Charge do dia
sexta-feira, 14 de janeiro de 2022
Saramago em Esperanto
Segundo informa a Fundação José Saramago, os livros do autor estão traduzidos nos seguintes idiomas:
albanês, alemão, árabe, azerbaijano, bengali, búlgaro, cantonês, castelhano, catalão, checo, coreano, croata (alfabeto latino), dinamarquês, eslovaco, esloveno, Esperanto, euskera, farsi, finlandês (suomi), francês, georgiano, grego, hebraico, hindi, holandês, húngaro, inglês, islandês, italiano, japonês, letão, lituano, malabar, malaio, mandarim, norueguês, polaco, romeno, russo, sardo, sérvio (alfabeto cirílico), sueco, tailandês, tamil, turco, ucraniano, valenciano e vietnamita.
Tenho o imenso prazer de registrar que O conto da ilha desconhecida, de autoria de José Saramago, foi traduzido para o Esperanto pelo Dr. Paulo Sergio Viana, irmão ilustre deste blogueiro.
A tradução foi realizada sem qualquer fim lucrativo e autorizada pelo próprio Saramago, em troca de e-mails com o tradutor. Há um exemplar do livro na Casa dos Bicos, em Lisboa, sede da Fundação José Saramago. Para orgulho de muitos brasileiros!
quinta-feira, 13 de janeiro de 2022
Seu Afonso, Sérgio Rodrigues e o anglicismo
De pouca gente me lembro com tanta afeição e carinho quanto de meu antigo professar de Português, Seu Afonso, como era chamado. Estávamos no final dos anos 50 e a escola era o renomado Instituto de Educação “Conselheiro Rodrigues Alves”, em Guaratinguetá, SP.
Seu Afonso era de um rigor insuperável. Somava, em sua caderneta, décimos e centésimos de pontos atribuídos ao desempenho dos alunos em atividades como leitura mensal de livro, o decorar semanal de um poema, as temidas redações, o comparecimento à sessão do Grêmio Literário, até chegar à nota final. (No início do curso ginasial ele me prestou o favor de me deixar em segunda época; no exame final, fui aprovado.)
Aprendi com ele que não se devia fazer uso de anglicismos, ou de estrangeirismos de qualquer espécie. Ai de quem...
Hoje voltei ao Houaiss, só para confirmar o uso de anglicismo: “acepção de determinada palavra de nossa língua que é exótica, em relação às acepções vernáculas registradas durante a sua evolução no português, por ter sido tomada recentemente de empréstimo ao inglês (p.ex.: dramático, no sentido de grande, assombroso, incrível, notável [alterações dramáticas]; assumir, no sentido deter como certo, imaginar, admitir, supor, calcular, crer [assumi que já havia conseguido o emprego]; realizar, no sentido de dar-se conta de, perceber [só então realizei o engano em que incorrera] etc.)”.
Até hoje gosto desse uso ‘purista’ da língua portuguesa, que Seu Afonso me ensinou a amar. Gostava. Hoje aprendi com Sérgio Rodrigues, mestre da Língua Brasileira, que as coisas não se passam bem assim. Em sua crônica Testei positivo para anglicismo, para a Folha de S. Paulo (12 jan 2022), ele afirma:
“O fenômeno teve início alguns anos antes, mas a pandemia de Covid deu o empurrão que faltava para espalhá-lo pelo mundo, língua atrás de língua: a construção "testar positivo (ou negativo)", com essa sintaxe importada do inglês, é mais contagiosa do que a ômicron. Eu já sabia disso em tese, mas só depois de testar positivo para Covid, domingo passado, compreendi melhor a questão. Dar a notícia a um monte de gente – por escrito ou por telefone, meu isolamento é total – me fez ver que, entre outros parangolés como o imperialismo linguístico, está em jogo a economia expressiva. Ah, o abismo entre "testei positivo" (construção decalcada do inglês) e "fiz um teste e o resultado foi positivo" (construção respeitosa da sintaxe portuguesa) não parece tão grande?”
E Sérgio (me considero íntimo dele, de tanto que o leio, daí este tratamento tipo assim “meu chapa”) arremata:
“... a funcionalidade de uma fórmula sucinta como "testar positivo" vai além da oralidade – a ponto de, como parece ser o caso, acabar falando mais alto do que o impulso de conservação das estruturas vernaculares. ...estamos em terreno difícil –mais do que polêmico, o tema é escorregadio, movediço. No fundo há uma única diferença entre o modismo estrangeirista bocó e o estrangeirismo que, maneiro e fecundo, logo deixa de ser percebido como tal: este pegou, aquele não.”
Seu Afonso que me perdoe, mas quando a palavra “pega”, pega mesmo!
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sergio-rodrigues/
Total obediência às regras
Fotografia
eu tenho um cão que chora
eu tenho um cão que chora
pelos séculos e milhas
que nos separam
pranteia um lamento triste
intermitente
desconsolado
choro infantil da perda irremediável
da amarga desesperança
do abandono mais sombrio
diz o seu gemido
que a distância
mesmo momentânea
o torna infeliz para todo o sempre
até que nos reencontramos
e o êxtase se restabelece
em forma de olhar e estremecimento
meu cão que chora tem alma de menino
será ele um pouco gente?
serei eu um pouco cão?
Paulo Sergio Viana
https://blogdopaulosergioviana.blogspot.com/2021/12/eu-tenho-um-cao-que-chora.html
As palavras são assim...
100 anos de Saramago
“As palavras são assim, disfarçam muito, vão-se juntando umas com as outras, parece que não sabem aonde querem ir, e de repente, por causa de duas ou três, ou quatro que de repente saem, simples em si mesmas, um pronome pessoal, um advérbio, um verbo, um adjectivo, e aí temos a comoção a subir irresistível à superfície da pele e dos olhos, a estalar a compostura dos sentimentos, às vezes são os nervos que não podem aguentar mais, suportaram muito, suportaram tudo, era como se levassem uma armadura, diz-se A mulher do médico tem nervos de aço, e afinal a mulher do médico está desfeita em lágrimas por obra de um pronome pessoal, de um advérbio, de um verbo, de um adjectivo, meras categorias gramaticais, meros designativos, como o são igualmente as duas mulheres mais, as outras, pronomes indefinidos, também eles chorosos, que se abraçam à da oração completa, três graças nuas sob a chuva que cai.”
José Saramago
Ensaio sobre a cegueira









