Hélio Schwartsman inicia sua crônica de hoje na Folha
(4/11) com uma pergunta direta e surpreendente: “Qual a melhor coisa que aconteceu à humanidade?”
Cada
leitor haverá de buscar sua própria resposta, em função de uma série de fatores
que influenciam as convicções de cada um, sejam morais, religiosas,
filosóficas, científicas, e outras tantas de origem ignorada pelo próprio
sujeito, porque inconscientes. Haverá lugar também para uma resposta negativa,
dada a abrangência da questão: Não sei!
Eis como
respondeu o nosso articulista:
“Embora
eu padeça de simpatias anarquistas, não hesito em responder que,
historicamente, a maior bênção que caiu sobre nós foi o surgimento de Estados
fortes, com aparelhos repressivos. Foi isso que fez com que as pessoas
contivessem drasticamente o pouco civilizado hábito de matar umas às outras.”
Schwartsman cita como referência a obra
do sociólogo Norbert Elias, "O
Processo Civilizatório" (1939), que afirma:
“...à
medida que o Estado passou a exercer o monopólio da violência, indivíduos foram
se autodomesticando. Aos poucos, foi deixando de ser uma reação normal
assassinar o rival por causa de um insulto, por exemplo. Esse processo de
autocontrole não se limitou à violência, atingindo também outros aspectos da
vida, como o comportamento sexual, as funções corporais e até as maneiras à
mesa.”
Schwartsman baseia-se ainda em taxas de
homicídio ao longo da evolução da humanidade. Em sítios arqueológicos pré-históricos,
60% das ossadas são de pessoas assassinadas. Na Idade da Pedra, 10% a 20%. Nos
grandes impérios da Antiguidade, 2% a 5%. No século 20, 1% a 2%, incluindo as
duas guerras mundiais e genocídios. Na Dinamarca a taxa hoje é de 0,027%.
Surpreendentemente,
Schwartsman, cujos textos apresentam sempre argumentação poderosa, não cita o
outro grande fator responsável pelo chamado processo civilizatório, em meu
ponto de vista: a Religião. Sobre a questão em pauta, mais explícito e
categórico que um dos Dez Mandamentos da Lei de Deus, impossível: Não matarás.
Schwartsman
conclui sua crônica criticando a bancada conservadora do Congresso Nacional, ao
tentar modificar para pior o Estatuto do Desarmamento, e que “esboça um
movimento contrário àquele que possibilitou a mais importante conquista da
civilização”. Este, o ponto central do texto do articulista da Folha.
Acrescento
que esta mesma bancada conservadora, paradoxalmente, toma ao pé-da-letra o
mandamento citado acima e coloca-se contrária ao aborto (até mesmo quando a
gestação é resultado de estupro) e à eutanásia.
Em meu
ponto de vista, são movimentos contrários à civilização.
Caro Professor André Vianna,
ResponderExcluirFiquei muito feliz por encontrá-lo no lançamento de seu último livro. Muito interessante também o seu Blog. Já há muitos anos, e sem saber que o senhor havia enveredado tão fortemente na literatura, que tento estimular meus filhos à leitura, contando uma história que passava de aluno a aluno no curso de Medicina, na UnB. Dizia-se que, na Prova Oral para vaga de Residência em Cirurgia Geral, a primeira pergunta que o senhor fazia ao candidato era: "Que livro você está lendo?" E não valia Guyton, Cecil, tratados de anatomia ou cirurgia. Literatura, sim! Isso é importante! Tenho convicção de que um médico que lê é um médico melhor.
Um grande abraço, de seu aluno,
Fernando Carrusca.
Grato por sua presença no lançamento e por esses seus comentários, Carrusca! Obrigado por visitar o Louco. Concordo com você: um médico que lê é um médico melhor! Forte abraço!
ResponderExcluirUma pessoa que lê é uma pessoa melhor.
ResponderExcluirQuanto à regressão da mortandade do semelhante, não custa lembrar que matar o feto (especialmente se não houver uma razão poderosa, como o risco de vida da mãe, por exemplo) também é matar o semelhante.