segunda-feira, 21 de maio de 2018

Flor de aboboreira

fotominimalismo





Foto: AVianna, mai 2018, jardim.

Anunciar um crime





Mildred Hayes (interpretada por Frances McDormand, ganhadora do Oscar 2018 de melhor atriz, e que se tornou conhecida pelo filme Fargo) teve a filha brutalmente assassinada; passa o tempo e a polícia da pequena cidade de Ebbing – EUA, pouco ou nada faz a respeito, o que leva a mãe ao desespero.
Tais fatos ocorrem todos os dias em nossas grandes cidades, tomadas pela violência insana, sem que a maioria dos crimes seja desvendada. Não é coisa só de cinema.
O que fazer diante da tragédia? Mildred decide colocar os três anúncios de outdoor na saída da cidade, denunciando o crime e o delegado de polícia. Para sua surpresa, as pessoas do lugar não ficaram ao lado dela, que passou a ser ainda mais hostilizada e cada vez mais indignada com o desenrolar dos acontecimentos. Ela não desiste e a todos enfrenta com obstinação e fúria.
Também isso pode ocorrer nas nossas cidades: o povo se cansa facilmente de ver e ouvir protestos contra crimes não solucionados.
Martin McDonagh, escritor e diretor do excelente Três anúncios para um crime, trata exatamente das consequências do ato de Mildred, para todas as pessoas afetadas por sua decisão: a família, as pessoas da cidade, a polícia –representada pelo Chefe William Willoughby (Woody Harrelson, em performance indicada ao Oscar 2018 de Melhor Ator Coadjuvante) e o policial Dixon (Sam Rockwell, também indicado ao Oscar 2018 de Melhor Ator Coadjuvante). 
Por aqui, nossa Eliane Brum continua perguntando no Twitter, passados 68 dias, Quem matou Marielle e Anderson?
Foi então que tive a ideia de mandar fazer um gigantesco banner com esta pergunta, 

Quem matou Marielle e Anderson?

fretar um helicóptero, e pendurá-lo no pescoço do Cristo Redentor, para que permanecesse à vista de toda a cidade do Rio de Janeiro.
            As consequências, por certo, dariam um bom filme!
            

domingo, 20 de maio de 2018

Aldravia N. 73





originária
do
deserto
floresce
a
ipomeia-africana


Foto: AVianna mai 2018, jardim

Assinatura geomagnética



Tartarugas marinhas retornam à região onde nasceram
para desovar (Foto: Pixabay)


A reportagem é de Karen Weintraub, para The New York Times(19 Maio 2018), e informa: 
“As tartarugas marinhas usam os campos magnéticos da Terra para voltar ao local onde nasceram décadas antes, de acordo com novo estudo que usou a genética das tartarugas-amarelas para investigar suas viagens.”
O estudo indica que as tartarugas aprenderam a identificar a “impressão magnética única de sua praia natal, por meio de algo chamado assinatura geomagnética.”
“Trata-se de uma informação vital para o objetivo de restaurar as populações de tartarugas marinhas nas áreas que elas habitavam antes de serem caçadas quase até o ponto da extinção", disse Kenneth Lohmann, professor da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, e principal autor do estudo publicado pela Current Biology.”
“As tartarugas podem sentir tanto a intensidade quanto a inclinação dos campos magnéticos em relação à superfície da Terra, de acordo com pesquisas anteriores. Ao usar informações genéticas coletadas anteriormente de mais de 800 tartarugas-amarelas da Flórida, o Dr. Lohmann e Brothers foram capazes de mostrar que havia mais semelhança genética entre tartarugas que fazem seus ninhos em praias com impressões magnéticas semelhantes do que entre aquelas de praias fisicamente próximas entre si.”
“Sabe-se que as tartarugas-amarelas fazem seus ninhos no Golfo da Flórida e na costa do Atlântico, sendo que algumas parecem botar ovos em lados diferentes da península de acordo com o momento de sua vida, disse Brothers. Com os campos magnéticos cortando a península, algumas tartarugas podem cometer erros de orientação, chegando a praias com impressão magnética semelhante à sua praia natal, embora na costa oposta, disse ele.”
O artigo termina com uma hipótese no mínimo surpreendente: “Teoricamente, as tartarugas podem ser incentivadas a botar ovos em determinadas praias se o campo magnético dos filhotes for manipulado para convencê-los que nasceram em outro lugar.”
Nem as tartaruguinhas podem ficar em paz...




quarta-feira, 16 de maio de 2018

Medicina e maconha


O abuso de opióides nos EUA – verdadeiro escândalo – tornou-se caso de saúde pública (ou caso de polícia), responsável, só por overdose, por mais de 60 mil mortes anuais.
             Parece que a origem da epidemia teve a ver com a liberalidade com que médicos americanos passaram a prescrever analgésicos dessa categoria, provavelmente sob a influência da indústria farmacêutica.
            Hélio Schwartsman trata do problema em sua coluna na Folha de S.Paulo de ontem (15.mai.2018), incluindo os usos e abusos da maconha.
           Afirma ele: “Sou totalmente a favor da descriminalização e posterior legalização de todas as drogas, mas, se há uma estratégia de ação que me parece ruim, é a de defender a liberação da maconha com base em suas propriedades medicinais.” 
E completa de forma enfática: “Maconha não é remédio. Ela é uma droga psicoativa especialmente complexa, que produz uma cascata de efeitos no corpo humano. Alguns deles têm usos para a medicina, mas a maioria apenas provoca agravos à saúde dos usuários. De um modo geral, são danos menores, mas, para alguns consumidores com predisposições genéticas, as consequências podem ser devastadoras.”
Ouvimos com frequência afirmações irresponsáveis de que o uso prolongado da maconha não traz malefícios, pois trata-se de droga inócua e “leve”. O desencadeamento de surtos psicóticos, às vezes irreversíveis, provavelmente em pessoas predispostas, tem sido descrito em abundância.
Apoiar-se, pois, no uso medicinal da maconha em certas situações, para defender seu uso recreativo disseminado é o que Schwartaman condena: “Não convém misturar as coisas. Se alguém quer curtir o barato da maconha ou de outra droga, não deveria ser impedido pelo Estado de fazê-lo. Mas também não é o caso de buscar a sanção da medicina para algo que faz muito mais mal do que bem.”
Este blogueiro assina em baixo, mesmo em se tratando de assunto tão controverso.






terça-feira, 15 de maio de 2018

Gabriela e Pantera (Aldravia N.71)





 o
amor
de
Gabriela
por
Pantera



Foto: Paula Vianna, abr 2018

A Veneza de Belo Monte


 “Atingidos pela hidrelétrica, seres humanos vivem alagados por água podre na cidade de Altamira, num cenário pós-apocalíptico (Foto cedida por Lilo Clareto à Amazônia Real)”, publicou Eliane Brum (14/05/2018), sob o título A Veneza de Belo Monte, no site Amazônia Real http://amazoniareal.com.br/a-veneza-de-belo-monte




"Carlos Alves Moraes, ribeirinho que virou pintor de paredes, mostra a porta suspensa por cordas que usa para erguer seus pertences mais importantes quando a casa alaga (Foto cedida por Lilo Clareto à Amazônia Real)"



"Marlene Moraes da Silva tem o sonho recorrente de que ela e os netos morrem afogados durante a cheia (Foto cedida por Lilo Clareto à Amazônia Real)"



"Em casas como esta a água demora a baixar ou nunca baixa (Foto cedida por Lilo Clareto à Amazônia Real)"



"Quando o bairro alaga, as crianças precisam faltar às aulas ou são carregadas nas costas pelos pais através da água (Foto cedida por Lilo Clareto à Amazônia Real)"



"As centenas de crianças do Jardim Independente I correm risco permanente (Foto cedida por Lilo Clareto à Amazônia Real)"



"Os moradores do Jardim Independente 1 só foram reconhecidos como atingidos por Belo Monte em 13 de março de 2018, mas há anos vivem em situação de risco por conta dos impactos da hidrelétrica (Foto cedida por Lilo Clareto à Amazônia Real)"



"Marlene faz tapetes para a casa que um dia espera ter em terra firme (Foto cedida por Lilo Clareto à Amazônia Real)"



"É neste cenário que milhares de pessoas atingidas por Belo Monte resistem e lutam por justiça dia após dia (Foto cedida por Lilo Clareto à Amazônia Real)"



Esta reportagem foi publicada também no site do El País



Superman não salva Lois Lane

  


Quando morre um famoso com 85, 90 ou mesmo 104 anos, como foi o caso do cientista inglês David Goodall, que pediu para morrer, me admiro de como é possível viver tanto mais do que eu, com meus 71. 
Se morre alguém mais novo, como aconteceu ontem com Lois Lane (Margot Kidder), a namorado do Superman, fico pensando como é possível que eu tenha vivido mais do que ela. 
            Que milagre é esse que faz com que eu permaneça vivo nesse mundo de tantas tragédias, de tantas mortes anunciadas pormenorizadamente todos os dias nos noticiários? Tomo alguns remédios, é verdade, fora isso não faço força para permanecer vivo e ainda assim estou vivo.
            Aproximo-me da idade da morte de meu pai. Talvez seja este um limite razoável. Se ultrapassá-lo, poderei experimentar a sensação de ser mais velho que meu próprio pai o foi, estranha sensação que estou a antecipar. Se não alcançar a idade de meu pai, serei para sempre um filho?
            Voltando ao trágico mundo em que vivemos, sou grato à Roda da Fortuna por me ter poupado de facear a morte de um filho, a tragédia das tragédias. Mais uma razão para que eu não abuse da sorte.
            Estas são singelas reflexões sobre a morte e o morrer, tema a que volto repetidamente desde meus tempos de estudante de Medicina, com a diferença de que agora penso minha própria morte.
            Superman não conseguiu evitar a morte do Lois Lane, sua namorada.