quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Contos morais de J. M. Coetzee

 


No Natal, os Anos de chumbo, de Chico Buarque; na entrada do ano novo, os Contos morais, de J. M. Coetzee. Chico publica seu primeiro livro do gênero conto; Coetzee é escritor de fama internacional, ganhador do Nobel de Literatura em 2003. De qualquer modo, vale a pena comparar estilos e escolhas de temas. (Minha opinião sobre Anos de chumbo está em

 http://loucoporcachorros.blogspot.com/2021/12/anos-de-chumbo.html).

            Vejamos o primeiro parágrafo do primeiro conto de Coetzee, O cachorro:


"A placa no portão diz Chien méchant e o cachorro é méchant mesmo. Cada vez que ele passa, ele se joga contra o portão, uivando de desejo de alcançá-la e despedaçá-la. É um cachorro grande, um cachorro sério, alguma espécie de pastor-alemão ou rottweiler (ela sabe pouco sobre raças de cachorros). Em seus olhos amarelos ela sente ódio do tipo mais puro brilhando para ela.”


      Em meu ponto de vista, este texto poderia estar no livro do Chico Buarque; tem a mesma crueza, que se prolonga pelo restante da narrativa. Rubem Fonseca também poderia ter sido o autor. Talvez Dalton Trevisan ou Sergio Sant'Anna. Esta é a literatura contemporânea, moderna no sentido de atual, que eu aprecio e muita gente detesta. Gostei de encontrá-la no primeiro conto do Coetzee, datado de 2017.

      O segundo texto, cujo título é Conto, de 2014, vai pelo mesmo caminho:

 

“Ela não sente culpa. Isso é que a surpreende. Nenhuma culpa.

Uma vez por semana, às vezes duas, ela vai ao apartamento do homem na cidade, se despe, faz amor com ele, se veste, sai do apartamento, dirige até a escola para pegar sua filha e a filha do vizinho.”


           A partir daí seguem-se os contos Vaidade (2016), Quando uma mulher envelhece (2003-2007), A velha e os gatos (2008-2013), Mentiras (2011) e O matadouro de vidro (2016-2017). Em todos eles, está presente a relação entre mãe e dois filhos, e esta mãe é ninguém menos que Elizabeth Costello, o alter ego do escritor. Estilo e conteúdo são outros, bem mais parecidos com a literatura anterior do sul-africano.            

           Há vinte anos eu e minha mulher éramos leitores assíduos de Coetzee; adorávamos a fala corajosa e incisiva de Elizabeth Costello em defesa dos animais (A vida dos Animais (1999) e Elizabeth Costello (2003) são livros preciosos!). Depois vem Desonra, livro assustador, talvez o melhor de Coetzee; seguem-se À espera dos bárbarosDiário de um ano ruimO homem lento, e muitos outros.

            Agora, é uma alegria reencontrar Costello, ainda vociferando a favor dos animais! A velha e os gatos é uma pequena obra-prima! Transcrevo o primeiro parágrafo para que meu eventualíssimo leitor note a diferença de estilo:

 

“Ele acha difícil aceitar que, para ter essa conversa comum, mesmo que necessária, com sua mãe tenha de vir até onde ela mora nessa aldeia atrasada do platô castelhano, onde se passa frio o tempo todo, onde o jantar que servem é um prato de feijão com espinafre, e onde, além disso, é preciso ser polido sobre os gatos semisselvagens dela que se espalham para todo lado cada vez que alguém entra na sala. Por que, na noite de sua vida, ela não pode se instalar em algum lugar civilizado?”


            Gosto muito desses longos períodos, mas há que deteste.

            Contos morais poderia ser criticado por uma possível falta de unidade entre os textos. Penso que não: a leitura é tão agradável, tão elegante, a alma do escritor desnudada por inteiro, os temas tão bem escolhidos, com destaque para o processo de envelhecimento do homem, que nada mais importa.

            Em O matadouro de vidro, título que mais parece ter saído de um conto de Kafka, Costello admite que a senilidade está avançando: “Eu não sou mais eu mesma, John. Está acontecendo alguma coisa comigo, com minha mente”. Parece não haver dúvida que Coetzee fala de si próprio. (O tema tem a preferência deste blogueiro, nos textos contidos em Diário da demenciação, no Louco por cachorros.)

       Um grande livro, sem dúvida!


quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Indignados e mamulengos

 

Este blog publicou 35 textos nos quais se destaca a palavra indignação, em determinadas situações que se faz necessária a capacidade do homem de se indignar. Esta capacidade precisa ser conservada a todo custo, sob risco de se perder a condição de humanidade!

Em 3 de março de 2017 publiquei pequeno texto sobre certa indignação de José Saramago: “Pudesse eu, fecharia todos os zoológicos do mundo. Pudesse eu, proibiria a utilização de animais nos espetáculos de circo. Não devo ser o único a pensar assim, mas arrisco o protesto, a indignação, a ira da maioria a quem encanta ver animais atrás das grades ou em espaços onde mal podem mover-se como lhes pede a natureza”, escreveu o escritor português José Saramago em seu blog no dia 20 de fevereiro de 2009. “Todos que amamos os animais assinamos em baixo”, acrescentei eu. 

(https://loucoporcachorros.blogspot.com/2017/03/saramago-sempre.html)

Outras postagens tratam do estupro de crianças, dos abusos perpetrados por padres pedófilos, dos incontáveis ‘epítetos presidenciais’ que pululam nas redes sociais, do precaríssimo saneamento básico do nosso país, do dia em que atingimos 500.000 mortes pela covid-19. Nada disso se compara à minha indignação diante do macabro capítulo de nossa história, que vivemos nos dias atuais, o da vacinação das crianças entre 5 e 11 anos de idade.

Ouvi ontem em noticiário da tevê a Dra. Margareth Dalcolmo afirmar que as medidas recentemente tomadas pelo governo federal sobre a vacinação de crianças não passam de “medidas protelatórias”. Durante a pandemia de covid-19, a Dra. Margareth Maria Pretti Dalcolmo ganhou papel de destaque, sendo considerada uma das principais especialistas em covid-19 e doenças pulmonares do país. Tornou-se participante ativa dos principais telejornais e programas brasileiros com o intuito de alertar a população dos riscos da doença e difundir a ciência para os telespectadores. Por isso foi nomeada Personalidade 2020 pelo Prêmio Faz Diferença

Pois esta respeitadíssima cientista afirma com todas as letras que o governo federal tem feito uso de “medidas protelatórias” na vacinação de crianças. O nome disso é CRIME! E crime exige julgamento e punição!

Destaco as principais atitudes governamentais que configuram e reafirmam o crime continuado, por se tratarem tão somente de medidas protelatórias: estabelecimento de consulta pública para tratar do assunto; em seguida, realização de audiência pública; exigência de receita médica para a aplicação da vacina; retardo na compra das vacinas da Pfizer, específicas para crianças; em meados de dezembro passado a Anvisa autorizou o emprego desta vacina, considerando-a segura e eficaz, e nenhuma providência foi tomada pelo ministério da saúde; seguidas declarações do presidente da República tentando desmoralizar a vacinação infantil, utilizando como exemplo a própria filha, que segundo ele não será vacinada; incontáveis declarações do ministro da Saúde, médico, procurando engambelar a imprensa e a população, afirmando não haver urgência para tal vacinação; por último, e a mais importante notícia, a morte de uma criança a cada 2 dias por covid-19 no Brasil, mortes evitáveis, portanto, pela vacinação.

Quem não se indignar com isso é porque perdeu completamente a capacidade de se indignar. Tornou-se um mero mamulengo.

Realize seu desejo

Charge do dia 



Leandro Assis e Priscila Oliveira 
para a Folha de S. Paulo hoje

sábado, 1 de janeiro de 2022

A Filha Perdida

 


Maggie Gyllenhaal

 

 

No último dia do trágico ano de 2021 os cinéfilos ganharam um presente: A Filha Perdida, filme inspirado no romance homônimo de Elena Ferrante. A direção é de Maggie Gyllenhaal (conhecida pela atuação em  "Secretária", 2002, e "Coração Louco", 2009), provavelmente a responsável por fazer um filme melhor que o livro. Plataforma Netflix.

            A protagonista, Olivia Colman (a rainha Elizabeth 2ª da série "The Crown”), igualmente coloca o filme como um dos melhores do ano, daí a razão da estreia em 31 de dezembro. Colman é Leda, uma inglesa de 50 anos que aluga uma casa de praia na Grécia para se isolar e preparar as aulas do próximo semestre; ela é professora universitária, especialista em literatura comparada, e que dá aulas em Cambridge, nos Estados Unidos. 

A Leda mais jovem é interpretada pela atriz irlandesa Jessie Buckley, relevada na última temporada da série "Fargo", em que interpretou a enfermeira serial killer Oraetta Mayflower. O desempenho de Buckley é outro grande destaque do filme.

Leda é uma pessoa complexa, com uma infância difícil e um casamento complicado pelo nascimento de duas filhas, a demandar o afeto que Leda não poderia oferecer. Sucedem-se as diferentes passagens da vida dela, destacando-se sempre a dificuldade com a maternidade.  Disso resulta uma mulher cheia de contradições, com sérios problemas de convivência social, dificuldades que afloram diante da chegada de uma família de gente grosseira e má, disposta a quebrar o sossego de Leda. Mais não posso revelar.

O que impressiona mesmo é a habilidade de Maggie Gyllenhaal, ao que parece o primeiro filme sob sua direção. Ela é responsável pelo toque feminino (e feminista?), sensível, alternando sentimentos de delicadeza e brutalidade durante o filme. A fotografia e a trilha sonora são excelentes. Há a participação de outros atores de renome, que deixo de citar, para surpreender o expectador.

Sem dúvida, um grande filme, composto por mulheres.

 

Estados Unidos da América

Eu amo mapas


 Mapa topográfico dos EEUU

Mapa do México

Eu amo mapas


Mapa topográfico do México