Política sem palavras
quinta-feira, 23 de dezembro de 2021
quarta-feira, 22 de dezembro de 2021
Bebê Yingliang
Na foto de baixo, ilustração do "bebê Yingliang",
embrião de dinossauro encontrado em Ganzhou, China
University of Birmingham/AFP
WASHINGTON (EUA) / AFP: “Cientistas anunciaram nesta terça-feira (21) a descoberta de um embrião de dinossauro perfeitamente preservado, que data ao menos de 66 milhões de anos atrás e que se preparava para sair do ovo. O fóssil foi encontrado em Ganzhou, no sul da China, e pertence a um dinossauro terópode sem dentadura, ou ovirraptossauro, que os cientistas chamaram de "bebê Yingliang".”
O embrião se encontra com “a cabeça posicionada debaixo do corpo, os pés dos dois lados e as costas encurvadas, uma postura que não tinha sido observada antes em dinossauros, mas que é similar às das aves modernas.”
“Nas aves, este comportamento é controlado pelo sistema nervoso central e se chama "dobramento". Os pintinhos que se preparam para sair do ovo põem a cabeça debaixo da asa direita para mantê-la estável enquanto quebram a casca com seus bicos. Os embriões que não conseguem fazer esta posição têm mais chances de morrer por uma eclosão fracassada. Isso indica que tal comportamento nas aves modernas primeiro evoluiu entre os dinossauros, seus ancestrais. Uma alternativa a este dobramento poderia ser similar ao que os crocodilos modernos fazem. Eles se posicionam como se estivessem sentados, com a cabeça inclinada na direção do peito, para eclodir.”
“O "bebê Yingliang" tem 27 centímetros de comprimento da cabeça até a cauda e se encontra dentro de um ovo de 17 centímetros no Yingliang Stone Nature History Museum.”
“Os pesquisadores acreditam que a criatura tenha entre 66 e 72 milhões de anos e provavelmente pôde ser preservada quando o ovo ficou enterrado como consequência de uma enxurrada, protegendo-o dos animais carniceiros por tanto tempo. Ela teria crescido até os dois ou três metros de comprimento se chegasse à idade adulta e provavelmente teria se alimentado de plantas.”
Ainda há quem duvide da evolução das espécies. E há quem acredite no criacionismo.
O balanço – Conto de Natal
A menina Gabriela costumava se balançar à sombra do abacateiro. Mais alto, vô, mais alto, vô! E ela ria da felicidade mais pura porque infantil.
A mãe a levou para longe, veio a pandemia, há dois anos não vejo Gabriela. Dois anos sem ir a Paris não é muito tempo, dois anos sem ver Gabriela é uma eternidade. Há quatro dias do Natal, meu papai-noel será a visita de Gabriela, o melhor presente do mundo. Preciso conter minhas expectativas pois não estou certo de qual Gabriela virá me visitar.
Ela saiu daqui uma menina e volta a mocinha que eu não conheço. Também eu não serei o mesmo, não poderei acompanhá-la nas cambalhotas dentro da piscina. (Nem mesmo estou certo se ela ainda dará cambalhotas na piscina.) Após dois anos a mocinha será outra pessoa; em dois anos eu estou apenas mais velho e mais rabugento. (Não espero que a visita de Gabriela melhore minha dor na coluna.)
Será um acontecimento extraordinário esse nosso reencontro. Para comemorá-lo, há alguns meses penso em dar um presente à moça Gabriela. Não desejo lhe ofertar algo completamente novo, moderno, da moda ou tecnológico, porque isso eu nem saberia fazer. Quero lhe dar um presente que de alguma forma traga à memória da menina o avô que a balançava à sombra do abacateiro. Assim ela poderá reconhecer o avô que dava cambalhotas com ela na piscina, mas isso também já não poderei fazer. De minha feita, haverei de reconhecer a neta com quem brincava de casinha.
Resolvi lhe fazer um balanço novo, ainda à sombra do velho abacateiro. (O antigo balanço, por desuso, deteriorou; as cordas apodreceram com a alternância das chuvas e das secas, a madeira do assento rachou.) Quando uma criança vê um balanço em um parque, ela corre para ele, na mais pura felicidade infantil. O adulto, quando vê um balanço em um parque, se não corre a experimentá-lo, o impulso será mesmo de fazê-lo. Bom sinal! Sinal de que a criança vive nele.
Pensei então que, ao ver o novo balanço ainda à sombra do abacateiro, a mocinha Gabriela poderá correr para ele, rindo rindo rindo, Me balança, vô, mais alto, vô! Minha esperança é de que a criança não tenha se afetado tanto assim pela terrível pandemia. (Tenho perdido o sono durante as últimas madrugadas. Hoje aproveitei o silêncio da noite para escrever este pequeno conto de Natal, em homenagem ao meu pai; nessa época do ano ele pedia aos filhos que todos escrevêssemos um conto de Natal, o que ninguém fazia.)
Se a moça Gabriela preserva a criança dentro dela, haverá de correr para o balanço. Então terei ganho outro presente, maior ainda que a própria visita de Gabriela. Sonhar é a maneira de preservar em mim o menino que fui um dia. Se acontecer, serão duas crianças a brincar no novo balanço, presente de Natal.
terça-feira, 21 de dezembro de 2021
A figura do Narrador em Flaubert, Llosa e Saramago
Mario Vargas Llosa escreveu hoje (21) para O Estado de S.Paulo: “Em algum momento do século passado, cheguei a Paris e no mesmo dia comprei um exemplar de Madame Bovary numa livraria do Quartier Latin chamada Joie de lire. Depois de passar a maior parte da noite lendo, ao amanhecer já sabia o tipo de escritor que queria ser e, graças a Flaubert, estava começando a aprender todos os segredos da arte do romance.”
Trata-se de um depoimento importante, de um dos monstros sagrados da literatura da América Latina. Diz ele:
“Ninguém deu maior ímpeto ao gênero romance que o solitário de Croisset. Ele descobriu que o narrador era o personagem mais importante que o romancista podia criar, e que este poderia ser um narrador impessoal que sabia de tudo - uma imitação de Deus Pai - ou um contador personagem, e que estes podiam ser vários e diversos. Desse modo, Flaubert criou o romance moderno e lançou as bases daquilo que, anos depois, seriam os infinitos arranjos e figuras inventadas por James Joyce para dotar o romance e diferenciá-lo do passado, dos clássicos.” (Tradução de Renato Prelorentzou)
Na Revista Ler #38 (Primavera/Verão de 1997), José Saramago publica o ensaio "O autor como narrador", causando certa polêmica ao acrescentar importante contribuição à ideia do que seria o verdadeiro papel de um narrador. Reproduzo aqui alguns trechos do brilhante ensaio, respeitando a escrita de Portugal utilizada pelo autor.
“...a minha ousada declaração de que a figura do narrador não existe, e de que só o autor exerce função narrativa real na obra de ficção, qualquer que ela seja, romance, conto ou teatro. E quando, indo procurar auxílio a uma duvidosa ou, pelo menos, problemática correspondência das artes, argumento que entre um quadro e a pessoa que o contempla não há outra mediação que não seja a do respectivo autor, e portanto não é possível identificar ou sequer imaginar, por exemplo, a figura de um narrador na Gioconda ou na Parábola dos Cegos, o que se me responde é que, sendo as artes diferentes, diferentes teriam igualmente de ser as regras que as traduzem e as leis que as governam. Esta peremptória resposta parece querer ignorar o facto, fundamental no meu entender, de que não há, objectivamente, nenhuma diferença essencial entre a mão que guia o pincel ou o vaporizador sobre a tela, e a mão que desenha as letras sobre o papel ou as faz aparecer no ecrã do computador, que ambas são, com adestramento e eficácia similares, prolongamentos de um cérebro, ambas instrumentos mecânicos e sensitivos capazes de composições e ordenações sem mais barreiras ou intermediários que os da fisiologia e da psicologia.”
“Nesta contestação, claro está, não vou ao ponto de negar que a figura do que denominamos narrador possa ser demonstrada no texto, ao menos, com o devido respeito, segundo uma lógica bastante similar à das provas definitivas da existência Deus formuladas por Santo Anselmo... Aceito, até, a probabilidade de variantes ou desdobramentos de um narrador central, com o encargo de expressarem uma pluralidade de pontos de vista e de juízos considerada útil à dialéctica dos conflitos. A pergunta que me faço é se a obsessiva atenção dada pelos analistas de texto a tão escorregadias entidades, propiciadora, sem dúvida, de suculentas e gratificantes especulações teóricas, não estará a contribuir para a redução do autor e do seu pensamento a um papel de perigosa secundaridade na compreensão complexiva da obra.”
... "O escritor de histórias, manifestas ou disfarçadas, é portanto um mistificador: conta histórias e sabe que elas não são mais do que umas quantas palavras suspensas no que eu chamaria o instável equilíbrio do fingimento, palavras frágeis, assustadas pela atracção de um não-sentido que constantemente as empurra para o caos de códigos cuja chave a cada momento ameaça perder-se.”
“Muito pelo contrário: o autor está no livro todo, o autor é todo o livro, mesmo quando o livro não consiga ser todo o autor. Não foi simplesmente para chocar a sociedade do seu tempo que Gustave Flaubert declarou que Madame Bovary era ele próprio. Parece-me, até, que, ao dizê-lo, não fez mais do que arrombar uma porta desde sempre aberta. Sem faltar ao respeito devido ao autor de Bouvard et Pécuchet, poder-se-ia mesmo dizer que uma tal afirmação não peca por excesso, mas por defeito: faltou a Flaubert acrescentar que ele era também o marido e os amantes de Emma, que era a casa e a rua, que era a cidade e todos quantos, de todas as condições e idades, nela viviam, casa, rua e cidade reais ou imaginadas, tanto faz. Porque a imagem e o espírito, o sangue e a carne de tudo isto, tiveram de passar, inteiros, por uma só pessoa: Gustave Flaubert, isto é, o autor, o homem, a pessoa. Também eu, ainda que sendo tão pouca coisa em comparação, sou a Blimunda e o Baltasar de Memorial do Convento, e em O Evangelho Segundo Jesus Cristo não sou apenas Jesus e Maria Madalena, ou José e Maria, por-que sou também o Deus e Diabo que lá estão..."
E Saramago conclui: "O que o autor vai narrando nos seus livros é, tão-somente, a sua história pessoal, Não o relato da sua vida, não a sua biografia, quantas vezes anódina, quantas vezes desinteressante, mas uma outra, a secreta, a profunda, a labiríntica, aquela que com o seu próprio nome dificilmente ousaria ou saberia contar. Talvez porque o que há de grande em cada ser humano seja demasiado grande para caber nas palavras com que ele a si mesmo se define e nas sucessivas figuras de si mesmo que povoam um passado que não é apenas seu, e por isso lhe escapará sempre que tentar isolá-lo e isolar-se nele. Talvez, também, porque aquilo em que somos mesquinhos e pequenos é a tal ponto comum que nada de novo poderia ensinar a esse outro ser pequeno e grande que é o leitor. Finalmente, talvez seja por alguma destas razões que certos autores, entre os quais julgo dever incluir-me, privilegiem, nas histórias que contam, não a história que vivem ou viveram, mas a história da sua própria memória, com as suas exactidões, os seus desfalecimentos, as suas mentiras que também são verdades, as suas verdades que não podem impedir-se de ser mentiras. Bem vistas da coisas, sou só a memória que tenho, e essa é a história que conto. Omniscientemente.”
“Quanto ao narrador, que poderá ele ser senão uma personagem a mais de uma história que não é a sua?"
Temos aqui as opiniões de três gigantes da literatura mundial: Flaubert, Llosa e Saramago. É bastante educativo poder compará-las. Sem contar a delícia que é reler José Saramago, o nosso Nobel da Língua Portuguesa.
https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,duzentos-anos,70003932112
http://desaramago.blogspot.com/2016/05/o-autor-como-narrador-jose-saramago.html
segunda-feira, 20 de dezembro de 2021
Pieter de Hooch
Meus quadros favoritos
Pieter de Hooch nasceu em Roterdã (1629) e faleceu em Amsterdã (1684). Destacou-se como um pintor de género, durante o Século de Ouro dos Países Baixos. Pintou com frequência cenas domésticas com mulheres e crianças. Foi contemporâneo de Johannes Vermeer, cujas obras retratavam o mesmo tema.
domingo, 19 de dezembro de 2021
sábado, 18 de dezembro de 2021
Demenciação
Quando o conceituado Dicionário inFormal aceitou a palavra Demenciação, por sugestão dele próprio, pensou que não estava tão demente assim; ou não.
A palavra Demenciação
Em setembro do ano passado este blog inaugurou o marcador Diário da Demenciação, com postagem que leva o mesmo nome. (https://loucoporcachorros.blogspot.com/2020/09/diario-da-demenciacao.html#comment-form)
Desde então foram publicados mais cinco textos sobre o tema. Foi então que o autor, por curiosidade, amor às palavras, ou falta do que fazer, resolveu consultar o dicionário sobre o exato significado da palavra ‘demenciação’. Para sua surpresa, consulta após consulta, nos mais diferentes dicionários, físicos e virtuais, a palavra não foi encontrada.
Encontra-se em todos eles a palavra ‘dementação’: s.f. ato ou efeito de dementar ou dementar-se; enlouquecimento, demência. (https://www.meudicionario.org/dementação)
O Houaiss registra ‘dementação’: s.f. ato ou efeito de dementar. Nada de ‘demenciação’. A fotografia do dicionário físico comprova tal afirmação.
O próprio VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, registra apenas a forma ‘dementação’. (https://www.academia.org.br/nossa-lingua/busca-no-vocabulario)
Aulete digital: dementação, s.f. ato de dementar. Nada de ‘demenciação’. (https://www.aulete.com.br/dementação)
Não reproduzo aqui toda a obsessiva busca para não maçar ainda mais meu eventual leitor. A palavra ‘demenciação’ não existe. Até mesmo o Dicionário inFormal, que prima pela largueza de conceitos, bem além dos dicionários tradicionais, não a registra.
O próprio Dicionário inFormal se define como: “O dicionário de português gratuito para internet, onde as palavras são definidas pelos usuários. Uma iniciativa de documentar on-line a evolução do português. Não deixe as palavras passarem em branco, participe definindo o seu português!”
Mil vezes escrevi nesse blog que uma sugestão minha – a palavra Avencário – foi aceita por este dicionário, do que muito me gabo, bobo que sou de amor às palavras. Pois resolvi sugerir Demenciação.
Alguém, não sei informar se uma ou mais pessoas, se uma comissão, analisa a sugestão e envia a resposta, depois de algumas semanas.
Hoje, ao acessar o site, encontrei:
Significado de Demenciação Por André Vianna (DF) em 26-11-2021.
Incluindo o emprego da palavra, sugerido por mim, e por experiência própria:
"Aos 70 anos de idade, ele pode identificar em si próprio o processo de demenciação."
Ganhei meu dia! Como se diz em Minas Gerais, mais vale um gosto que um caminhão de abóboras.

















