terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Mais de Ferreira Gullar


FALAR

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

                        Ferreira Gullar


Do livro Em alguma parte alguma, José Olympio, 2a edição, 2010.

Orides Fontela minimalista

Carta

Da
vida
não se espera resposta.


Mão única

 – é proibido
voltar atrás
e chorar.


Policial

Culpados
ou
cúmplices
nunca temos álibi:

por força, estamos
aqui.


Hamlet

... mais filosofias
que coisas!


                                    Orides Fontela


Do livro Orides Fontela - poesia completa, organização Luis Dolhnikoff, Hedra, 2015.

maior homenagem



desenhou o avô
e na maior homenagem
pintou-o de verde


Desenho feito por Gabriela, 6, após a conquista do Campeonato Brasileiro pelo Palmeiras. E ainda botou cabelo no avô! Ela, louríssima.

paraíso de sabiás



chegada das chuvas
paraíso de sabiás
na mata fechada

Foto: A.Vianna, dez 2016, jardim.

Imprudência poética?



            Há quem afirme, certamente os mais supersticiosos, que um primeiro livro muito bom, magistral mesmo, pode transformar-se em uma terrível sina na vida do autor. Será este o caso de Valter Hugo Mãe?
            Estou a falar, como dizem os portugueses, de o remorso de baltazar serapião, assim mesmo, com minúsculas, vencedor do Prêmio José Saramago de 2007. Não estou certo se foi este o primeiro romance (penso que foi o segundo) do escritor português nascido em Angola, mas é verdade que foi o de maior sucesso, que o projetou internacionalmente.
            O livro foi um escândalo no mundo literário lusófono, ao quebrar regras de gramática e reinventar a língua de forma espetacular. Violento em seu conteúdo, ao descrever uma Idade Média indefinida no tempo, a forma no entanto chegava a beirar a poesia. Um livro inigualável!
            Ups!, aí reside o perigo, neste “inigualável”. Como tornar a escrever depois de uma obra prima logo na (quase) estreia?
            Ao terminar a leitura de o remorso, lembro-me bem do meu entusiasmo; presenteei amigos com exemplares do livro, recomendei-o o quanto pude, estava encantado. De lá para cá, penso que Mãe jamais conseguiu repetir a façanha.
            Até que chegamos ao último romance, quase uma década depois, razão desta crônica: Homens imprudentemente poéticos (Biblioteca azul, 2016).
            Comecemos pela capa da edição brasileira, que parece não ter sido do agrado do autor. Porque é mesmo horrenda! Rosa, com letras em vermelho, e o destaque descomunal para o nome do autor, a ocupar metade da capa. O título do livro, abaixo, sublinhado (?), incluindo um advérbio (?), parece insignificante. A ilustração em azul não ajuda, para dizer o mínimo.
            Bem, se o miolo agradar, o capista estará perdoado. Nesse ponto devo salientar uma questão de ordem pessoal: é provável que minha opinião esteja equivocada, que eu não tenha competência e sensibilidade para apreciar a obra, que a não tenha compreendido, e portanto de nada vale esta minha opinião. E o leitor há de desculpar-me pelo atrevimento.
            Fato é que não gostei do livro. Laurentino Gomes, o prefaciador, fala em linguagem poética: “Sua obra é repleta de poesia e desassombro linguístico”. Desassombro e poesia cabem perfeitamente para descrever o remorso, porém penso que não servem para o livro de que estamos falando.
            Alguns neologismos são insípidos, às vezes sem sentido algum (“monge maturado”, por exemplo). Em vez de poesia há uma espécie de pedantismo linguístico, necessidade mesmo de originalidade.
            Destaco pequeno trecho:

“A negra pessoa coberta oscilava num vento mínimo que parecia soprar de todos os sentidos, como se fosse o ponto concêntrico do movimento do ar. O sombrio dos seus modos subjugava Itaro [um dos protagonistas], que cedia dos joelhos, quase descendo ao chão para uma vénia demasiado vulnerável e veneradora. O artesão ouviu então a voz radial do monge maturado, esse som de toda a parte que se instalava fremindo por instantes, igual a ter cauda, demorar a escapulir-se pelo silêncio. O sábio, na sua inexpressiva máscara, lhe disse: cuidado com as pessoas ubíquas.”

            Julgue o leitor. Certamente haverá quem goste. Mas vamos esperar pelo próximo romance de Valter Hugo Mãe.


Surpresa!

Política sem palavras



Foto: Dida Mendonça /Estadão