terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Boi esfolado de Rembrandt




A propósito do postanterior deste blog intitulado Carcaças, reproduzo trechos extraídos do livro  Rembrandt, de Pierre Cabanne (Editorial Verbo, 1993), tradução de Maria João Leal de Faria. (Publicado em 9 out 2011 por Manuel SantAna).

“As cenas de matadouro, como motivo pictórico, podem nos parecer hoje inusitadas mas foram um tema recorrente na pintura flamenga e do norte da Europa. Representado a partir do século XVI por Aersten e Beuckelaer, é igualmente abordado por numerosos contemporâneos de Rembrandt. Os cadáveres de porcos ou de bois esquartejados e suspensos de traves, são frequentemente associados a uma personagem - em geral uma criança - e servem para transmitir a ideia de morte. Este tema fica assim mais ligado à cena de género do que propriamente à natureza-morta.

Rembrandt, talvez o maior pintor flamengo do séc. XVII, mostra-nos a peça como se de um retrato se tratasse: a visão a três quartos é aquela que mais favorece ou informações dá da personagem retratada. A carcaça encontra-se numa espécie de cave, talvez um açougue, num ambiente lúgubre e muito diferente dos talhos que estamos habituados a ver hoje em dia. Está suspensa pelos tornozelos e o externo foi serrado e mantido aberto por uma trave transversal almofadada nas extremidades. O traço é rápido e não se perde em pormenores e a luz, embora difusa, é suficiente para permitir a definição das características anatómicas do malogrado bovino. Existe ainda uma segunda fonte de luz a meia altura, do lado direito, proveniente da divisão contígua e de onde emerge o busto quase imperceptível de uma mulher. Rembrandt inclui quase sempre personagens nas suas obras, não subvertendo, nesse aspecto, a tradição das cenas de matadouro. Porém, entre a versão de 1640 e a de 1655 (aqui apresentada), o papel do personagem foi alterado. A mulher do açougueiro, limpando o sangue derramado sem dar atenção à carcaça do animal, mantém-se agora em segundo plano, contemplando o boi esfolado do vão da porta e fazendo com que o mesmo pareça monumental e como que projetado para diante.

Não será abusivo comparar este animal abatido - pendurado no madeiro e exibido de peito aberto - a uma crucificação. Se assim fosse, a visão alegórica transformaria um mero pedaço de carne no corpo torturado e mutilado de Cristo e o tema assumiria um carácter edificante aos olhos dos contemporâneos do pintor. No entanto, o boi esfolado tornar-se-á apenas "pitoresco" no início do século XVIII, e finalmente será considerado brutal e vulgar no final desse mesmo século. Teremos que esperar pelo século XIX para ver os pintores "copiarem" o mestre, prestando-lhe homenagem: Delacroix, Herbier, Daumier e ainda, mais próximos de nós, Soutine, Fautrier e Francis Bacon.”



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

A casa que Jack construiu




Lars von Trier (Copenhague, 30 de abril de 1956) é um cineasta dinamarquês, vencedor de diversos prêmios de cinema, e que adora polêmicas. Não é um diretor fácil; pertence ao time daqueles que você ama ou odeia. Eu me enquadro na primeira categoria.
          Seu filme Europa (1991) é uma obra prima. Foi vencedor da Palma de Ouro com Dancer in the Dark (2000). Dogville (2003), seguido por Manderlay (2005), Antichrist (2009), Melancholia (2011) e Nymphomaniac (2013), todos foram bem recebidos pela crítica, nem tanto pelo público.
          Em 2018 dirigiu A casa que Jack construiu, com Matt Dillon e Bruno Ganz. É sobre ele que desejo comentar.
          Antes do festival de Cannes começar, o diretor artístico Thierry Fremaux proibiu o longa de participar da competição por ser “muito controverso”. Exibido fora da competição, muitos que compareceram à exibição não estavam preparados para a experiência e mais de 100 pessoas abandonaram a sala de projeção no meio do filme. Ainda assim, o diretor foi ovacionado no final da sessão.
          The House That Jack Built relata a história de um psicopata, interpretado por Matt Dillon, que comete cinco crimes violentos aleatórios, e que prefere matar mulheres. "Os homens já nascem culpados", enquanto "elas são sempre vítimas", ironiza Jack.
          Jack é um psicopata grave, delirante, anedônico, que descobre a certa altura da vida que pode sentir prazer ao matar. Além disso, sofre de transtorno obsessivo compulsivo, o popular TOC, o que acrescenta certa dose de humor à trama, porque depois de cometer um crime ele precisa voltar inúmeras vezes à cena, para conferir se não deixou alguma marca de sangue que não fosse rigorosamente limpa. 
          Em um descampado, ele constrói e em seguida destrói várias vezes os alicerces de uma casa ideal, sempre insatisfeito com o resultado. A metáfora refere-se à sua casa mental, imperfeita, inadaptada à vida social, incapaz de amar. 
          Mais que a morte em si, são as fotos que faz dos cadáveres em posições macabras que o satisfazem; em seus delírios, considera-se um artista.  
          O protagonista narra sua trajetória a um interlocutor, Verge (Bruno Ganz), inspirado em Virgílio, guia do inferno e do purgatório em “A divina comédia” de Dante.  



Bruno Ganz e Matt Dillon.  Foto: Divulgação.
            
Em cenas lentas e monótonas, Jack discorre sobre a alma humana, sobre o papel da arte, fala de uma sociedade indiferente ao gritos de pedido de socorro do ser humano que sofre.  
            Lars von Trier retrata os extremos em seus filmes. Nunca, em minha opinião, um serial killer foi tão bem retratado no cinema, com requintes repugnantes para alguns, como nesse último filme do diretor. A descrição da personalidade psicopática grave é perfeita. 
            Se meu eventual leitor deseja ver o filme, esta é uma pequena preparação. Bom filme.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

curicaca





ao amanhecer
o jardim inda em silêncio
canta a curicaca


Foto: AVianna, fev 2019, jardim

Clique no site abaixo para ouvir a curicaca:

Carcaças


Em curso desde o início de fevereiro a exposição "50 anos de Realismo - do Fotorrealismo à Realidade Virtual"no CCBB de Brasília (5 de fev a 28 de abr).
            Em minha segunda visita à exposição pude observar melhor o óleo sobre tela de Fábio Magalhães (1982), intitulado Daquilo que conduz ao anímico, da série  Limites do Introspecto (2015).
            Lembrei-me da pintura de Rembrandt, Carcaça de um boi, de 1655, em exposição no Louvre.
            O tema é recorrente, utilizado por inúmeros artistas. Revelo alguns deles aqui, como uma provocação aos eventuais leitores desse blog.


Daquilo que conduz ao anímico, 2015
Fábio Magalhães (1982)



Detalhe



Detalhe



Carcaça de um boi
Rembrandt van Rijn (1655)



Isaac van Ostade (1624)




Michael van Musschert (1668)



Jan Miense Molenaer (séc. XVII)



James Ward (1815)



Chaim Soutine (1924)



Chaim Soutine (1924)



Bruno Cassinari (1941)



Marc Chagall (1947)





Damien Hirst (1965)


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Pomar de palavras


A deliciosa crônica de hoje  (21.fev.2019) Sobre laranjas e bananasde Sérgio Rodrigues fala do “pomar de palavras” da língua portuguesa no Brasil. Ou uma salada de frutas, se o leitor assim o preferir.
            A fruta do momento é a laranja, presente no dia de ontem no Congresso Nacional, distribuída por um certo partido político aos parlamentares e visitantes presentes! 
            Afirma Rodrigues que “na primeira metade do século 20, "laranja" já aparecia em registros escritos na acepção hoje um tanto esquecida de "pessoa ingênua, bocó". A mesma que nas últimas décadas evoluiu para a de "indivíduo que, ingenuamente ou não, tem seu nome usado em fraudes financeiras". Se os primeiros laranjas eram simplesmente otários, os atuais são agentes ativos das fraudes, espertos que visam lucro fácil, emprestando apenas o nome e cpf. 
O sentido da palavra "laranja" não é muito diferente de "banana". Desde a primeira metade do século 18 significa "indivíduo covarde" e por extensão, "pessoa fraca, sem iniciativa". É possível que a forma e consistência da fruta sejam responsáveis pela acepção depreciativa. (Penso que os laranjas de hoje não são nada bananas...)
Outra fruta bastante utilizada nessa nossa salada é o "abacaxi", que ainda segundo o autor da crônica “tornou-se em algum momento do século passado um símbolo de trabalho difícil, problema grave ou situação intrincada”. O aspecto agressivo da fruta, áspero espinhento rude, que machuca a mão, aliado à dificuldade para descascá-la,  parecem ser os responsáveis pelo novo significado.
Já o mamão pode sugerir um duplo sentido. Pode indicar pessoa imbecil, palerma, lelé da cuca, pancada,  mas também o sentido de "tarefa de fácil execução, moleza", “forma reduzida da expressão metafórica "mamão com açúcar". 
A palavra “uva”, sabe-se lá por quê, indica "mulher muito bonita".  Penso que menos pelo aspecto da fruta que pela sua doçura e consistência na boca, de preferência sem semente.
            Rodrigues não inclui em sua crônica certas frutas que mais recentemente passaram a ser identificadas com determinadas partes do corpo humano, em particular o corpo feminino, como mulher-pera, mulher-melancia, cujas similitudes dispensam comentários.
             A simples colocação de um adjetivo acoplado à fruta muda completamente seu sentido; é o caso da maçã-podre, capaz de estragar toda uma caixa ou cesta de maçãs. Fazer do limão uma limonada é artifício análogo e muito elegante.
            Enfim, infindável é este "pomar de palavras". É preciso encontrar um bom uso para o “gold kiwi”, fruta saborosíssima, delicada, bonita, e muito cara. Talvez uma linda adolescente mimada possa ser comparada ao gold kiwi. Este blog aceita sugestões.





segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Vínculo de irmãos




Dois leões machos adultos, provavelmente irmãos, cumprimentam-se esfregando os rostos por 30 segundos. A foto foi tirada em Ndutu, Serengeti (Tanzânia). 'Vínculo de hermanos' é a imagem vencedora do 'Wildlife Photographer of the Year 2018'.

Foto: DAVID LLOYD / NHM


https://brasil.elpais.com/brasil/2019/02/14/album/1550166704_220021.html#foto_gal_1

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Suzete escreve um microconto


Meu querido André,

mostrei a última cartinha que você me escreveu a minha colega Abigail e ela quase morreu de inveja, que nunca recebera uma carta assim, tão delicada, embora não tenha apreciado um certo palavrão, como é que pode começar falando de cachorros, passar ao amigo e terminar com microcontos, no que concordei com ela em tudo, menos no palavrão muito bem colocado diante do dentinho afiado de Lila, ai como dói, putaqueopariu! 
            Ao final da carta você me pede que escreva um microconto! Muito difícil, meu amigo, para uma simples cabeleireira. Não é de hoje que venho acompanhando esta sua predileção pelo gênero e penso que preciso desenvolver capacidade de síntese para escrevê-los, o que não é fácil diante das conversas de salão de beleza, onde as pessoas falam falam falam até secar a garganta, para não dizer nada. Parece que o bom microconto é aquele que dá um recado.
            Em seu livro minimalismosvocê escreveu aquele que achei um belo microconto, na forma e conteúdo:

“Esperava pelo irmão como quem espera pelo Messias. Ao chegar, viu que o irmão era de carne-e-osso. Amou-o ainda mais.”

            Acho que não consigo fazer nada parecido, André. Mas estou tentando, e de tanto tentar, saiu-me isso:

Diante da desilusão amorosa, Sansão pediu-me que lhe raspasse a cabeça. Foi perdendo forças, definhando, até morrer. 

            E você acha que podia sair outra coisa do bestunto de uma cabeleireira que só corta cabelo de homem? Diga-me, sinceramente, posso continuar tentando?
            Pelo que você tem escrito no blog, a visita de seu amigo Sergio foi um sucesso. Agora sou eu quem fica com inveja. Amizade dessas não tem preço. Pois vou lhe contar o sucedido recentemente comigo. 
            Há 8 meses e meio apareceu por aqui uma tal de Mara, vinda de Santa Catarina (em toda a minha vida eu nunca havia conhecido ninguém de Santa Catarina), toda branquinha que nem leite, quase transparente, fala mansa de gente educada, pegou a cadeira ao lado da minha, mas só cortava cabelo de mulher. Foi se chegando, ficou minha amiga, nos fins de semana não saía lá de casa, elogiava minha comida, gostava dos meus livros, e acho que foi isso que acabou por me cativar, gostar dos meus livros. Também eu me apeguei. 
            André, não vale a pena encompridar essa história patética (é a primeira vez que uso a palavra patética). Certo dia Mara me disse que precisava visitar a mãe doente em Santa Catarina (já viu desculpa mais esfarrapada?), pediu-me dinheiro emprestado para a viagem, nunca mais deu notícia. Acabou-se a amizade, acabou-se a patética história. 
            Eram todas as minhas economias, acredita? Foi o que me deixou putadavida, não senti a perda da amizade porque não era mesmo amizade, não me senti ludibriada porque não fiz nada de errado, nem boba me senti porque continuo acreditando nas pessoas e é possível que volte a cair num golpe desses, mas perder meu dinheirinho ganho honestamente cortando cabelo de homem – e alguns são muito chatos –, aí não, isso eu não me conformo. 
            Estava juntando dinheiro para visitar Nova Iorque. Agora não dá nem pra ir a Aparecida do Norte, a pé, e lá não vou mesmo, ateia degenerada (não foi assim que seu irmão chamou você?, degenerado?) que sou, que se creditasse em promessa fazia uma para Santo Expedito, o das causas perdidas, para ter meu dinheirinho de volta.
            Portanto, de volta ao salão, isso sim. Haja cabelo de homem.
            Termino por aqui, meio chateada com esta resposta tão sem graça desenxabida insossa insípida inodora, longe da graça com que me escreveu. Paciência. A próxima será mais inspirada.
            Beijo da sempre sua

                                                           Suzete.