segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Indignação


           A foto é do Córrego do Canivete, no Jardim Damasceno, Brasilândia, zona norte de São Paulo. São Paulo!!!
Neuza Souza, 57, cuja casa fica colada ao córrego, conta que “ratazanas do tamanho de gatos sobem pelas paredes e é praticamente impossível colocá-las para fora”,  em reportagem de Vinicius Pereira, para a Folha de S. Paulo de hoje.
Os moradores não sabem dizer o que é pior, se as chuvas, quando o córrego sobe e causa alagamentos, ou a seca, quando o odor de fezes invade as casas, mesmo com janelas fechadas.
Afirmam os moradores que quem mais sofre são as crianças.
Capacidade de indignar-se, eis um sentimento que aos poucos vai sendo perdido nesse país.


Foto: Lalo de Almeida / Folhapress


Superlotação

A foto do dia



Devotos muçulmanos, na volta de evento religioso próximo à cidade de Dhaka, em Bangladesh.

Foto: Munir Uz Zaman / AFP


domingo, 10 de janeiro de 2016

Spotlight



              Abordar o assunto é tão espinhoso quanto relevante. Quando ganha as telas do cinema, então, a repercussão há de se multiplicar, especialmente em se tratando de um ótimo filme. Estou falando de Spotlight, o filme dirigido por Tom McCarthy, baseado em fatos reais, o abuso de crianças por padres católicos.
            A investigação jornalística sobre a pedofilia na Igreja Católica de que trata o filme ocorreu no início dos anos 2000 e rendeu aos jornalistas do Boston Globe o prestigioso Prêmio Pulitzer. À época, a repercussão dos fatos revelados foi gigantesca, atingiu a Igreja em todo o mundo católico, sem poupar o próprio Vaticano. Como não poderia deixar de ser, a Igreja sobreviveu aos escândalos. Quanto às crianças abusadas...
            Mas vamos ao filme. Ele retrata o difícil processo de investigação jornalística, a resistência por parte da Igreja e dos advogados que durante anos defendiam as vítimas e seus familiares, todos interessados em manter os fatos sob sigilo, da própria sociedade católica da cidade de Boston, temerosa em desafiar instituição tão poderosa. Os próprios jornalistas encarregados da investigação, pequeno grupo de quatro profissionais que formavam o “spotlight”, surpreenderam-se ao constatar que eles mesmos haviam recebido a denúncia há muitos anos , sem que prestassem a devida atenção à mesma.
            Penso que o grande mérito do filme reside em apresentar a história da investigação e sua bombástica conclusão de forma quase asséptica, sem arroubos sensacionalistas – nada de cenas explícitas –, sem apelos à emoção fácil, que aqui poderia ser traduzida por indignação, sentimento plenamente justificável em se tratando de crianças traumatizadas, muitas delas para o resto de suas vidas. Mesmo assim, a simples cena de um coro infantil cantando uma canção de Natal no ambiente majestoso de uma catedral á capaz de mobilizar no expectador algum sentimento da ordem do ódio.
            Ignoro se foi esta a intenção do diretor, mas penso que ele dispensou os adjetivos para enaltecer o substantivo, suficientemente forte, capaz de, por si só, prender a atenção da audiência. (Mas não abriu mão de um elenco de altíssima qualidade, que, sem dúvida, coloca o filme entre os melhores do ano.)
            O problema está longe de ser resolvido dentro da Igreja. Esperemos que filmes como Spotlight possam manter o assunto em evidência, em vez de fingirmos todos que ele não existe.
            

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

chuva de verão


beija-flor molhado
jardim em festa agradece
chuva de verão

Foto: A.Vianna, jan 2016

Autoridade e corrupção

Oportuna a crônica de Francisco Daudt de 23/12/2015 na Folha de São Paulo, sob o título de Corrupção da Autoridade.
Quando se fala de corrupção nos dias de hoje, pensa-se em roubo, malversação do dinheiro público, propina, compra e troca de favores, jogo de influência, tudo isso e muito mais em benefício próprio e contra o país. Porém Daudt alerta que “o sentido original da palavra é deterioração, apodrecimento, estrago”.
            Ele passa sem mais delongas a falar da educação dos filhos, tema abordado com frequência neste blog, e afirma que a autoridade desapareceu, as crianças tornaram-se mimadas, e, por consequência, “não se sentem protegidas pela força moral de quem deveria lhes servir de referência”.
Quando do nascimento de um filho, exercemos sobre ele o poder total: decidimos o que ele come, como se veste, a que horas vai para a cama, quando toma banho, tudo, decidimos tudo por ele, porque é preciso. “Nossa melhor autoridade será exercida como a de um déspota esclarecido”, afirma Daudt.
Mas a criança cresce, tem vontade própria e a manifesta a todo momento, tem suas necessidades, aprende rapidamente a pensar, mesmo que no início seja um pensar muito mais voluntarioso do que racional. A questão agora é preservar a autoridade dos pais. Estes, tomados de excessivo amor pelo filho, correm o risco de tornarem-se permissivos, e perder a autoridade. Pobre criança.
O articulista se pergunta sobre o que teria ocorrido com o conceito de autoridade entre nós e enumera dois fatores: uma ditadura militar e uma reviravolta de costumes mundial. “A primeira fez com que autoridade e autoritarismo parecessem sinônimos. ...Vinte e um anos de autoritarismo foram suficientes para que o senso comum absorvesse a ideia de que qualquer exercício de autoridade é abusivo em si. A reviravolta nos costumes teve como ícone o maio de 1968 e seu "é proibido proibir", o advento da pós-modernidade e seu clima de negação de valores, de aversão a qualquer coisa que parecesse hierarquia... e autoridade.”
            O exercício da força, própria do poder de mando da autoridade, pode ser exercida pela intimidação ou pelo saber. Agora Daudt é categórico: “A autoridade de saber é a mais eficaz das autoridades.”
            Penso que assim devem pensar e agir os pais que cuidam de crianças ainda pequenas, tão necessitadas de autoridade, para crescerem neste mundo hostil. Amar também é isso, ou é principalmente isso.