Tenho duas coisas para lhe contar. A primeira é que tenho ouvido música como nunca ouvi em toda a minha vida. Diariamente. Bach e Beethoven são meus preferidos no momento, mas ouço de tudo, desde o barroco ao contemporâneo – sou fã de Ärvo Part! 
            Penso que os velhos (prefiro esta palavra a idosos) deveriam ouvir música todos os dias. Faz bem para os miolos, afetados pela ação do tempo. É terapêutico, para falar chique; faz bem à alma, singelamente.
            E me atrevo a oferecer uma recomendação aos velhos interessados: ouçam a mesma música várias vezes, duas, três, quatro, dez vezes; posso garantir que isso não cansa, não enjoa, é injeção na veia de entusiasmo, inunda o espírito tanto mais você ouve; talvez promova regeneração de neurônios...
            Os Noturnos de Chopin são peças ideais para este tipo de exercício. As Sonatas para Piano de Beethoven e os Quartetos para Cordas de Mozart prestam-se igualmente. Cada ouvinte haverá de buscar seus compositores preferidos. Talvez a boa música popular possa fazer o mesmo efeito. O Jazz certamente o fará. Não acredito que o funk possa trazer algum benefício. Preconceito meu?
            Querida Suzete, chamei de recomendação aos velhos porque ando preocupado com eles, ou com a velhice, melhor dizendo, por razões óbvias. Mas ela serve para todas as pessoas, do nascimento à morte, e certamente para uma especial cabeleireira como você, que só corta cabelo de homem. 
            A segunda recomendação, feita com humildade, é que escrevam haicais, moços e velhos. Os neófitos precisam informar-se sobre a história do haicai, sobre as variantes da técnica, ler alguns haicaistas brasileiros para ter uma noção da evolução deste poema japonês entre nós. Depois podem esquecer tudo isso e começar a escrever.
            É preciso um certo estado de espírito para compor um haicai. (Ontem mesmo postei no blog texto sobre interessante elemento presente com frequência no haicai, o humor. Fica a gosto do escritor.) 
            Não é preciso ser um Bashô ou um Guilherme de Almeida para compor um haicai; apenas seja você mesma, Suzete, e procure colocar seus sentimentos em três versos curtos, com ou sem rima, falando da Natureza ou não, a forma importa pouco hoje em dia. A emoção importa sempre! É preciso haver sentimento no haicai. (Um terceto não é necessariamente um haicai; um ótimo terceto será sempre um ótimo terceto, nem sempre um haicai; a intenção do autor fará a diferença.)
            Desculpe a repetição, Suzete, mas compor haicais também é terapêutico.
            Despeço-me para não cansar você com esta lenga-lenga de velho. Escreva, suas cartinhas são uma benção!
            Do amigo de sempre,
                                                           andré.
            

São Sebastião de Da Vinci

A foto do dia


Desenho de Da Vinci vai a leilão


Foto: Ed Alcock / New York Times


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Humor no Haicai


Na interessantíssima introdução de Haicais tropicais(Companhia das letras, 2018), seu organizador Rodolfo Witzig Guttilla cita Reginald Horace Blyth (1898-1964), autor inglês devotado à cultura japonesa, que teria estabelecido determinadas condições para a prática do haicai. 
            São elas: abnegação, aceitação da solidão, desprendimento, ausência do ego, acolhimento da contradição, liberdade, simplicidade, ausência de moralidade, amor pelas coisa materiais e inanimadas, coragem, e, por fim, mas não menos importante, o humor. São todos estados de espírito presentes no zen-budismo.
            Este blogueiro, aprendiz de haicaista, aprecia imensamente este traço do poema japonês, às vezes de uma sutileza incrível, outras vezes o humor rasgado, quase grosseiro. 
Apresento ao leitor alguns exemplos da presença do humor no haicai, a começar por Matsuó Bashô (1644-1694), mestre da pintura e da poesia, considerado por muitos o pai do haicai, e de quem poderíamos esperar apenas circunspecção; ele escreveu:

                                    entre pulgas e piolhos
                                    recostado no travesseiro
                                    ouvia os cavalos mijarem

Camila Jabur:             grande geada
                                   branco branco branco
                                   e uma vaca malhada

Gustavo Alberto         No dia quente
Correa Pinto:              embaixo da árvore
                                   vacas conversam

Mário Quintana:         Silenciosamente
                                   sem um cacarejo
                                   a Noite põe o ovo da Lua...

                                   No meio da ossaria
                                   Uma caveira piscava-me...
                                   (Havia um vaga-lume dentro dela.)

Paulo Franchetti:        Os grilos cantam
                                   Apenas do meu lado esquerdo –
                                   Estou ficando velho.

Ricardo Silvestrin:     fiapos de sol
                                   o cachorro se espreguiça
                                   depois fica pensando

                                   velhinha na janela
                                   todo mundo que passa
                                   é visita pra ela

André Vianna:            apenas amostra
                                   da diversa natureza
                                   flor que cheira a bosta

                                   caiu no banheiro
                                   quebrou o fêmur
                                   ganhou a liberdade

                                   não nasceu em Paris
                                   estava decretado
                                   jamais seria feliz

                                   crec crec crec
                                   com as chuvas
                                   perereca na varanda

Millôr Fernandes:       O pato, menina
       É um animal
       Com buzina

Carlos Drummond     O pintor ao meu lado 
de Andrade:               reclama:
                                   Quando serei falsificado?

                                   Gosto tanto de ir ao teatro
                                   que por amor ao teatro
                                   vê lá se vou ao teatro.

***
Espero que o leitor tenha se divertido.

E há muitos mais
basta procurar
em livros de haicais.  



domingo, 11 de novembro de 2018

4 haicais para um dia de chuva



com as chuvas
reaparecem as pererecas
música no jardim

                        ***

aguaceiro lá fora
as bachianas enchem a sala
e lavam a alma

                        ***

                 

tilintar das gotas
no galho, pia a avezinha
chuva no cerrado

                        Mercêdes Fabiana


                                       ***


                  


bananeiras
em frangalhos
vendaval




Fotos: AVianna, nov 2018, jardim

azul




faltava o azul
na paisagem
olhos de gato


Foto: Paulo Sergio Viana, n0v 2018, Lorena

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Haicai de Verão


Era o primeiro dia do verão do ano de 1700, portanto o primeiro verão de um novo século, e para glorificá-lo, Kobaiashi Takarai, nascido na província de Iga, filho de uma família de samurais, decidiu compor o mais belo haicai do mundo. 
         Naquela época o haicai ainda não se chamava haicai, forma abrasileirada muitos séculos depois, de um tipo de poema composto de três versos que Kobaiashi denominava hokku ou haiku – originário do waka, surgido no século VII –, e quando pronunciava ou apenas pensava na palavra waka, o fazia com o maior respeito, curvando-se diante do nada. 
A tradição dos haicaistas japoneses da época exigia que a Natureza fosse a única inspiração para a construção do haicai. E como era o início do verão de um século mágico, o de 1700, Kobaiashi decidiu-se pelo Verão como tema para o mais belo haicai do mundo. 
         Não tinha pressa, poderia levar todo o verão, estação de temperaturas amenas em Iga, de onde o poeta nunca saíra, concentrado em seus estudos sobre poesia e pintura, sob a orientação do mestre Kitamura Kigin (1624-1705). Aqueles que o conheciam sabiam que Kobaiashi Takarai era um homem contemplativo, desligado das coisas mundanas, ocupado apenas com a grande arte do hokku.
         Aquele verão transcorria plácido, sereno, imóvel, não havia guerra, até mesmo os samurais andavam tomados por certa indolência, na falta de guerrear. A notícia de que estava sendo composto o mais belo haicai do mundo pelo poeta Kobaiashi Takarai correu a província de ponta a ponta, de forma igualmente lenta, pois a pressa era considerada por todos a inimiga número um do japonês. (Nessa época, dizem, é que surgiu o anexim A Pressa É Inimiga Da Perfeição.) Para ser preciso nesse relato antigo, a notícia espalhou-se mesmo por todo o Império, chegando a Edo (hoje Tóquio), a grande capital, e em consequência, aos ouvidos do Imperador.
         Em Edo moravam os chamados Dez Mestres do Haicai, que por respeito a esta Arte Secular, são aqui enumerados: 
Enomoto Kikaku 
Hattori Ransetu 
Mukay Kiorai
Kagami Shikô 
Naitô Jôsô
Sugyiama Sampú 
Shida Yaha
Ochi Etsujin
Tachibana Hokushi 
e MoriKawa Kyorotu. 
Por sugestão do mestre Shida Yada, casado com uma prima em segundo grau de Kobaiashi, este foi convidado a vir morar em Edo, com a finalidade de aprimorar sua poesia e assim tornar mais bonito ainda, o mais belo haicai do mundo, ora em gestação.
         Kobaiashi deixou a distante província de Iga (no início do século XVIII tudo era muito distante no Japão) com o coração partido, pois lá deixou sua amada (inominável!), e com ela toda a sua inspiração.
         Findo o verão, no primeiro dia do Outono, Kobaiashi Takarai escreveu:
         
o Verão terminou
faltou-me inspiração 
caem as folhas do Outono

         Este foi o último haicai de Kobaiashi Takarai.
         


terça-feira, 6 de novembro de 2018

Haicais tropicais





Acaba de ser publicado com o selo da Boa Companhia (Ed. Schwarkz SA) o volume Haicais tropicais, organizado por Rodolfo Witzig Guttilla. O lançamento comemora os 110 anos da imigração japonesa para o Brasil.
            Estão representados no livro 20 poetas que de alguma forma foram relevantes para a difusão do haicai no Brasil, desde a introdução desta forma de poema entre nós por Monteiro Lobato, em 1906.
            Cito alguns: Alice Ruiz S, Aluisio Azevedo, Manoel de Barros, Mario Quintana, Paulo Mendes Campos, Sérgio Milliet, entre outros.
            Alguns exemplos:


HAI-KAI DE OUTONO

Uma folha, ai
melancolicamente
                                   cai!

                                               Mario Quintana

***

Tudo o que me ocorre
é que a morte nasce,
ama, sofre e morre.

                                               Paulo Mendes Campos

***

Silêncio das pedras
é o início
das palavras?

                                               Manoel de Barros

***

            Este blogueiro, que tanto aprecia a arte de confeccionar capas, não pode afirmar que o livrinho tenha uma capa bonita. Ao contrário, ela é horrorosa, ao procurar associar a leveza do haicai à delicadeza de uma libélula, pintada de preto.

sabiá no galho





                                          balança o galho
                                          olho atento
                                          sabiá pousado


Foto: AVianna, set 2018, jardim