terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Oriente médio

Eu amo mapas 


Topografia do Oriente Médio



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Densidade populacional africana

 Eu amo mapas



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Discurso pronunciado a 7 de Dezembro de 1998 na Academia Sueca

100 anos de José Saramago 


Prêmio Nobel


De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz 


“A Pilar” 

 

“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha- pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: «José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira.» Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para todas as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por 

antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia.” ...

 

 

Trecho inicial do discurso de Saramago na Academia Sueca.

 

https://www.josesaramago.org/wp-content/uploads/2021/06/discursos_estocolmo_portugues.pdf

 

Às ordens!

Charge do dia 


Nando Motta e fr@nk

Dia da língua materna



INFORMATIVO DA ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE ESPERANTO


http://easp.org.br – Redação: Paulo S.Viana 

 

 

 

Em 21 de fevereiro comemora-se o Dia da Língua Materna. Esperantistas de todo o mundo expressam, na ocasião, seu apoio a um dos direitos universais do homem: o direito à preservação de sua cultura de origem, em que o idioma representa algo de valor inestimável. 

A Associação Universal de Esperanto, em nome de toda a comunidade Esperantista, enviou à Unesco a sua manifestação de apoio à preservação das culturas minoritárias que compõem o amplo espectro da Humanidade. 

Ao contrário do que se poderia pensar, o Esperanto não visa ser o único idioma da Humanidade, mas o segundo idioma de cada povo. Com a adoção da Língua Internacional neutra, as línguas maternas podem ser mantidas e cultivadas. Nesse sentido, é importante que as crianças possam ser educadas em sua língua materna, base para posterior aquisição de conhecimento. 




segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Tudo dominado

Segunda charge do dia


 André Dahmer

Progresso?




 

O processo de demenciação avança em ritmo acelerado. O progresso – ou se trata de retrocesso? – do distúrbio ganhou novo ímpeto, talvez seja sua evolução natural, ou ando abusando da costelinha-de-porco criado em Coromandel.

            Filme que vi ontem.

            Livro que estou lendo.

            Notícias mais recentes.

            Tudo se escoa por um ralo invisível, as imagens desaparecem na escuridão da memória, as palavras voam céleres para o mundo do nada.

            Os nomes próprios, para onde foram? Eu não sabia que era tão difícil conversar quando não lembramos dos nomes próprios. Aquele cara que fez aquele filme em que trabalha aquela atriz famosa lindíssima... como é meeeesmo o nome dele? Que filme?, pergunta minha mulher com cara de espanto.

            Outro dia aconteceu numa livraria:

– Moça, eu queria muito um livro, mas esqueci o nome.

– Lembra o autor?

– Não.

– A editora?

– Também não.

– Qual o assunto?

– Perda de memória.

            Ainda bem que me lembrei do assunto, não era nome próprio.

            Há vantagens! Estou revendo filmes ótimos no streaming (como é que consigo lembrar com facilidade dessa palavra que nem é do português?). Revendo pela primeira vez! Explico melhor: estou revendo com absoluta certeza que assisto pela primeira vez. Filmes ótimos! Outro dia assisti Um homem de sorte, com 2 h 47 min de duração!; à noite, com minha mulher, Vi um filme excelente hoje, a história se passa na Escandinávia (tenho me utilizado desse expediente com frequência: não me lembrava se era na Finlândia, Dinamarca ou Noruega, então mandei Escandinávia).  Ao reproduzir o título (escrito num pedacinho de papel), ela sapecou, Mas já vimos esse filme antes, é bom mesmo! E eu, Como assim?

            Estou pensando em pendurar no pescoço uma pequena lousa, um punhado de giz num bolso, um apagador no outro. Só para voltar a conversar.

            Enquanto isso, o terapêutico Diário da Demenciação prossegue firme.

 

Na livraria

 

– Moça, eu queria muito um livro, mas esqueci o nome.

– Lembra o autor?

– Não.

– A editora?

– Também não.

– Qual o assunto?

– Perda de memória.

Vaso com íris

Meus quadros favoritos 


Vincent van Gogh, 1890

Herança macabra

Charge do dia 



Laerte, tira de 2010, atualíssima!