segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Da morte de um animal de estimação

 


Blimunda



A morte de um animal de estimação, cadelinha querida, pessoa especial que me acompanhou nos últimos sete anos, me fragiliza de tal maneira que faz aflorar em mim sentimentos ancestrais, do tempo em que a vida do homem era permanentemente ameaçada pela natureza bruta, agressiva, cruel, nada menos que ameaça de morte, de aniquilação. E este homem primitivo, desde os tempos imemoriais, implora por dois tipos de ajuda.

          A primeira e mais imediata solicitação é a presença do ser que se encontra mais próximo, humano ou mesmo animal, alguém que ao menos possa emprestar o calor do corpo e, se possível, alguma manifestação de afeto. Nada mais, nada menos, que a indispensável presença do outro, algo fundamental desde o nascimento.

          O outro apoio, há milênios, vem daquele de ser imaginário, superior e onipotente, capaz de proteger o homem da tenebrosa escuridão da noite, do rugir da tempestade, da devastação dos vulcões e terremotos, da besta-fera que também busca sobreviver. 

          Esse apelo por proteção e sobrevivência ressurge agora em mim, com a morte de um pequenino animal de estimação. Uma frase emerge súbita e intensa, inesperadamente pronta, acabada, vinda de algum lugar desconhecido – talvez do inconsciente mais antigo e profundo –, em forma de oração dodecassilábica:

          – O murmurar de uma fonte é a prece do ateu.

          Aqui estou eu, frágil desprotegido ameaçado pela ideia originária da morte, os sentimentos mais primitivos desencadeados por outra morte, a atestar minha permanente vulnerabilidade. Entretanto, posso pensar. Sofro, mas o sofrimento não mata. Posso então analisar a ideia que me vem como um presente. 

            O murmurejar da fonte é ouvido e sentido como carícia, afeto, calor de gente ou de animal. Em forma de prece, porque vem da pessoa que pede socorro. Porém, ela está intimamente ligada à palavra ateu, inexorável e definitiva, de alguém que já pode re-conhecer a própria fragilidade, admitir a finitude, dispensar – sem arrogância! – a proteção do onipotente e, por fim, admitir que está só no mundo, fator inerente à condição humana. 

            Sofro, posso sentir. A memória que me resta vem em meu auxílio e me informa que não há apenas dor. Permanecem em mim os momentos de felicidade propiciados pela convivência junto ao pequeno animal, que nada pedia além do alimento para a própria subsistência, e tudo ofertava. Essas preciosas lembranças estarão comigo enquanto eu viver. 

            Aos poucos, muito devagar, na medida do tempo geológico, o homem caminha, prossegue na saga da evolução das espécies.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Na guerra, no campo de batalha...

100 anos de José Saramago



 

“Na guerra, no campo de batalha, vemos cair um companheiro, parece às vezes a ferida ligeira, e se o queremos ajudar a erguer-se, os membros desfalecem-lhe, é um corpo morto que mais tarde teremos de enterrar. Outras vezes julgamos que é mortal o golpe, que não há esperança, passamos adiante e contamo-nos um a menos, mas olhamos para o lado e vemos que ele se levantou por suas próprias forças e continua o combate, mesmo deixando atrás de si o sangue. Assim são os amores. Julgamo-los vivos e estão mortos, julgamo-los mortos e estão vivos.”

 

            José Saramago

 

      Que farei com este livro?

 

https://blimunda.josesaramago.org/assim-sao-os-amores/

O último exorcista


 

 

Padre Vanilson da Silva, o último exorcista do Distrito Federal

Foto: Reprodução/Redes sociais

 

 

“Fiéis católicos fazem abaixo-assinado após afastamento de padre exorcista em Brasília” (O Globo, hoje). 

Em Brasília, fiéis católicos fazem abaixo-assinado para que o pe. Vanilson da Silva volte a realizar missas e sessões de exorcismo na capital federal. 

Ele é o último exorcista do Distrito Federal e foi afastado de suas funções pela Arquidiocese de Brasília.

“Na noite desta terça-feira, 1.264 pessoas tinham assinado o documento”, informa a reportagem.

Nota de esclarecimento assinada pelo Gabinete Episcopal informa que "em breve será oportunamente nomeado outro sacerdote para a função de exorcista".

 

Ou seja, o Demônio continua solto em Brasília! E eu nem sabia que ele ainda existia.

 

 

https://oglobo.globo.com/brasil/fieis-catolicos-fazem-abaixo-assinado-apos-afastamento-de-padre-exorcista-em-brasilia-25396283?utm_source=Twitter&utm_medium=Social&utm_campaign=O%20Globo

Na Rússia

Charge do dia 


Amarildo

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Um pouco de teoria

100 anos de Semana de Arte Moderna

 



 

“Um pouco de teoria?

Acredito que o lirismo, nascido no

subconsciente, acrisolado num pensamento claro

ou confuso, cria frases que são versos inteiros,

sem prejuízo de medir tantas sílabas, com

acentuação determinada.

entroncamento é sueto para os condenados da

prisão alexandrina. Há porém raro exemplo dele

este livro. Uso de cachimbo...

 

A inspiração é fugaz, violenta. Qualquer

empecilho a perturba e mesmo emudece. Arte,

que, somada a Lirismo, dá Poesia, não

consiste em prejudicar a doida carreira do

estado lírico para avisá-lo das pedras e cercas

de arame no caminho. Deixe que tropece, caia

e se fira. Arte é montar mais tarde o poema de

repetições fastientas, de sentimentalidades

românticas, de pormenores inúteis ou

inexpressivos.”

 

            Mário de Andrade

            Pauliceia desvairada

            In Prefácio interessantíssimo, p. 39-40

            De Pauliceia desvairada a lira paulistana

            Ed. Martin Claret, 2016