terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Arqueia de Asgard



Uma arqueia de Asgard vista no microscópio. 
/ Nature.

Encontrado o organismo que explica a origem de toda a vida complexa da Terra: título espetacular da reportagem de Nuño Domínguez (18 jan 2020) com o subtítulo Cientistas japoneses observam pela primeira vez arqueias de Asgard, micróbios cujos ancestrais deram o passo inicial para a aparição de animais e plantas há dois bilhões de anos, para El País. 
“Após quase 15 anos de trabalho, cientistas japoneses conseguiram pela primeira vez tirar do fundo do mar e criar em laboratório arqueias de Asgard, o misterioso organismo que pode explicar a origem de todas as formas de vida complexa da Terra, incluindo os humanos.”
            Domínguez explica: “Todos os seres vivos que podemos ver a olho nu são feitos com os mesmos tijolos: células complexas, com organelas internas, chamadas eucariotas. Uma pessoa é um conjunto de 30 bilhões de células eucariotas que cooperam entre si com um objetivo comum. Todas as plantas, animais e fungos são eucariotas.”
“Na Terra há outros dois grandes domínios da vida: o das bactérias e o das arqueias, mais primitivas, sem organelas internas. Pois acredita-se que, há cerca de dois bilhões de anos, uma arqueia engoliu e assimilou outro micróbio, transformando-se na primeira célula complexa. Foi o primeiro passo até nós, e ainda não se sabe como aconteceu.”
A partir de 2015 cientistas escandinavos descobriram várias espécies de arqueias: Loki (em homenagem ao deus nórdico), Thor, Odin, Heimdall, Hel, que foram agrupadas na família Asgard, o lar dos deuses vikings.
“As arqueias de Asgard medem um décimo de milésimo de um centímetro e se reproduzem muito devagar para os padrões de um micróbio: mais ou menos uma vez por mês. O mais curioso são seus longos tentáculos entrelaçados. Os cientistas ainda não sabem por que os usam.”
“Segundo a teoria, exposta na revista Nature, o ancestral dos eucariotas era uma arqueia similar à de Asgard. A vida complexa surgiu seguindo o que eles chamam de os três “E”. Primeiro, a arqueia enredou uma bactéria com seus tentáculos, depois a engoliu e, por último, a endogenizou, o seja, estabeleceu com ela uma relação de cooperação para trocar nutrientes conhecida como sintrofia. A bactéria, que até então era um organismo independente, transformou-se numa mitocôndria – uma organela que fornece energia ao seu hóspede.”
“Imachi, chefe do Instituto de Ciência e Tecnologia do Mar e da Terra, no Japão,  deu um novo nome aos organismos retirados da fossa de Nankai: arqueia Prometeu (Prometheoarchaeum syntrophicum), em alusão ao ser mitológico que roubou o fogo dos deuses para dar aos humanos. Dois bilhões de anos depois, as mitocôndrias continuam presentes em todas as células eucariotas com idêntica função. A origem da vida complexa foi a cooperação.”
São descobertas espetaculares, a Ciência a avançar lenta e inexoravelmente.




Vinhos na Mantiqueira



Vale do Paraíba visto da Mantiqueira


Minha infância transcorreu com relativa felicidade ao pé da Serra da Mantiqueira, em Guaratinguetá, ou apenas Guará, e da Mantiqueira guardo as melhores recordações, orgulho mesmo por ter crescido em região tão linda como o Vale do Paraíba. 
            Agora, já velho, me deparo com a notícia que a região – mais precisamente Espírito Santo do Pinhal – tornou-se produtora de vinhos premiados, graças a uma engenhosa técnica de cultivo. A reportagem é de Marcelo Toledo (18 jan 2020) para a Folha de S.Paulo, com a manchete Vinícolas adotam colheita no inverno e colecionam prêmios.
Há 10 anos a família de Eduardo Junqueira Nogueira Junior iniciou a produção de vinho em Boa Esperança, de Minas Gerais, seguida por outras vinícolas em São Paulo; todos adotaram a “dupla poda dos vinhedos, transferindo a colheita do verão, como tradicionalmente ocorre, para o inverno. A alteração, aliada à amplitude térmica (diferença entre temperatura mínima e máxima do dia), tipo de solo e manejo, fez com que jovens vinícolas que entraram no mercado há menos de uma década passassem a colecionar prêmios e ampliassem suas produções de olho num mercado de vinhos de boa qualidade.”
“Colhendo no inverno, o período de maturação da uva ocorre em dias ensolarados, com noites frescas e solo relativamente seco, cenário apontado por pesquisadores como fundamental para o perfeito amadurecimento das uvas e qualidade dos vinhos.”
“O ciclo invertido da videira existe desde 2001, a partir do trabalho de pesquisadores da Epamig (empresa de pesquisa mineira) de Caldas, mas comercialmente passou a ser adotado só nos anos seguintes.  
          As condições climáticas do sul de Minas e de regiões de São Paulo permitem dois ciclos anuais para a cultura e o cenário do outono/inverno era semelhante ao das melhores regiões vinícolas do mundo. Seguindo a fórmula, a Guaspari passou a produzir uvas em 2006 no solo granítico da fazenda em Espírito Santo do Pinhal (SP), que remete à região do Vale do Rhône (França), na altitude (850 m a 1.300 m) e na amplitude térmica, que chega a 20ºC.”
Eis a essência do sucesso: “No cultivo tradicional, a videira é podada em agosto, para brotar em setembro, florescer em outubro, formar cacho em novembro e iniciar a maturação em dezembro, para ser colhida em janeiro e fevereiro.
Na dupla poda, o ciclo começa com a poda em janeiro, florada em fevereiro, formação do cacho em março e início de maturação em abril. A colheita ocorre entre o fim de maio e início de agosto. Assim a maturação ocorre com tempo seco, e “reduz os riscos de podridões dos cachos provocados por fungos”. 
Santificada seja a Serra da Mantiqueira!





Foto: AVianna, jul 2016
Nikon D7200



o tronco e a flor






a flor precisa do tronco
que é suporte – ampara protege
o tronco não precisa da flor
sempre viveu sem ela
quando a flor fenece
posto que tanta beleza
não pode durar para sempre
o tronco – agora só tronco
é desalento solidão



Foto: AVianna, fev 2010, jardim.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Leonardo desenha






Estudos de figuras para a Batalha de Angliari (1504).




Fotografia também é arte




Serena Ho


Clique para ampliar.

Basquiat!

Ao meu amigo Moisés




A sessão de hidroterapia é coisa séria, mas Tonico é um velho debochado.
Enquanto todos entram na água pela escada de alumínio, com todo cuidado – um tombo pode ser fatal –, Tonico, para se mostrar, grita o nome de seu time de futebol e mergulha de cabeça. De início aquilo causava extrema irritação em Laura, a fisioterapeuta chefe, mulher seríssima, nos seus 50 anos bem vividos, corpinho de 25, bonita, elegante no andar, vestindo sempre caça jeans e camiseta polo brancas, e acima de tudo, muito brava, capaz de impor respeito assim que entra na academia. Nem é respeito, é medo mesmo, gritante o silêncio que se faz à chegada da chefe. 
Isso mudou. Mudou graças ao velho Tonico, manco de uma perna, a coluna esbodegada, com sua tendinite crônica do glúteo médio direito, que ele chama de dor-na-bunda, catarata em ambos os olhos de modo a não reconhecer qualquer pessoa a mais de cinco metros de distância, baixinho, careca e barrigudo, além de desbocado. Ah, e surdo. No começo mergulhava escondido de Laura, depois na presença dela, para espanto dos fisioterapeutas que trabalham dentro d’água (Laura anda silenciosamente em torno da grande piscina, a observar atentamente o desempenho de todos, mas não se molha). 
Ao terminar a sessão, certa feita Tonico foi chamado ao consultório de Laura, que lhe pediu educadamente que ele não mergulhasse, a piscina não era funda o suficiente, havia o risco de trauma raquimedular, era um mau exemplo para os demais pacientes, e tome sermão sermão sermão. Não adiantou nada! (Sermão nunca adianta, é perda de tempo.) Dia seguinte Tonico mergulhou de cabeça e foi aplaudido pelos colegas de trabalho.
– Por isso que eu digo, todo psiquiatra é maluco!, exclamou Laura em alto e bom som, para todo mundo ouvir, porém sem qualquer irritação, a rir mesmo da situação, conformada.
Pronto, Tonico é maluco. Ele agora está liberado, pode fazer ou falar o que lhe der na telha, sem restrições porque ele é um velho maluco. Um maluco feliz.
Ao sair do mergulho Tonico passa a mão no rosto, ajeita a touca, cumprimenta a todos, um por um, Bom dia, Bom dia, Como passou desde a última sessão?, Estou melhor, Que bom!, quando encontra Lurdes, que não fala, sussurra, aos 86 anos, é aquele abraço e dois beijinhos, alegria pura; são curtos diálogos de rápido contato pessoal, que Tonico está sim interessado naquelas pessoas que vivem as mesmas dores que ele vive.
Dessa vez, antes de mergulhar, Tonico grita BASQUIAT! Segue-se o silêncio. Passam alguns minutos e aproxima-se lentamente uma mulher que fazia seus exercícios no lado oposto da piscina. Fala com voz mansa e doce, Estou aqui há três  anos e nunca ouvi alguém pronunciar o nome de um artista, você conhece o Basquiat?, Conheço, gosto muito, Eu sou artista plástica, Muito prazer, Dulce Ramos, Tonico, Seu nome todo mundo conhece, por causa dos mergulhos, Ah!. Assim começa preciosa  amizade. É que Tonico é maluco.
Há dois meses Tonico faz seus exercícios ao lado de um rapaz alto, louro, olhos verdes, bonito rapaz, outro de fala mansa e doce, embora calado, compenetrado na fisioterapia. Tonico gostou dele antes mesmo de conhecê-lo, e sem-mais-nem-porque lhe diz, Queria conversar com você, Então te espero depois da minha sessão, Combinado. Tornaram-se grandes amigos, bebem vinho juntos, veem filmes, conversam sobre filosofia, portanto sobre a morte, falam de futebol, contam piadas, às vezes choram, a emoção sempre à flor da pele. 
– Por que você disse naquele dia que queria conversar comigo?
– Sei não. Laura diz que sou maluco. Diz que todo psiquiatra é maluco. Engraçado, nunca fui psiquiatra! Só gosto de gente.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

envelhecimento





há beleza no envelhecimento
da primeira folha da palmeira
desaparece o verde
surge o castanho avermelhado
quase dourado
para melhor refletir o sol
há sabedoria no envelhecimento
da primeira folha da palmeira 




Foto: AVianna, jan 2020
iPhone 11 Pro Max

Cena sobre a neve

Meus quadros favoritos



Adrianus Eversen (1818-1897)
Pintor holandês

Trabalhando no Adolescentro




Tendo em vista a polêmica instituída com o programa de prevenção da gravidez em adolescentes, baseado na abstinência sexual, vamos dar voz a quem sabe das coisas. Cecília Vianna é médica, formada pela Universidade de Brasília, com qualificação em Ginecologia da Infância e Adolescência, e trabalha no Adolescentro de Brasília. 
          Dra. Cecília afirma:

“O Adolescentro é uma unidade de saúde referência do Distrito Federal especializado no acolhimento e tratamento de adolescentes e suas famílias. Os mais de quatro mil atendimentos mensais refletem o impacto do serviço prestado aos usuários da rede pública de saúde.
Em 21 anos de existência, o órgão atendeu adolescentes com depressão, ansiedade, transtornos alimentares e de aprendizagem, vítimas de automutilação ou tentativa de suicídio. Uma das grandes vantagens da unidade é utilizar a abordagem biopsicossocial, incluindo os responsáveis pelos jovens na compreensão e na solução das questões trazidas. 
Destaca-se entre os serviços oferecidos o Grupo de Diversidade, que  cuida de jovens nas questões relacionadas às diversidades sexual e de gênero. Ou seja, cuida das especialidades da sexualidade LGBTI, serviço agraciado com as Boas Práticas em Atenção Psicossocial, trabalho apresentado em Montevidéu para países do Mercosul.
        Desde a sua criação, em setembro de 1998, o Adolescentro vem colhendo prêmios de reconhecimento por seu trabalho. O mais recente foi o Selo de Qualidade, distinção para serviços diferenciados a adolescentes em várias frentes de atuação. Em 2017, foi agraciado com o prêmio Boas Práticas em Atenção Psicossocial, na categoria de Infância e Juventude.
O Adolescentro presta atendimento individual e em grupo para adolescentes de 10 a 18 anos de idade, nas modalidades listadas a seguir:
1. Programa Biopsicossocial (BPS) – acompanha o crescimento e desenvolvimento de jovens, com ênfase em transtornos mentais.
2. Programa de Atenção a Adolescentes com Vivência de Violência Sexual (PAV) – integra a rede de assistência a pessoas em situação de violência no DF.
3. Assistência e tratamento em psiquiatria e neurologia a adolescentes com demandas específicas.
Oferece aos adolescentes já acompanhados no serviço (bem como aos seus familiares e/ou responsáveis) atendimento ambulatorial nas seguintes áreas: Pediatria com atuação em Adolescência; Psiquiatria; Neurologia; Ginecologia; Psicologia; Terapia Ocupacional; Fisioterapia; Fonoaudiologia; Enfermagem; Nutrição; Serviço Social; Odontologia; Práticas Integrativas em Saúde (Hatha Yoga e Reiki).
        Realiza testagens (detecção rápida de gravidez, HIV, sífilis e hepatites virais) em adolescentes em situações indicadas, in loco. Oferece atendimento às vítimas de violência sexual: atendimento individual realizada por equipe multidisciplinar, atendimento a pais e/ou responsáveis com dificuldade no limite e autoridade.
        A área da Ginecologia da Adolescência possui papel necessário e crucial para a evolução do bem estar das adolescentes. Essa especialidade atua no Adolescentro para dar suporte nas áreas da sexualidade, proteção para gravidez na adolescência e Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST).  
O Adolescentro lida com uma população de adolescentes com risco aumentado para comportamento sexual, o que inclui, início precoce de relação sexual, relacionamento com parceiros mais velhos, múltiplos parceiros, dificuldade de adesão ao preservativo e aos métodos contraceptivos. Outro fator que aumenta o risco de gravidez nesse grupo é o desejo fantasioso de uma gravidez. O trabalho do ginecologista consiste em assegurar a proteção imediata, com inicio de método contraceptivo eficaz, associado a orientações constantes com incentivo ao uso do preservativo.  Aí sim, gradativamente, construir junto à adolescente objetivos de vida e perspectivas para o futuro, que são os melhores elementos de prevenção da gravidez precoce. 
Dessa forma, em concordância com a literatura mundial, o Adolescentro preconiza cada vez mais o uso dos Contraceptivos Reversíveis de Longa Ação (LARCs) para adolescentes.”

                                                           Cecília Vianna 


quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Centenário de João Cabral



Poeta em seu apartamento no Rio de Janeiro, em 1992
Foto: Carlos Chicarino/Estadão


          O MAR E O CANAVIAL

O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.
O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.

                               *

O que o canavial sim aprende do mar:
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.
O que o canavial não aprende do mar:
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.


João Cabral de Melo Neto
A educação pela pedra (1962-1965)



João Cabral, o escritor pernambucano que acreditava no extenuante trabalho com a palavra para compor sua poesia, em vez de utilizar-se da inspiração, será festejado ao longo de todo o ano de 2020, a partir desta quinta-feira, quando é lembrado o centenário de seu nascimento (ele morreu em 1999, aos 79 anos).