terça-feira, 18 de março de 2014

Trabalhar e consumir


Em conversa entre Hannah Arendt e Günter Gaus, em 1964, o jornalista interroga a filósofa sobre a questão do “ser humano que encontra satisfação no processo de mero trabalho e consumo”. (1)  Arendt responde:

“Não acredito que possa existir nenhum processo de pensamento sem experiência pessoal. Todo pensamento é um pensamento posterior, isto é, uma reflexão sobre algum fato ou assunto. Não é assim? Vivo no mundo moderno, e evidentemente minha experiência se dá no e sobre o mundo moderno. Isso, afinal, é incontroverso. Mas a questão de simplesmente trabalhar e consumir é de importância crucial porque aqui se define também uma espécie de amundanidade. Ninguém mais se importa como o mundo aparenta estar.”

            Solicitada a explicar melhor o que significava “mundo” para ela, complementa:

“Agora emprego o termo num sentido muito mais amplo, como o espaço onde as coisas se tornam públicas, como o espaço onde a pessoa vive e deve parecer apresentável. Onde surge a arte, claro.”

            É nesse espaço chamado mundo que, 50 anos depois das palavras de Hannah Arendt, as pessoas concentram-se cada vez mais em trabalhar e consumir. Talvez mais ainda que há meia década; atualíssimo, portanto, o assunto. E para dar a devida importância a este espaço onde vivemos, a filósofa arremata com uma frase curta e poderosa: “Onde surge a arte.”
            Trabalhar e consumir, sem tomar conhecimento da arte, é ignorar o mundo. É negar o mundo em que vivemos.
            Certa feita ouvi de uma pessoa que não voltaria ao Louvre porque já lá estivera uma vez, tinha visto tudo. Pois rever, repetir a experiência é outra forma de experimentar um novo processo de pensamento. Daí a necessidade de se continuar re-vendo, durante toda a vida, se possível.
            Também ouvi de um amigo, surpreso diante daquilo que não podia compreender, Mas você lê um livro mais de uma vez? Ele nunca ouvira falar de re-leitura.
            Quantas vezes será necessário ouvir a Sonata para piano no. 32, op. 111, de Ludwig van Beethoven, para não mais se surpreender por algum trecho da magnífica obra?
            Infinitos olhares, audições, releituras, são infinitas as possibilidades de cada um em re-experimentar a obra de arte, re-viver o mundo onde se apresenta. Cada uma e todas elas, estas experiências passam a fazer parte do sujeito, tornam-se experiências pessoais, realizam a expansão psíquica de cada um. Porém, no dizer de Arendt:

“No trabalho e no consumo, o homem é totalmente lançado de volta para si mesmo.”

            Não se trata aqui de um voltar-se a si mesmo no sentido do autoconhecimento, da autorreflexão, da compreensão da posição do próprio homem no universo, enfim, sobre o possível sentido da vida. Trata-se de um ensimesmamento empobrecedor, que acaba por redundar em mera e vazia solidão, quando não em profunda melancolia.
Não há pois qualquer possibilidade de expansão psíquica no simples trabalhar e consumir, alertava Arendt há meio século. Um bom conselho para o homem contemporâneo.
           

(1) Arendt H. Compreender: formação, exílio e totalitarismo (Ensaios). Companhia das Letras, 2008.

Alegria

A foto do dia e haicai.


os doces à venda
- o sorriso da menina
 esse não tem preço


Vendedora de doces em Macoco, Lagos.
Foto: Devesh Uba

sábado, 15 de março de 2014

Ciúme


...
– amanhã é dia da pestinha.
– de quem você está falando?
– da chatinha da Gabi.
– veja como fala da minha neta!
– quando ela chega você não olha mais pra nós.
– nós quem?
– você sabe de quem estou falando.
– que é isso, Gabi é muito boazinha...
– peste, isso é que ela é.
– o que ela fez pra você?
– arrancou o laço da minha cabeça.
– foi sem querer...
– me agarrou pelas orelhas.
– ela ainda é pequena, você já é grande.
– mas ela é perversa.
QUE É ISSO???
– Freud disse isso, você me falou.
– os tais polimorfos perversos?
– isso mesmo.
– pois é, mas é normal...
– ela passou com o velotrol por cima do meu rabo.
– foi mesmo?!
– de propósito, e ainda riu...
– coitadinha da Nina Simone; vem no colinho do papai...
RRRRRRRRRR...
...


quarta-feira, 12 de março de 2014

Melhores imagens de Ciência em 2014

A foto do dia.



Imagem de Anders Persson: bomba cardíaca mecânica dentro de um tórax. 


50 minutos


O velho fazia sua caminhada diária quando um carro parou junto ao meio fio e pediu informação – supõe-se, pois não houve testemunhas. O caminhante levou dois tiros no peito e morreu instantaneamente.
Um advogado amigo da família e com vocação detetivesca interessou-se pelo caso, já que a polícia fez pouco ou nenhum progresso nas investigações durante os seis meses subsequentes. Aparentemente o velho não tinha inimigos. Nos últimos dez anos sua convivência social reduziu-se a duas ou três pessoas, incluindo a própria mulher, de um segundo casamento, com quem estava casado há vinte e poucos anos. As aventuras amorosas haviam se perdido no tempo. Ele não devia dinheiro a ninguém, aliás, não devia nada a ninguém. E não dispunha de seguro de vida.
O advogado amigo da família, residente no bairro da vítima, passou a fazer a mesma caminhada, repetindo o trajeto e horário, diariamente. Observador por natureza, mantinha-se atento aos homens e mulheres com quem cruzava, quase todos acima dos cinquenta anos, contava os carros que rodavam pela rua àquela hora da manhã, anotava marcas, modelos e cores dos veículos, de um ou outro registrava o número da placa. Fez isso durante seis meses.
Do mesmo modo que a polícia, não pôde chegar a pista alguma. As marcas de sangue deixadas pelo morto na calçada estavam quase que completamente apagadas. Ninguém mais comentava sobre o crime. A esposa do velho, alguns anos mais nova, havia se casado de novo. O advogado recebeu ótima proposta de emprego numa grande firma de advocacia e mudou-se para São Paulo.
Ao chegar em casa depois de 50 minutos de caminhada, esta foi a história que o velho deixou registrada em seu computador, ele que pretendia publicar um livro de contos sobre crimes sem solução. Morreu de infarto alguns minutos depois.