segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Cinco respostas de Sérgio Moro

Cinco respostas de Sérgio Moro aos jornalistas Fausto Macedo e Ricardo Brandt (5/11/2016), em entrevista para o jornal O Estado de S. Paulo.


Estado – O que o chocou mais na Lava Jato?
Moro – A própria dimensão dos fatos. Eu tenho falado que a corrupção existe em qualquer lugar do mundo. Considerando os casos já julgados aqui, o que nós vimos foi um caso de corrupção sistêmica, corrupção como uma espécie de regra do jogo. O que mais me chamou a atenção, talvez tenha sido uma quase naturalização da prática da corrupção. Empresários pagavam como uma prática habitual e agentes públicos recebiam como se fosse algo também natural. Isso foi bastante perturbador. Ilustrativamente, também a constatação, e aí me refiro a casos que já foram julgados, de que algumas pessoas que haviam sido condenadas na ação penal 470 persistiam recebendo propinas nesse outro esquema criminoso na Petrobrás. Inclusive, durante o julgamento pelo
Plenário do Supremo Tribunal Federal, a demonstrar que a pessoa está sendo julgada pelo Supremo e sequer aquilo teve efeito preventivo para deixar de receber propinas. Foi uma coisa bastante perturbadora.

Estado – Como o sr. viu os protestos das ruas?
Moro – Acredito que seja um amadurecimento progressivo da democracia brasileira. Ilustrativamente, nós tivemos aí milhões de pessoas que saíram às ruas, protestando também contra a corrupção e dando apoio às investigações. Isso é algo muito significativo. E situa de uma maneira muito clara esse enfrentamento da corrupção como uma conquista da democracia brasileira.

Estado – Crítica recorrente das defesas é que há um excesso de prisões na Lava Jato. A operação prende para arrancar delações?
Moro – É uma questão interessante, até fiz um levantamento, temos hoje dez acusados presos preventivamente sem julgamento. Dez, apenas. Então, se afirma que existe um uso excessivo de prisões preventivas, e, claro, mais prisões preventivas foram decretadas no passado. Mas se existem dez acusados, pessoas que já respondem ações penais e que estão submetidas a prisão preventiva, sem julgamento no presente momento. Não me parece que seja um número excessivo. Isso a gente tem colocado de uma maneira muito clara. Jamais se prende para obter confissões. Isso seria algo reprovável do ponto de vista jurídico. Sempre as prisões têm sido decretadas quando se entende que estão presentes os fundamentos das prisões. Quando se vai olhar mais de perto os motivos das prisões, se percebe que todas as prisões estão fundamentadas. Pode até se discordar da decisão do juiz, mas estão todas fundamentadas na lei. Não existe nada, ninguém advoga uma solução fora da lei aqui nos processos da Lava Jato. Estamos seguindo estritamente o que a lei prevê.

Estado – A Lava Jato vai acabar com a corrupção no Brasil?
Moro – Não, não existe um salvação nacional, não existe um fato ou uma pessoa que vai salvar o País. Isso era uma reminiscência daquilo que a gente chama Sebastianismo. Acho que a democracia é construída no seu dia a dia. Agora, um caso, pela escala que ele tem, como esse da Lava Jato, ele pode auxiliar a melhorar a qualidade da nossa democracia. Identificando essas situações, dando uma resposta efetiva, as pessoas passam a ter mais fé nas instituições e na aplicação igual da lei. E se for aproveitada esse oportunidade também serem aprovadas reformas legais, que não só tornem mais eficientes o sistema de Justiça criminal, mas diminuam oportunidades para a corrupção, aí sim podemos superar esse quadro de corrupção sistêmica.

Estado – O sr. sairia candidato a um cargo eletivo? Ou entraria para a política?
Moro – Não, jamais. Jamais. Sou um homem de Justiça e sem qualquer demérito, não sou um homem da política. Acho que a política é uma atividade importante, não tem nenhum demérito, muito pelo contrário, existem muitos méritos em quem atua na política, mas eu sou um juiz, eu estou em outra realidade, outro tipo de trabalho, outro perfil. Então, não existe jamais esse risco.




Aldravia n. 37



delicada
resistente
perdura
florida
a
acácia


Foto: A.Vianna, nov 2016, jardim.

inesperada flor



do singelo cacho
surge a inesperada flor
caprichosa e bela



Foto: A.Vianna, out 2016, jardim.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Perguntas e respostas

Extraído do livro Trópicos utópicos, de Eduardo Giannetti (Companhia das Letras, 2016, pág. 60):

“Quando Mahatma Gandhi desembarcou no porto de Southampton, no sul da Inglaterra, em 1931, a fim de participar de uma conferência sobre o futuro da Índia, um jornalista teria perguntado a ele: “O que o senhor acha da civilização ocidental?”. E o líder indiano respondeu: “Acho que seria uma boa ideia.”

            O noticiário atual, principalmente da televisão, está repleto dessas perguntas irreverentes (para dizer o mínimo), e os jornalistas estão convencidos de que esta é a função deles: espicaçar, cutucar a onça com vara curta, provocar o interrogado em busca de uma resposta violenta, escandalosa, e isso vira imediatamente um furo jornalístico. Viraliza!
            Se o inquirido é macaco velho, ele não cai na armadilha. Mesmo um macaco velho pode cair na armadilha. Outro dia, perguntado sobre o que achava de um certo assunto, um senador da república respondeu:
– O  que interessa o que penso sobre isso?
Virou notícia, pois o ódio estava implícito na resposta malcriada e estampado na face do senador.
            O diálogo entre a senadora e uma transeunte é outro bom exemplo de pergunta complicada e resposta difícil:
            – A senhora está preparada para ser presa?
            – Quem vai ser presa é você.
            – Eu?! Eu não roubei!
            – Polícia, tira ela daqui...
            Viralizou!
            A resposta oferecida por Gandhi ao jornalista arrogante e preconceituoso – embora a pergunta tenha sido elaborada num nível bem mais elevado do que os questionamentos atuais – exprime bem a consciência plena que ele possuía de seu lugar no mundo e o lugar de seu país. A consciência do próprio valor. Ninguém poderia rebaixá-lo, nem a seu país, porque Gandhi conhecia o significado e a extensão da palavra civilização. Trata-se do bom emprego da fina ironia como resposta.
            Ter consciência que cometeu atos ilícitos dificulta a resposta adequada à pergunta impertinente. Ou se faz silêncio – o que muitas vezes soa como uma confissão –, ou a resposta sai mascada, torta, autoincriminatória, um desastre. E viraliza!

            Nada como a consciência limpa.

Berthe Morisot

Meus quadros favoritos


Berthe Morisot

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

J. J. Veiga melhor do que nunca




Registro de duas postagens anteriores:
Em março do corrente ano (2015) este blog registrou o que denominou O renascimento de José J. Veiga, com o relançamento de Os cavalinhos de Platiplanto, pela Companhia das Letras (2015). (http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2015/03/o-renascimento-de-jose-j-veiga.html)
Depois veio A hora dos ruminantes, pela mesma editora. E agora surge o excelente romance Sombras de reis barbudos. Redescobrir um autor como J. J. Veiga nos dias de hoje é uma felicidade inspiradora para a literatura brasileira contemporânea.

            Pois agora o blogueiro retorna ao mesmo autor, para saudar De jogos e festas – Novelas (Companhia das Letras, 2016).
            O volume de Veiga traz três “novelas”, intituladas De jogos e festas, Quando a Terra era redonda e O trono no morro.
            O livro traz ainda um belo Posfácio de José Castelo (J. J. Veiga detestava prefácios...).
            Os três textos são maravilhosos. Quando a terra era redonda, com apenas 8 páginas, é um conto do mais puro realismo fantástico, que poderia fazer parte das melhores antologias do gênero. (Não é o caso de entrarmos na polêmica diferença entre novela e conto. Há quem diga que a novela não passa de conto mais extenso.)
            Mas gostei mesmo de O trono no morro, história comovente de um bando de matadores.
            Às tantas, o chefe do bando interroga um novato, considerado por ele muito magrinho:

“ – Eu comia sim senhor.
 – Comia o que?
 – Arroz. Feijão. Mandioca. Essas coisas.
 – Não comia carne?
 – Asveis.
 – Com a gente você vai comer carne todo dia. Não tendo de vaca, a gente come de porco. Não tendo porco, come queixada. Não tendo queixada, come tatu. Isso no normal. Quando está correndo dos bodes a gente come o que achar, até bunda de tanajura.”

            De jogos e festas é o sétimo livro de Veiga, lançado em 1980. Nessa época o autor já era considerado pertencente à escola do realismo fantástico. Ele mesmo não aceitava esse rótulo, e segundo Castelo, dizia “não passar de uma invenção da crítica literária francesa, sem outros recursos conceituais para classificar os novos escritores latino-americanos que chegavam às livrarias parisienses”.
            Castelo termina seu Posfácio revelando antiga entrevista de Veiga a Edla van Steen, em que o autor fala dos ”elementos fantásticos que constituem a escrita”, tema recorrente neste blog. Segundo ele, “Um escritor nunca escreve o que quer – alguma coisa se interpõe entre ele e as palavras e toma o controle da ação. A coincidência entre o pretendido e o conseguido é impossível.”
            O Louco arremata: não temos mesmo controle sobre nosso inconsciente.