quinta-feira, 25 de julho de 2019

Parabéns a Suzete


Querida Suzete,

releve meu silêncio. Ainda abatido com a morte de minhas amadas Falena e Juliette, ando sem ânimo para escrever, remoendo o luto. Porém, escrever a você me ajuda a recuperar a alma, é terapêutico – repito sempre. (Procuro outro cão de guarda, pessoa que imponha respeito, que meta medo e afaste malfeitores. Mais que isso, que seja meu amigo.)
            Preciso comentar sua última carta. (http://loucoporcachorros.blogspot.com/2019/05/suzete-vai-outro-mundo-e-volta.html)  Foi a mais bem escrita que jamais me enviou, Suzete! E o mote – Estamos A Falar De Outro Mundo – nem era tão bom assim, mas você foi longe. Você é uma escritora e merece meus parabéns pelo dia de hoje, Dia do Escritor. Continue escrevendo, faz bem à saúde.
            Procuro cuidar da minha saúde mental, PRECISO cuidar da minha saúde mental. Outro dia um grande amigo, irmão mesmo, disse que estou ficando intolerante. Aquilo me abalou, me abalou porque eu já sabia disso, mas ouvir assim na lata foi uma porrada, custei a digerir, porque sei que se trata da reafirmação inequívoca do processo de envelhecimento cerebral, a acentuação de traços preexitentes. O traço intensificado, ampliado, surge sem que eu possa controlá-lo. Pedir desculpas não resolve. Às vezes penso que o silêncio é a solução, porém até manter-se em silêncio é difícil em determinadas situações, especialmente quando tenho alguma opinião formada sobre o assunto, como: Crianças Precisam Ir À Escola. Melhor não ter opiniões formadas...
            O que, de certa forma, sugere que estou vivo, isso de me abalar com uma porrada. (Sem que tenha o desejo de retribuí-la.)
            Manter o Loucoporcachorros sempre atualizado é outra forma de me sentir vivo. Notícias comentadas, meus quadros favoritos, mais recentemente a Galeria de Família, com pequenos textos a ilustrar as fotografias antigas, as fotografias do jardim acompanhadas de sofríveis haicais (que, penalizado, meu irmão elogia), e suas cartas, Suzete, que fazem sempre enorme sucesso.
            E la nave va.
            De repente, uma surpresa. Encontrei um novo amigo! Conversamos conversamos conversamos, sobre tudo, às vezes sobre nada, passa o tempo, o tempo voa, anoitece, nem damos conta, Moisés é de uma docilidade ímpar, e nem um pouco intolerante, um espírito superior. Faz-me bem.
            Pronto, aqui está minha resposta, querida Suzete, na expectativa de uma sempre adorável resposta sua.
            Do amigo de sempre, com saudade,

                                                           andré

Tenryu Riverbed

Meus quadros favoritos





Toshi Yoshida (1915-1995)

Visita de João Gilberto




Trecho do conto que dá nome ao livro de Sérgio Rodrigues, A visita de João Gilberto aos Novos Baianos (Companhia das Letras, 2019).
No dia do Escritor, minha homenagem a Sérgio Rodrigues.



quarta-feira, 24 de julho de 2019

Hiato


A ansiedade o fez chegar antes da hora marcada. Algumas décadas se passaram desde que esteve naquele ateliê pela última vez. A recepcionista o deixou à vontade no salão principal, enquanto a antiga professora terminava a última aula do dia. O encontro havia sido agendado por uma querida amiga. Somente ela ainda era capaz de convencê-lo a sair de casa nos últimos tempos.
Andou lentamente entre as estantes, observando as mesmas caixas de plástico, organizadas alfabeticamente e identificadas por etiquetas: cartolinas, lápis coloridos, papel machê, origamis, pinceis, telas, tintas. Lembrou-se da escada de mármore. Reconheceu os quadros e os leques espanhóis. Sentiu-se observado pelas bonecas e máscaras vienenses. Estava mudado.
Portador de um talento inquestionável e inovador, conquistou sucesso e fama de forma muito rápida. Suas linhas e cores fluíam de maneira harmoniosa, praticamente sem necessidade de retoques. Sua obra parecia já estar pronta dentro dele. Quebrou paradigmas sagrados e seculares. Era como se o tempo estivesse a sua espera. 
 Produziu incansavelmente, viajou o mundo, expôs nas mais prestigiadas galerias. Dominou todas as técnicas para em seguida transformá-las. Criou estilos e influenciou tendências por mais de uma década, no que pode se definir como um autêntico estado de arte. Parecia ser a verdadeira encarnação do espírito do seu tempo. 
Sentou-se em uma das mesas próximas à varanda, de frente para o gramado, logo abaixo do grande vitral colorido. Algumas lembranças voltaram a sua consciência. Olhares brilhantes, conversas sem entrelinhas, sorrisos fáceis, inseguranças, vida pela frente. Teve dúvidas se essas memórias eram mesmo agradáveis. Sua percepção atual  já contaminava o passado.  
Ninguém entendeu quando os contratos foram rescindidos, as viagens canceladas e os cavaletes desmontados. O recolhimento foi respeitado, mas nunca compreendido. Nem a família nem os amigos mais próximos conseguiam alcançá-lo. Nunca havia passado por isso. Semanas, meses e anos de completa infertilidade.
 Era como se toda a mensagem já tivesse sido dada e nada mais houvesse para ser dito. Parecia já ter cumprido sua missão. Não se desesperou, fez pior. Resignou-se ao que entendeu como destino. Sua arte não amadureceria. Porém, lentamente a ausência de vontade começou a afetar tudo. Perdia o tônus do corpo e da alma.
A professora entrou pelo ateliê silenciosamente. Escondeu toda preocupação sorrindo apenas com os olhos, como sempre fez. Já o esperava. Sentou-se ao seu lado. Permaneceram olhando para o gramado, sob os últimos raios de sol, juntos. Nenhuma conversa. Teriam um longo e incerto caminho pela frente.

                                             Moisés Lobo Furtado     26/06/2019

Nota do blogueiro: É com enorme satisfação que publico os textos do meu amigo Moisés neste blog. Uma honra!

terça-feira, 23 de julho de 2019

Ondina faz o pastel da Maria

Galeria de Família

Ondina era ótima cozinheira, conhecedora dos princípios da economia doméstica e do valor nutritivo dos alimentos, de modo que preparava refeições saborosas, saudáveis e baratas. Bem, segundo os princípios dela... (Não podia faltar doce ao final das refeições, mesmo que fosse um pedaço de goiabada cascão.)
            As fotos que se seguem, tiradas no apartamento dela em Lorena, onde residiu nos últimos anos de vida, mostram Ondina fazendo pastel, mas não qualquer pastel, é o pastel da Maria. Não é a primeira vez que ele, o pastel da Maria, é citado neste blog. 
            Para quem ainda não conhece a Maria, veja: http://loucoporcachorros.blogspot.com/2019/06/a-bondade-de-maria.html

            O lado triste da história é que Ondina foi a única pessoa a replicar o tal pastel, e o fazia com perfeição. Antes de morrer, “consta que” – expressão muito usada por ela – deixou a receita do pastel com a neta Flora e o filho Paulo. Tragédia: ambos perderam a   receita. 
            Quem comeu, comeu, quem não comeu não come mais!

P.S.: Se alguém souber de um programa de computador que, diante da foto do pastel, seja capaz de reproduzir a receita, avise imediatamente, por favor.




 




Fotos: AVianna, Lorena, SP





Cavalo-marinho em Búzios

A foto do dia




"Cavalo-marinho fêmea encontrado na Laje do Criminoso, em Búzios, Rio de Janeiro. Todas as espécies de cavalos-marinhos estão em perigo de extinção. As principais causas são a pesca predatória, a destruição do seu habitat e a captura frequente desses belos animais para serem vendidos como peça de decoração. Eduque seus conhecidos a nunca comprarem cavalo-marinho como souvenir!"
                     
Paula Vianna

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Visitas prolongadas em UTI




Foto:Folhapress

De modo geral, as visitas em uma UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) são restritas a cerca de duas horas diárias, o que pode causar impacto na saúde de quem não está doente, ou seja, nos familiares. O estudo em questão resolveu testar os efeitos da ampliação do tempo de visita dos familiares para 12 horas por dia. A reportagem é de Paula Sperb para a Folha de S. Paulo (22.jul.2019).
            “Resultado: a mudança reduziu em 50% os sintomas de ansiedade e depressão que os parentes desenvolvem no período em que alguém da família está na UTI sem aumentar o risco de infecções para os pacientes.”
            “É tão efetivo quanto um antidepressivo, mas sem os efeitos adversos. Sabe-se que aproximadamente a metade dos familiares desenvolve níveis patológicos de depressão. Ter uma estratégia para reduzi-los é muito importante”, explica o médico pesquisador Regis Goulart Rosa, que coordenou a pesquisa UTI Visitas, publicada na edição mais recente do Jornal da Associação Americana de Medicina (Jama).”
“O estudo foi conduzido pelo Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre, dentro do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS) do Ministério da Saúde, e realizado em 36 UTIs de hospitais públicos e filantrópicos do Brasil. Em São Paulo, o estudo foi feito no HCor (Hospital do Coração) e no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. No total, 1.685 pacientes e 1.295 familiares participaram do estudo.
O tempo reduzido de visitas à UTI advém da ideia de que o contato com mais pessoas por mais horas resulta em maior risco de infecções aos pacientes e maior estresse para as equipes médicas. O estudo, porém, desmente o risco ampliado de infecções e conseguiu minimizar a possível sobrecarga dos profissionais educando os familiares sobre o funcionamento de uma UTI. Acompanhantes receberam as devidas instruções e aprenderam sobre o que faz cada profissional, como enfermeiros intensivistas, médicos e técnicos de enfermagem. 
O estudo avaliou ainda se a presença prolongada dos visitantes poderia diminuir a confusão mental dos pacientes, mas os resultados mostraram não houve diferença.
Pareceu-me ótima iniciativa; talvez haja necessidade de novos estudos, em diferentes instituições, para uma conclusão definitiva.
                        


Dois amigos


...
– tem conversa amanhã?
– oba! – por mim, tem.
– lá em casa?
– ou na minha...
– dessa vez lá em casa.
– está bem, a que horas?
– 4 horas está bom?
– 3 e meia, mais tempo pra conversar.
– ótimo!
– vou de Uber, a gente bebe tranquilo.
– “vai que anoitece...”
– e a gente conversando...
...

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Mundo estranho


Em crônica dominical muito doida para a Folha de S. Paulo (14 jul 2019), Fernanda Torres escreveu: “Envelhecer é estranhar o mundo, é se irritar e lamentar. Deve ser um artífice da natureza , um jeito de você não desejar estar mais vivo, não aqui, não agora, nesta festa estranha com gente esquisita.”
            Doravante – só um velho usaria uma palavra dessas –, esta será minha definição definitiva do que significa envelhecer. Envelhecer é estranhar o mundo. O vocábulo estranho é no mínimo estranho, porque não precisa nada, deixa tudo no ar, informa apenas que algo está fora do lugar mas não diz onde. 
            Aquilo que é estranho incomoda. Incomoda porque é diferente, fora do comum, anormal mesmo. Tudo que é misterioso, enigmático, desconhecido, novo enfim, incomoda muito. 
            Quando não sabemos definir algo novo, e principalmente que causa algum mal-estar, dizemos que é estranho. Quando dizemos isso do mundo é porque estamos velhos, disse-o bem Fernanda Torres. Esse mundo já não é o nosso, aquele onde nascemos, crescemos, aprendemos a reconhecer como nosso habitat.
            Tal estranheza nos causa irritação. É claro! Porque então somos nós que nos tornamos estranhos a esse mundo. Já não reconhecemos o mundo como nosso, nem o mundo nos reconhece como pertencentes a ele. Somos verdadeiros ETs. A que mundo pertencemos então? Uma grande dose de irritação está entranhada nessa pergunta, dá para perceber? A que mundo pertencemos, porra?
            Resta-nos apenas lamentar, porque não há nada que se possa fazer sobre isso.
            O corolário dessa afirmação peremptória de Fernanda Torres, a de que envelhecer é estranhar o mundo, é ainda mais interessante: é um jeito de não desejarmos mais estar vivos! E isso é natural, ou seja, nos é oferecido pela própria natureza, verdadeira dádiva, diante do estranhamento causado pela velhice.
            A tal gente esquisita que agora nos cerca nos irrita e lamentamos o tempo todo por isso. Coisa de velho.