sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Morre um poeta

 

 

Morreu nesta sexta-feira (14 jan 2022), em casa, o poeta amazonense Thiago de Mello, aos 95 anos. Suas obras foram traduzidas para mais de 30 idiomas. No ano passado ele foi homenageado pela Bienal de São Paulo. 

            Guardo dele em minha fraca memória, fragmento do poema O livro, que reproduzo aqui em sua homenagem.

 

“Como nunca morri, não sei da morte.

Da vida sei, e tanto sei, que faço

com este verso uma declaração

de amor, talvez de queixa: ela é que vem

de mim se despedindo devagar,

fatigada de mim, enquanto agarro,

com as garras de todos os sentidos,

o que ela ainda me dá, sempre encantada.”

 

        Thiago de Mello

De uma vez por todas

Civilização brasileira, 1996, p. 32.

Cavaleiro com elmo coríntio



 
Bronze originário da Grécia, 560-550 a.C. 
(British Museum)

“E se, observando as origens da arte, chegarmos a conhecer a sua função inicial, não verificaremos também que essa função inicial se modificou e que novas funções passaram a existir?”

 

                        Ernest Fischer, A necessidade da arte

                        Zahar Editores, 1983 (p.12)

JAMES WEBB hoje!

 


JAMES WEBB
"Estou atualmente a 1.229.000 quilômetros de distância da Terra. Ainda falta eu percorrer 271 mil quilômetros para eu chegar ao meu local de trabalho. um ponto de Lagrange L2 - um local gravitacionalmente estável no espaço. Já concluí mais de 84% de minha viagem."

O capacho

Charge do dia


 Claudio Mor

Saramago em Esperanto

100 anos de Saramago


Casa dos bicos, Lisboa

 

Segundo informa a Fundação José Saramago, os livros do autor estão traduzidos nos seguintes idiomas:

albanês, alemão, árabe, azerbaijano, bengali, búlgaro, cantonês, castelhano, catalão, checo, coreano, croata (alfabeto latino), dinamarquês, eslovaco, esloveno, Esperanto, euskera, farsi, finlandês (suomi), francês, georgiano, grego, hebraico, hindi, holandês, húngaro, inglês, islandês, italiano, japonês, letão, lituano, malabar, malaio, mandarim, norueguês, polaco, romeno, russo, sardo, sérvio (alfabeto cirílico), sueco, tailandês, tamil, turco, ucraniano, valenciano e vietnamita.




            Tenho o imenso prazer de registrar que O conto da ilha desconhecida, de autoria de José Saramago, foi traduzido para o Esperanto pelo Dr. Paulo Sergio Viana, irmão ilustre deste blogueiro. 

            A tradução foi realizada sem qualquer fim lucrativo e autorizada pelo próprio Saramago, em troca de e-mails com o tradutor. Há um exemplar do livro na Casa dos Bicos, em Lisboa, sede da Fundação José Saramago. Para orgulho de muitos brasileiros!

 

https://www.josesaramago.org/biografia/

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Seu Afonso, Sérgio Rodrigues e o anglicismo

 


Houaiss

 

De pouca gente me lembro com tanta afeição e carinho quanto de meu antigo professar de Português, Seu Afonso, como era chamado. Estávamos no final dos anos 50 e a escola era o renomado Instituto de Educação “Conselheiro Rodrigues Alves”, em Guaratinguetá, SP. 

            Seu Afonso era de um rigor insuperável. Somava, em sua caderneta, décimos e centésimos de pontos atribuídos ao desempenho dos alunos em atividades como leitura mensal de livro, o decorar semanal de um poema, as temidas redações, o comparecimento à sessão do Grêmio Literário, até chegar à nota final. (No início do curso ginasial ele me prestou o favor de me deixar em segunda época; no exame final, fui aprovado.)

            Aprendi com ele que não se devia fazer uso de anglicismos, ou de estrangeirismos de qualquer espécie. Ai de quem...

            Hoje voltei ao Houaiss, só para confirmar o uso de anglicismo: “acepção de determinada palavra de nossa língua que é exótica, em relação às acepções vernáculas registradas durante a sua evolução no português, por ter sido tomada recentemente de empréstimo ao inglês (p.ex.: dramático, no sentido de grande, assombroso, incrível, notável  [alterações dramáticas]; assumir, no sentido deter como certo, imaginar, admitir, supor, calcular, crer  [assumi que já havia conseguido o emprego]; realizar, no sentido de dar-se conta de, perceber [só então realizei o engano em que incorrera] etc.)”.  

            Até hoje gosto desse uso ‘purista’ da língua portuguesa, que Seu Afonso me ensinou a amar. Gostava. Hoje aprendi com Sérgio Rodrigues, mestre da Língua Brasileira, que as coisas não se passam bem assim. Em sua crônica Testei positivo para anglicismo, para a Folha de S. Paulo (12 jan 2022), ele afirma: 

 

“O fenômeno teve início alguns anos antes, mas a pandemia de Covid deu o empurrão que faltava para espalhá-lo pelo mundo, língua atrás de língua: a construção "testar positivo (ou negativo)", com essa sintaxe importada do inglês, é mais contagiosa do que a ômicron. Eu já sabia disso em tese, mas só depois de testar positivo para Covid, domingo passado, compreendi melhor a questão. Dar a notícia a um monte de gente – por escrito ou por telefone, meu isolamento é total – me fez ver que, entre outros parangolés como o imperialismo linguístico, está em jogo a economia expressiva. Ah, o abismo entre "testei positivo" (construção decalcada do inglês) e "fiz um teste e o resultado foi positivo" (construção respeitosa da sintaxe portuguesa) não parece tão grande?”

            

            E Sérgio (me considero íntimo dele, de tanto que o leio, daí este tratamento tipo assim “meu chapa”) arremata:

 

“... a funcionalidade de uma fórmula sucinta como "testar positivo" vai além da oralidade – a ponto de, como parece ser o caso, acabar falando mais alto do que o impulso de conservação das estruturas vernaculares. ...estamos em terreno difícil –mais do que polêmico, o tema é escorregadio, movediço. No fundo há uma única diferença entre o modismo estrangeirista bocó e o estrangeirismo que, maneiro e fecundo, logo deixa de ser percebido como tal: este pegou, aquele não.”

 

            Seu Afonso que me perdoe, mas quando a palavra “pega”, pega mesmo!    

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sergio-rodrigues/

 

Total obediência às regras

Fotografia 


Twitter: Ra'afat @raafat_saleh


Para ler mais sobre enquadramento e Regra dos terços, clique em:



Eu minto muito...

Charge do dia 



Amarildo

eu tenho um cão que chora


eu tenho um cão que chora

pelos séculos e milhas

que nos separam 

pranteia um lamento triste

intermitente

desconsolado

choro infantil da perda irremediável

da amarga desesperança

do abandono mais sombrio

diz o seu gemido

que a distância 

mesmo momentânea

o torna infeliz para todo o sempre

 

até que nos reencontramos

e o êxtase se restabelece

em forma de olhar e estremecimento

 

meu cão que chora tem alma de menino

será ele um pouco gente?

serei eu um pouco cão?

 


                    Paulo Sergio Viana



https://blogdopaulosergioviana.blogspot.com/2021/12/eu-tenho-um-cao-que-chora.html

 

As palavras são assim...

100 anos de Saramago 



“As palavras são assim, disfarçam muito, vão-se juntando umas com as outras, parece que não sabem aonde querem ir, e de repente, por causa de duas ou três, ou quatro que de repente saem, simples em si mesmas, um pronome pessoal, um advérbio, um verbo, um adjectivo, e aí temos a comoção a subir irresistível à superfície da pele e dos olhos, a estalar a compostura dos sentimentos, às vezes são os nervos que não podem aguentar mais, suportaram muito, suportaram tudo, era como se levassem uma armadura, diz-se A mulher do médico tem nervos de aço, e afinal a mulher do médico está desfeita em lágrimas por obra de um pronome pessoal, de um advérbio, de um verbo, de um adjectivo, meras categorias gramaticais, meros designativos, como o são igualmente as duas mulheres mais, as outras, pronomes indefinidos, também eles chorosos, que se abraçam à da oração completa, três graças nuas sob a chuva que cai.”


            José Saramago

            Ensaio sobre a cegueira



https://www.josesaramago.org