quarta-feira, 30 de maio de 2018
Burrice consumada
O mestre João Pereira Coutinho emprega título agressivo para sua crônica de ontem (29.mai.2018) na Folha de S.Paulo: A inevitabilidade da burrice – Ao prometer excelência para todos, o que dizer quando essa excelência não vem?
Ele inicia com uma cena do ótimo filme "Cinema Paradiso", de Giuseppe Tornatore. O professor pergunta ao aluno: "quanto é 5 vezes 5”, e a resposta vem errada. O professor bate a cabeça dele contra o quadro-negro e os colegas riem. Um deles mostra ao ignorante o desenho de uma árvore de Natal (que corresponde ao dia 25). Quando o professor insiste — "quanto é 5 vezes 5" —, o aluno responde: "Natal!".
Afirma Coutinho: “Hoje, essa explicação — a inevitabilidade da burrice, digamos — não existe na gramática pedagógica. Vivemos tempos de "romantismo educacional". A expressão pertence a Charles Murray, a "bête noire" das ideias feitas. Em ensaio para a revista The New Criterion, Murray define o que entende por "romantismo educacional": trata-se da filosofia de que o sucesso de um aluno depende sempre do meio onde ele vive e estuda — e não, Deus nos livre, de quaisquer limites intelectuais inatos (ou genéticos).
Adaptando a definição de Murray a "Cinema Paradiso", o aluno que não é capaz de multiplicar 5 por 5 não é relapso a matemática. Ele será produto de um meio pobre e inculto; ou, então, é discriminado por um professor incompetente e autoritário. Burrinho ele não é.”
“Nos Estados Unidos, explica Murray, várias razões explicam o sucesso do "romantismo educacional". Para alguns pedagogos, as diferenças de inteligência podem ser suplantadas se os professores tiverem iguais expectativas relativamente aos alunos. Para outros, o foco não deve estar nos professores, mas nos alunos: se todos eles tiverem "autoestima" elevada, os resultados positivos serão inevitáveis.”
“Para Murray, o "romantismo educacional", para além de uma falácia pedagógica, é uma tortura evidente para a maioria dos alunos (e dos pais). Quando se promete excelência para todos, o que dizer quando essa excelência não vem?”
Coutinho conclui sua crônica: “Em "Cinema Paradiso", a ignorância era punida com uma violência grotesca. Mas não é preciso usar força física para exercer violência sobre os ignorantes. Há uma violência igualmente nociva quando se usa a mentira piedosa para negar a burrice e a mediania.
Um sistema de ensino realista deve fazer o melhor que pode. Mas também aceita as fraquezas da inteligência como parte da diversidade humana.”
Desejo complementar as ideias do articulista com marcante experiência pessoal vivida aos 11 anos de idade, quando cursava o primeiro ano do ginásio (era assim que se chamava). Naquela época, como ainda hoje, eu tinha dificuldade com a grafia de s ou z, de ss ou ç, por aí afora. Em uma prova de História, cometi a asneira de escrever Brazil, com z. O professor não bateu minha cabeça na parede mas espalhou a notícia por toda a escola, que não era pequena, o renomado Instituto de Educação Conselheiro Rodrigues Alves, em Guaratinguetá, SP. A humilhação beirou o insuportável. Não me lembro como superei o problema, sei apenas que mantive a dificuldade com as referidas grafias por longos anos.
Tratava-se, ao que parece, de um tipo de ignorância pontual, por alguma dificuldade que nunca pude esclarecer; paradoxalmente, talvez fosse o simples medo de errar. Não se tratava da “burrice inevitável” de que fala Coutinho, penso eu, tendo em vista os degraus que arduamente galguei ao longo da vida, até chegar a escrever num blog para dois ou três leitores amigos.
A burrice congênita existe mesmo, não se trata de raridade, porém seu diagnóstico precisa ser feito com cuidado.
Coutinho é bem objetivo em sua avaliação: “qualquer um é capaz de apreciar a inteligência de um jogador de futebol, por exemplo. Mas isso não invalida o óbvio: ler, escrever e contar ainda são as proficiências basilares de qualquer educação formal. Iludir o fato não altera a realidade.”
Coutinho sempre inteligente!
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2018/05/a-inevitabilidade-da-burrice.shtml
segunda-feira, 28 de maio de 2018
Resposta à sorrelfa
Querida Suzete,
acabo de receber sua correspondência e respondo imediatamente... antes que algum aventureiro tenha a mesma ideia.
Adorei o uso que fez da palavra sorrelfa! Nada mais apropriado para a lápide de um misantropo.
Gostei tanto que peço licença, desde já, para empregá-la em meu túmulo, pois desejo morrer assim, à sorrelfa.
Com minha admiração e eterna amizade,
andré
À sorrelfa
Querido André,
saudade!
O salão e o mercadinho, este bem abastecido pela produção local, ficam a dois quarteirões de minha casa, de modo que a falta de gasolina pouco ou nada me afetou. Fiz pequeno estoque de cebola, alho, tomate, carne no frízer (acho chique escrever assim), verduras da minha horta, alface, agrião, rúcula, couve, funcho, sálvia, salsa, cebolinha, coentro (os escritores modernos adoram enumerar palavras afins, numa fieira interminável, e eu gosto de copiá-los), e assim posso me dedicar às leituras e ainda sobra tempo para lhe escrever.
Pois escrevo hoje por causa de uma palavra. Uma única palavra, que encontrei numa crônica lida em algum jornal, a palavra sorrelfa, e como vem acompanhada de um a craseado, melhor dizer a expressão à sorrelfa!
Achei lindo demais e fui direto ao Caldas Aulete:
1. Dissimulação silenciosa para ocultar os verdadeiros sentimentos e intenções; DISFARCE; MÁSCARA
2. Pessoa manhosa, dissimulada, sonsa
3. Pessoa avarenta, sovina [ Antôn.: pródigo. ]
Sorrelfa com ê fechado!
No Dicionário Informal, que eu gsto muito, encontrei esses sinônimos de sorrelfa: sovina acanhado sórdido cainho vilão mofino casca ávido miserável esganado tacanho cauíla manicurto somítico iliberal avaro escasseado pelintra escasso cauíra pão-duro tenaz avarento mísero mesquinho socancra.
Assim a expressão à sorrelfa é usada para descrever um ato praticado de forma furtiva, escondida.
Bem, agora que estou informada sobre o significado da palavra e uso da expressão, meu problema é criar uma frase onde a mesma seja empregada de forma apropriada. Pensei pensei pensei e acabei num epitáfio, perfeito para o túmulo de um misantropo (palavra que aprendi com Machado de Assis!):
Morreu à sorrelfa
O que você acha, André? Está bem aplicada a expressão?
Por hoje é só, esperando que venha breve sua resposta.
Da sempre sua,
Suzete.
Assinar:
Postagens (Atom)





