segunda-feira, 27 de abril de 2015

Ele, mais uma vez!



A Orquestra Sinfônica de Teerã, que já foi dirigida por maestros consagrados como Yehudi Menuhim, Isaac Stern, Maurice Béjart, havia sobrevivido a eventos traumáticos como um golpe de estado, a revolução islâmica, a guerra contra o Iraque. Porém, não sobreviveu a Mahmoud Almadinejad, que encerrou suas atividades sob o pretexto da falta de verbas.
O governo moderado de Hassan Rouhani trouxe de volta o maestro Alexander Rahbari, no exílio desde 1970. O retorno da Sinfônica de Teerã aos palcos há duas semanas foi tomado como o símbolo de um país que procura normalizar suas relações com o Ocidente.
A obra escolhida para evento tão significativo não poderia ser outra que não a Nona de Beethoven, também usada como hino da União Europeia! A primeira execução pública da Nona Sinfonia ocorreu em 7 de maio de 1824, na presença do compositor, completamente surdo à época. Quase 200 anos depois, o mestre alemão permanece atual, emocionante, capaz de tocar o coração dos mais diferentes povos do planeta.
O novo projeto iraniano inclui a apresentação semanal da Sinfônica, a formação de novos músicos  e maestros pelo país.
Bela iniciativa do Irã, na contramão do fundamentalismo religioso do Oriente Médio.



domingo, 26 de abril de 2015

haicai molhado


clima enlouquecido
antigas águas de março
em pleno abril

Foto: A.Vianna, abril 2015, Brasília.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Agualusa poeta



Exorcismo


lavro versos
curtos
como orações

palavras são legiões

de demónios
expulsos

corto advérbios

pronomes

poupo os pulsos.



                                  José Eduardo Agualusa
                                  do livro Teoria Geral do Esquecimento

Dia Internacional do Livro


Monumento ao Livro, em Berlin

             Não tenho apreço pelo já arraigado costume do Dia disso, Dia daquilo, incluindo as datas religiosas, afetivas e outras efemérides. Há quase sempre um segundo interesse nessas pretensas homenagens, especialmente do comércio varejista, como se costuma dizer. “Nesse ano o Dia dos Namorados vendeu mais que o Dia das Mães!” “As vendas do Dia das Crianças estiveram aquém do esperado pelos lojistas!” “Espera-se movimento recorde nas vendas de Natal!” “Ruim o movimento nos shoppings na véspera do Dia dos Pais.” Enfim, coisas desse tipo.
            Há exceção para tudo nessa vida. Daí o anexim Toda Regra Tem Exceção. Eis a minha exceção: o Dia do Livro! E é hoje!
            Parece que o Dia Internacional do Livro surgiu na Catalunha, em 5 de abril de 1926, em comemoração do nascimento de Miguel de Cervantes. Em 1930 a data comemorativa mudou para 23 de abril, dia do falecimento de Cervantes. Em 1995 a UNESCO oficializou o 23 de abril como o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor. (Aí está!, embutida uma segunda intenção, o direito do autor. Nada contra, porém.)
            A estatística mais recente afirma que, no Brasil, em cada 10 indivíduos, 7 não leem sequer um livro por ano. Isso é assustador. (Conheci um médico que bradava Nunca li um livro em minha vida! Orgulhava-se portanto da própria estupidez. Um certo presidente da república também já fez afirmação semelhante.) Este fato, por si só, faz por merecer que se dê destaque ao Dia do Livro.
            Outra particularidade do livro a merecer destaque: ele dispensa intermediários, a conversa se estabelece diretamente entre autor e leitor. E se o autor é bom, se é ótimo, se é um Shakespeare, temos muito o que aprender com ele. (O tradutor pode ser considerado um intermediário. Se ele também é bom, se é ótimo, se é uma Bárbara Heliodora, então tudo bem, somos gratos a ele.)
            Uma grande característica: o mesmo livro pode ser lido várias vezes. (Certa feita, outro médico amigo espantou-se, Mas você lê um livro duas vezes?! Ao que respondi, provocativo e arrogante, Duas não, três, quatro, cinco...) Hamlet é um bom exemplo de livro a exigir múltiplas e repetidas leituras. Como na vida, desde a infância, aprendemos com a repetição.
            Mas é preciso escolher bem o livro que se vai ler. Cuidado com o best-seller, muito cuidado com a autoajuda, atenção às simplificações ou reduções das grandes obras, nunca é demais voltar aos clássicos. Mas não se deve desprezar os contemporâneos, penso eu.
            Bem, não é difícil cantar loas ao objeto livro. Ele merece mesmo ter seu Dia Internacional.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Idos de 1959: em busca de um tempo perdido




Noite de sábado, 3 de outubro de 1959. Pai e filho aguardam ansiosos pelo jogo que terá início em poucos minutos, e que será transmitido pela TV, em preto e branco, imagem ruim, escura, mas na cabeça do menino a camisa do Palmeiras é mais verde do que nunca.
O jogo será em Vila Belmiro, campo do Santos F.C.; o Palestra tem um grande time, mas o Santos tem Pelé. Com poucos minutos de jogo o Palmeiras abre o placar. A vibração do menino é enorme.
Logo em seguida o Santos empata, faz mais um, já está vencendo por 2 a 1, para desespero do menino. O resultado final é um catastrófico, inacreditável, inesquecível 7 a 3 para o Santos.
O menino, inconsolável, não pode compreender aquele placar. O Palmeiras não pode tomar 7 gols numa única partida, isso é impensável. Escondido no quarto, o menino chora em silêncio. De vergonha.
No returno, jogando em São Paulo, o Palmeiras goleia por 5 a 1, a mesma diferença de 4 gols do fatídico jogo em Santos. Isso serve de pouco consolo: a diferença é mesma, mas tomar 7 é demais.

* * *

O campeonato prossegue equilibradíssimo e termina com Palmeiras e Santos empatados em primeiro lugar. A decisão será em melhor de 4 pontos (ou seja, quem fizer 4 pontos será o campeão). O primeiro jogo, em 5 de janeiro de 1960, termina em 1 a 1. Dois dias depois, o segundo jogo, e novo empate: 2 a 2.
             A decisão fica para o dia 10 de janeiro,
 no Estádio do Pacaembu. Aos 3 min Pelé abre o placar. Aos 43 min ainda no primeiro tempo, Julinho Botelho empata o jogo. Romeiro, de falta, faz o segundo do Palmeiras aos 3min do segundo tempo.
Palmeiras Campeão!

Como houve 3 jogos para esta definição, o Palmeiras recebe o título de Supercampeão de 1959!
            As escalações de ambos os times:

PALMEIRAS:
Valdir; Djalma Santos, Valdemar Carabina e Geraldo: Zequinha e Aldemar; Julinho Botelho, Nardo, Américo, Chinesinho e Romeiro.
Técnico: Osvaldo Brandão.


SANTOS:
Laércio; Urubatão, Getúlio e Dalmo; Zito e Formiga; Dorval, Jair Rosa Pinto, Pagão, Pelé e Pepe.
Técnico: Lula.

* * *

            O relato acima permanecia vivíssimo para menino que ainda hoje habita em mim, até o momento do jogo em que o Palmeiras venceu por 5 a 1, e que não se constituiu num consolo. Ou seja, o resultado anterior de 7 a 3 foi tão traumático, que a memória do restante do campeonato foi bloqueada, a despeito do feliz desfecho, o supercampeonato! Deste, não tinha a menor recordação.
            Quando busquei na Internet os detalhes do 7 a 3, para escrever esta crônica, encontrei o desenrolar dos fatos aqui narrados, e minha memória foi completamente recuperada. A escalação do Palmeiras, lembrei-me dela quase que integralmente. Do Santos, lembrei-me de Zito, Formiga, Dorval, Jair, Pagão, Pelé e Pepe, grandes jogadores.
            Três conclusões importantes!
1)    Futebol é coisa séria.
2)    Trauma é trauma.
3)    Temos muito o que aprender sobre nossa própria memória, e portanto, sobre o que consideramos fatos e verdades indiscutíveis sobre nosso passado.

* * *
Freud escreveu dois artigos interessantíssimos sobre o tema: “O mecanismo psíquico do esquecimento” (1898) e “Lembranças encobridoras” (1899). No segundo artigo ele afirma:

“Ninguém contesta o fato de que as experiências dos primeiros anos de nossa infância deixam traços inerradicáveis nas profundezas de nossa mente. Entretanto, ao procurarmos averiguar em nossa memória quais as impressões que se destinaram a influenciar-nos até o fim da vida, o resultado é, ou absolutamente nada, ou um número relativamente pequeno de recordações isoladas, que são frequentemente de importância duvidosa ou enigmática. É somente a partir do sexto ou sétimo ano — em muitos casos, só depois dos dez anos — que nossa vida pode ser reproduzida na memória como uma cadeia concatenada de eventos. Daí em diante, porém, há também uma relação direta entre a importância psíquica da experiência e sua retenção na memória. O que quer que pareça importante por seus efeitos imediatos ou diretamente subsequentes é recordado; o que quer que seja julgado não essencial é esquecido. Quando consigo relembrar um acontecimento por muito tempo após sua ocorrência, encaro o fato de tê-lo retido na memória como uma prova de que ele causou em mim, na época, uma profunda impressão. Surpreendo-me ao esquecer uma coisa importante, e talvez me sinta ainda mais surpreso ao recordar alguma coisa aparentemente irrelevante.”

            Dois mecanismos psíquicos diferentes, porém análogos, estão em jogo. As “lembranças encobridoras” descritas por Freud têm com o objetivo obscurecer experiências perturbadoras, e que não podem vir à tona. O caso do menino palmeirense é bem o oposto. O trauma deixa sua marca, perturba a memória da “cadeia concatenada de eventos”, no dizer freudiano.

* * *

A propósito, nos dois próximos fins-de-semana Palmeiras e Santos vão decidir o Campeonato Paulista de 2015! O menino haverá de torcer desesperadamente...

domingo, 19 de abril de 2015

Ainda o Islã e o Terror




Mário Vargas Llosa, na crônica de hoje (19/4) “O poder da blasfêmia”, em O Estado de S. Paulo, chama Ayaan Hirsi Ali de “heroína do nosso tempo”.
Hirsi Ali nasceu na Somália, sofreu mutilação genital na puberdade, recebeu educação estritamente muçulmana na Arábia Saudita e no Quênia. Quando seus pais forçaram-na a um casamento arranjado, Hirsi exilou-se na Holanda, onde chegou a ser deputada pelo Partido Liberal.
Vítima de ameaças terroristas, mudou-se para os Estados Unidos, onde acaba de publicar “Herectic. Why Islam Needs a Reformation Now” (Herege. Porque o Islã precisa de uma reforma já.)
Hirsi Ali sustenta que a violência praticada por organizações como Al-Qaeda e Estado Islâmico tem como origem a própria religião (diferentemente do que propagam certos governos do Ocidente, para mostrarem-se politicamente corretos), que por isso necessita de reforma radical para livrar-se dos aspectos incompatíveis com a contemporaneidade, a democracia e os direitos humanos.
Segundo a autora, há cinco conceitos que mantêm o Islã preso ao século VII, e que precisam ser reinterpretados. São eles:
     1)   “a crença de que o Corão expressa a palavra imutável de Deus e a infalibilidade de Maomé;
     2)  a preferencia que o Islã concede à outra vida sobre esta, aqui e agora;
     3)  a convicção de que a sharia é um sistema legal que deve governar a vida espiritual e material da sociedade;
     4)  a obrigação do muçulmano comum de exigir o justo e proibir o que considera errado;
     5)  e a ideia da jihad, ou guerra santa.”
Felizmente, Hirsi afirma que cléricos, professores, intelectuais, políticos, jornalistas, dentro e fora de países muçulmanos, já iniciaram tal reforma. Só assim as mulheres adúlteras deixariam de ser apedrejadas até a morte, os ladrões não teriam as mãos amputadas, os ímpios não seriam degolados, as mulheres passariam a valer tanto quanto os homens.
Esperemos pelas mudanças.