quinta-feira, 7 de junho de 2018

A Grande Conquista



António Damásio é professor de Neurociência, Psicologia e Filosofia, e diretor do Brain and Creativity Institutena University of Southern California, em Los Angeles.
            Seu último livro A estranha ordem das coisas – a vida, os sentimentos e as culturas humanas (Ed. Temas e debates – Círculo de leitores, Lisboa, 2017) apresenta uma síntese do conjunto de estudos e pesquisas de uma vida inteira, e por isso mesmo é monumental.
            O livro é de uma densidade incrível, cada parágrafo precisa ser lido cuidadosamente pois contém afirmações e conceitos profundos, complexos, revolucionários, e que escapam à nossa mente acostumada às trivialidades do cotidiano. 
            Impossível resumi-lo, de modo que este blogueiro pretende apresentar alguns trechos esparsos, na esperança de que façam algum sentido ao leitor, e que venham estimular a leitura da obra.
            À página 114 Damásio está a discorrer sobre o que chama de “A Grande Conquista”: “A capacidade de gerar imagens possibilitou que os organismos representassem o mundo em seu redor; ... e o mundo do seu interior.” ...  “A existência de imagens só foi possível depois da complexidade dos sistemas nervosos atingir um nível particularmente elevado.”
            Vamos ao trecho escolhido:

“Assim sendo, os passos a serem seguidos na evolução tornam-se bastante claros. 
Em primeiro lugar, servindo-se de imagens feitas a partir dos mais antigos componentes do interior do organismo – os processos de química metabólica desenvolvidos, em geral, nas vísceras e na circulação sanguínea e nos movimentos por eles gerados –, a natureza veio gradualmente a desenvolver sentimentos.
Em segundo lugar, servindo-se de imagens de um componente interior bem menos velho – a estrutura esquelética e os músculos que a ela estão ligados –, a natureza desenvolveu uma representação do envolvente de cada vida, uma representação literal da casa habitada por cada vida. A eventual combinação destes dois conjuntos de representações abriu caminho à consciência.
Em terceiro lugar, servindo-se destes mesmos dispositivos de criação de imagens e do poder inerente às imagens – o poder de representar algo e simbolizar –, a natureza desenvolveu as linguagens verbais.”

            Os negritos são meus, para destacar quão fundamentais são os temas aqui abordados.

(O livro ainda não foi publicado no Brasil; a edição referida acima é de Portugal.)


Palmeiras vence outra vez

A  foto do dia


Estupenda vitória do Palmeiras ontem sobre o Grêmio, em Porto Alegre, com 2 gols de William (foto).

Foto: Divulgação / Palmeiras

Macabra surpresa


Ao plantar batatas no quintal, encontrou o crânio do ex-marido de sua própria mulher.



Variações sobre o mesmo tema









pequeninas rosas
como que mudam de cor
à primeira luz




Fotos: AVianna, IPhone 8S, à primeira luz da manhã.

Ironia

Inspirado em pequeno texto 
de L. F. Verissimo

Devagar, testando o chão a cada passo, o velho aproximou-se da mesa onde todos já estavam sentados. A netinha exlamou:
– Aí vem The Flash. 


Voto difícil

Diante da urna eleitoral, respirou fundo, fechou os olhos e teclou um número. Confirmou o voto e exclamou:
– Seja o que Deus quiser.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Macaco-de-cheiro

A foto do dia


Macaco-de-cheiro, Reserva Mamirauá



Foto: Heriberto Araújo


Gracián y Karnal


Baltasar Gracián

Em ótima crônica intitulada Quem precisa de sabedoria instantânea(6 jun 2018, em O Estado de S. Paulo), Leandro Karnal escreve sobre a obra de Baltasar Gracián y Morales (1601-1658), jesuíta de origem modesta, cuja obra mais divulgada chamou-se Oráculo Manual e Arte de Prudência, publicada em 1647. 
Informa Karnal: “A estrutura da redação é clara: aforismos sobre temas variados em linguagem bastante direta, muito distante da futura forma do El Criticón. São 300 máximas curtas, parágrafos rápidos, fácil leitura e aplicação imediata: eis a fórmula do sucesso do livro publicado pelo jesuíta sob pseudônimo. Era uma sabedoria profana, pouco mística e decididamente pessimista.”   
Eis alguns exemplos:
1     Nunca se sobressair ao chefe especialmente no campo do talento (7); 
2     relacione-se com pessoas que tenham algo a ensinar (11); 
3     não crie expectativas muito altas, pois “a realidade não se compara à imaginação” (19); 
4     saber esperar é importante, pois como diz um ditado “eu e o tempo podemos enfrentar quaisquer outros dois” (55); 
5     saiba dizer não aos outros deixando um vislumbre de esperança para amenizar o desapontamento (70); 
6     saiba dosar as brincadeiras porque tudo que é excessivo perde o valor, é cansativo e desgasta (76); 
7     os cautelosos sabem quando aposentar um cavalo de corrida sem esperar que ele sofra uma queda em plena competição (110); 
8     não ser sempre do contra para não parecer tolo e irritante (125); 
9     sem mentir, não revelar toda a verdade em qualquer circunstância ou a qualquer pessoa (181); 
10  no Céu tudo é alegria, no Inferno tudo é tristeza, na Terra (que está no meio) existem ambas as coisas (211); 
11  nunca romper definitivamente pois poucas pessoas são capazes de praticar o bem e quase todas são capazes de praticar o mal (257).  

Já que os conselhos de tão alta sabedoria permanecem mais atuais do que nunca, será que devemos concluir que pouco ou nada mudou a Humanidade? 



terça-feira, 5 de junho de 2018

Pessoas Altamente Sensíveis


“Pessoas Altamente Sensíveis (PAS) têm consciência de detalhes muito sutis em seu entorno. Também são reflexivas, intuitivas, criativas, empáticas e cuidadosas. Mas essa característica, como qualquer outra, também têm seus inconvenientes: essas pessoas podem ser muito precavidas e voltadas demais para seu interior. Às vezes se sentem sobrecarregadas e exaustas pela intensa atividade ao estarem, por exemplo com muita gente em ambientes muito barulhentos.”
            Assim tem início a reportagem de Jaime Rubio Hancock para El País (5 jun 2018), cujo título é Equilíbrio e sensibilidade: assim é uma pessoa altamente sensível.
Não se trata de qualquer transtorno mental e sim de algo normal, “uma característica basicamente neutra”, segundo Elaine Aron. De 15% a 20% da população são altamente sensíveis, em diferentes graus, e outros 22%, moderadamente sensíveis. 
“Apesar de esse traço ser associado com frequência com outros, como a introversão e a timidez, Manuela Pérez, presidenta da Associação Espanhola de Profissionais da Alta Sensibilidade, afirma que eles “têm semelhanças, mas são diferentes entre si”, a ponto de 30% das PAS serem extrovertidas.” 
            Nossa sociedade valoriza pessoas extrovertidas, sociáveis e despreocupadas, o que é muito bom, mas não vê com tão bons olhos quem se mostra mais sensível ou precisa de tempo para fica sozinho. Como escreve Aron, “existe essa pressão para fazer o que todos fazem, para serem normais, manter as aparências, fazer amigos, satisfazer as expectativas de todos...”. Isso faz com que as PAS tenham a sensação de “estar indo contra a corrente porque não gostam do que todo mundo gosta e parece que a cultura não os aceita. Em resumo, “você não consegue se encaixar, por mais que tente”.
Afirma Hancock: “Do mesmo modo que uma pessoa muito sociável também precisa aprender a estar só, uma PAS tem que buscar o ponto médio entre se forçar demais no mundo exterior (assumindo muitas responsabilidades, por exemplo) e se manter longe demais no seu interior. Isso significa que às vezes tem de se proteger demais, “quando na realidade o que deseja é estar fora, no mundo”, como escreve Aron. A psicóloga acrescenta que “talvez o mais difícil de tudo seja decidir até onde se proteger, até onde se forçar”, sem deixar de valorizar uma característica que “proporciona muitas coisas de que os demais carecem”.
Por exemplo, Alcón conta que há sábados em que gosta de ficar em casa com um livro e outros em que sai com os amigos, mas conhecendo seus limites: “Talvez eu chegue um pouco mais tarde e saia antes”, conta. “Trata-se de encontrar o equilíbrio” e favorecer “um entorno de conforto em que você possa ser você mesmo”.
O artigo resume o tema ao final: “Uma amostra interessante de como a cultura molda nossa visão sobre a sensibilidade está em um dado que Aron expõe em seu livro: os porcentuais de homens e mulheres PAS são similares. Mas a psicóloga diz que “a cultura determina diferenças”, principalmente porque (ainda) meninos e meninas tendem a ser tratados de forma diferente no que se refere a sua sensibilidade. No caso dos meninos a tendência é reprimir essa sensibilidade, enquanto no das meninas ela é potencializada e podem chegar a ser superprotegidas.
Esse preconceito cultural se mantém na idade adulta, escreve Elaine Aron. De fato, Manuela Pérez, presidenta da Associação Espanhola de Profissionais da Alta Sensibilidade, explica que em consulta recebe “homens com evidente dificuldade de mostrar essa sensibilidade ou expressar as emoções relacionadas com ela, como o choro ou o medo”.

            Não me considero uma PAS (bem ao contrário), porém posso identificar entre amigos, colegas e conhecidos, pessoas que se encaixam nessa condição. Reconhecer isso certamente me ajuda no relacionamento com elas; posso ser mais cuidadoso, medir um pouco mais as palavras, os gestos, respeitar um comportamento que é bem diferente do meu modo estabanado de ser.





Fortaleza moral



El País Internacional (2 jun 2018) publica trecho adaptado de um discurso de Amos Oz, pronunciado durante conferência do Rompendo o Silêncio. O título é Por que romper o silêncio?
            O discurso é longo e selecionei apenas o primoroso parágrafo – sob ponto de vista político e literário – sobre o significado da “fortaleza moral”: 

“Todos que odeiam o Rompendo o Silêncio deveriam refletir sobre uma coisa, pelo menos por um instante: que a fortaleza moral não é um luxo, sequer um mero adorno. A fortaleza moral é necessária para a sobrevivência de uma nação, uma sociedade e uma pessoa. A fortaleza moral não é uma espécie de joia que guardamos em uma caixa forte e que colocamos apenas em dias bons para ter uma aparência melhor. A fortaleza moral não é uma mercadoria produzida para exportação, que se guarda em uma gaveta, pelo menos até que a guerra termine, até que volte a normalidade e o país viva 40 anos de paz, de forma que só então poderemos brandir nossa reluzente grandeza moral, exibi-la no peito e revelar ao mundo quão maravilhosos somos.
Não. A fortaleza moral, especialmente em tempos de guerra, é tão urgente quanto os primeiros socorros em um campo de batalha. O papel de acusador, às vezes, é semelhante ao do médico ou enfermeiro: seu trabalho é como o do médico que abre um abcesso e extrai o pus, para que não se espalhe nem contamine todo o corpo.”

            Quanto dessas palavras aplicam-se ao Brasil de hoje? Falta fortaleza moral ao povo e aos representantes do povo. Precisaremos de um Amos Oz para romper nosso silêncio?