O homem começa a perder desde o
instante do nascimento; perde durante toda a vida, mas nunca aprende que não é
proprietário de nada, e sofre por isso.
terça-feira, 8 de abril de 2014
Mistério
Baseado em fatos reais.
Encontrou
na rua, levou pra casa, chamou a cadelinha de Nina. Quando o dono apareceu para
buscá-la, ela soube o seu nome verdadeiro: Nina!
A navegação das Ilhas Canárias
A foto do dia.
A melhor foto do ano!
"Na fotografia ganhadora, captada pelo satélite Terra no dia 13 de junho de 2013, as sete ilhas do arquipélago canário, no Atlântico, parecem navegar sobre a água, deixando para trás um rastro no Oceano Atlântico. Na verdade, a foto mostra como os ventos predominantes no arquipélago, os alísios, batem ao norte das ilhas, as rodeiam e deixam ao sul uma zona de calma com pequenas ondas."
sexta-feira, 4 de abril de 2014
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Escrito para mim mesma
2/8/2009
Tem dia que gosto
de escrever para mim mesma, por falta de vontade de escrever para alguém em
particular, mas por uma vontade danada de escrever. Depois eu posso até contar
o que escrevi, para a Maria Clara por exemplo, uma colega do Salão que anda
bisbilhotando, no bom sentido, os livros que levo para ler entre um corte de
cabelo e outro, sempre de homem. Ela pega o livro, vira pra lá, vira pra cá, lê
a contracapa, Suzete, é bom?, digo que é, Suzete, é difícil?, digo que não, acho
que ela tem medo, ela torna a botar o livro no lugar e muda de assunto. Ela não
lê nada.
Mas por
enquanto, é para mim que escrevo. Quero falar do encontro que tive semana
passada. Quando digo encontro, todo mundo já sabe que se trata de alguém, um
homem, é claro, de quem cortei o cabelo. Pois me apareceu no Salão um rapaz de
seus 40 anos, alto, muito alto, olhos claros, fala mansa, que me pediu um corte
bem rente, Mas não me deixe careca, ele brincou, amável desde o começo.
Preparava-me
para iniciar meu trabalho quando ele viu o livro do Ferreira Gullar, Poema
sujo, sobre a penteadeira, e me perguntou se eu gostava de poesia. Pronto, foi
o suficiente para começarmos uma conversa que não acabava mais, e ao final ele
me perguntou se eu conhecia uma poeta chamada Ana Cristina Cesar. Tomei logo
nota do nome para não me esquecer, pois confesso que fiquei meio atarantada com
o rapagão de nome Sérgio, o sobrenome me pareceu judeu, não consegui guardar.
(Preciso conferir se está certo isso de chamar uma mulher de poeta; no
primário, aprendi que o correto é poetisa, mas é tão fresco, tão mulherzinha,
como se diz hoje em dia, que parece até diminuir o valor da escritora, ela vira
uma coitadinha que faz versos para crianças.) Na saída, com um sorriso lindo no
rosto, Sérgio recomendou, Não deixe de ler a Ana Cristina... Agradecida pela
indicação, retruquei.
Pois não é que
encontrei no sebo um livro da tal poeta chamado Inéditos e Dispersos, publicado
em 1985, e estou impressionadíssima com ele! Às vezes parece um diário, onde
ela escreveu no dia 10.1.82:
“Hoje que Mary está indo para Paris retomo o caderno
terapêutico depois de ter dito que a
minha cura era “falar tudo”, que me desse e viesse, e assim, angustiada com a
partida que me cala ou um flanco de mim, escrevo como quem fala tudo, querendo
dizer que hoje, com o Patinho, senti que o meu compromisso primeiro era com a
mãe, com as mulheres, com o colo delas, e só secundariamente com ele, com um
apelo da realidade muda.”
Tem
mais, ainda não acabou, mas interrompo aqui para dizer que fiquei paralisada
com a expressão “caderno terapêutico”, achei lindíssima, interessantíssima, maravilhosa
mesmo, pois acho que meus cadernos (que não podem se comparar aos dela) também
são terapêuticos. Sempre disse que minha terapia é ler, escrever e cortar
cabelo de homem. (Sérgio me contou que a poeta suicidou-se, uma pena danada;
ela lia, escrevia, mas decerto não cortava cabelo de homem...)
Compreendi
que caderno terapêutico é o lugar onde a gente escreve tudo, mas TUDO mesmo,
até as coisas mais cabeludas. Agora, nesse preciso minuto em que escrevo, me
ocorre que... nem tudo. Tem coisa que a gente não diz nem pra gente mesmo.
Quanto mais escrever! E se alguém encontra o caderno? O mundo está cheio de
bisbilhoteiros como a Maria Clara.
Outra
coisa que me marcou foi a expressão “angustiada com a partida que me cala”. É
isso mesmo, angústia cala a gente. Não tenho filhos, mas tenho um cachorro
chamado Homero, um vira-lata grande, rajado de marrom e preto, de pelo curto, e
quando ele fica doente, geralmente com vermes, ele fica tristíssimo e eu
angustiada, e então ficamos mudos os dois, acabou-se a conversa, a casa num
silêncio de cemitério. Trato os vermes, ele alegre, eu feliz, conversamos o
tempo todo!
Mas
deixa eu copiar o restante do texto da poeta:
“Quero que uma mulher me acompanhe (ou ao menos o
Armando, que fala tudo e preenche o vazio). Há coisas demais para fazer, não
quero ir para minha casa, onde me sinto independente demais (é como um excesso).
Volto para a casa de mamãe, e tenho de suportar a angústia de ter que me
emudecer até a Mary voltar. Angústia é fala entupida.”
Que
coisa mais bonita! Independência demais pode ser excessiva. Dá medo. Assusta. O
pior é quando a gente não pode mais voltar para a casa da mamãe. Eu não posso.
Mas às vezes tenho vontade. Então fico muda. Entupida.
Quando o Sérgio
voltar ao Salão vou agradecer a ele, tomara que volte.
Jane Goodall faz 80 anos
A foto do dia.
"Dame Jane
Goodall, (Londres, 3 de Abril de 1934), de nome completo Valerie
Jane Morris Goodall) é primatóloga, etóloga e antropóloga britânica.
Estudou a
vida social e familiar dos chimpanzés (Pan
troglodytes) em Gombe, Tanzânia, ao longo de 40
anos. Os seus estudos contribuíram para o avanço dos conhecimentos sobre a
aprendizagem social, raciocínio e
cultura dos
chimpanzés selvagens.
É
mensageira da paz das Nações Unidas,
fundou o Jane Goodall Institute e é afiliada ao grupo defensor
dos animais Humane Society of the United States. O
seu trabalho é reconhecido e já foi homenageada em muitas ocasiões com
honrarias acadêmicas diversas e premios científicos."
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Ut pictura poesis
Horácio, em ilustração de Anton von Werner
Escrevi
recentemente neste Louco por cachorros, em Narrativas poéticas II (1), em 31 de março último, a
propósito de minha visita à bela exposição no Museu da Língua Portuguesa, em
São Paulo, que “Ouvi
de Adélia Prado, em sua última participação no Roda Viva, que a arte que mais
se aproxima da poesia é a pintura! (Ainda mais que a música.) Acho que ela tem
razão.”
Alertou-me
meu cultíssimo amigo Aldo P. Neto que a ideia de associar pintura e poesia como
artes afins, para dizer pouco, vem de longa data, mais precisamente de Quinto
Horácio Flaco, ou simplesmente Horácio (65 a.C. – 8 a.C.), registrada em sua
obra Ars Poetica.
Sobre o
assunto, encontrei interessante trecho no E-Dicionário de Termos Literários, de Carlos Ceia (2), que define a expressão
latina Ut Pictura Poesis (3):
“Expressão usada por Horácio na sua Arte Poética (c. 20 a. C.),
que significa “como a pintura, é a poesia” e que, apesar de não possuir um
significado estrutural, veio a ser interpretada como um princípio de
similaridade entre a pintura e poesia. A afinidade entre as duas artes já fora
mencionada por Plutarco, o qual atribuiu ao poeta Simónides de Céos o dito
segundo o qual “a pintura é poesia calada e a poesia, pintura que fala” (De
gloria Atheniensium, 346 F). Na mesma obra (17 F - 18 a), Plutarco esclarece
ainda que tal comparação se baseia no facto de pintura e poesia serem,
supostamente, imitações da natureza, princípio este que se revelaria fulcral
nas reformulações sofridas pela analogia entre ambas as artes ao longo da
Antiguidade clássica.”
O tema não é isento de controvérsia, e eis a opinião de
um ilustre português, encontrada na mesma fonte acima:
“Almeida Garrett, na fase inicial da sua carreira, também se
pronunciou sobre a “sentença” de Horácio e rejeitou a equivalência entre as
duas artes, porque, na Antiguidade, a pintura estava “atrasada” em relação à
poesia. É que os Gregos não tinham então Homeros em pintura. A argumentação de
Garrett já irá privilegiar a pintura, porque é a arte que melhor se adequa à
imitação da natureza: “A poesia animada da pintura exprime a natureza toda; a
dos versos, porém, menos viva e exacta, falha em muita parte na expressão de
suas belezas. Que poeta poderia dar uma ideia de Rómulo como David no seu
quadro das Sabinas? “Que versos nos poderiam fazer imaginar a Divindade como a
Transfiguração de Rafael? Que poema nos faria conceber a majestade dum Deus
criador dando forma ao caos, e ser ao universo, como a pintura de Miguel
Ângelo?” (Ensaio sobre a História da Pintura, Obras Completas, vol. 1, Lisboa,
1904, p. 27 a-b).”
Estou certo
de que a própria Adélia Prado, formada em Filosofia, conhece de sobra o
assunto. Mas é sempre interessante citar a fonte, quando exprimimos ideias que
não são originalmente nossas.
( (1) http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/search?updated-max=2014-03-31T05:02:00-07:00&max-results=10
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