terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Mulher com guarda-chuva

Meus quadros favoritos 


Henri Matisse, 1920

Questão de Educação

 

Rei Juan Carlos I posa diante de elefante 

Reprodução/Jornal El Mundo/VEJA

 

 

Nesta terça-feira (14 dez 2021), há previsão de que a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) coloque na pauta da Comissão de Meio Ambiente projeto de lei que autoriza a caça esportiva no Brasil. Parece que a desculpa utilizada para disfarçar a iniciativa é o controle da proliferação de javalis, porém abre-se assim a possibilidade para a liberação do abate de outras espécies.

            É difícil acreditar que em pleno século 21, vivendo a benfazeja onda ecológica que varre o planeta nos últimos anos, alguém venha falar em caça esportiva! Matar por esporte!

            Em 2012, Juan Carlos I, rei de Espanha, passava férias na África. Sofre acidente em Botsuana, fratura o quadril e ganha as manchetes de todo o mundo, quando se descobre a verdadeira motivação da viagem: Juan Carlos Caçava Elefantes! A indignação foi geral, ocasionando grave crise na monarquia espanhola. Havia ainda um agravante: o monarca, de 74 anos, era presidente de honra em seu país da WWF, uma das maiores ONGs ambientalistas do mundo. 

Minha indignação à época, me lembro bem, faz com que ainda hoje eu coloque a fatídica fotografia no alto dessa postagem. A foto era antiga, de 2006, portanto de um safari anterior; a diversão real era um hábito.

O rei matava por prazer. Me lembro ainda de pensar que, sendo rei, aquele homem tivera todas as oportunidades possíveis para bem se educar, coisa que não acontece com a grande maioria dos mortais que não vêm ao mundo com sangue azul. Pois ele não se educou, recebeu apenas o verniz da polidez. 

Esperemos pela nova fotografia – o herói nacional ao lado da presa abatida, quem sabe uma onça pintada –, caso o projeto de lei da deputada Zambelli seja aprovado.

Como tudo na vida, esta também é uma questão de Educação.

            

Manda quem pode

Charge do dia


 Amarildo

Um simples peso

 


Este peso (stoneweight, em inglês), esculpido em hematita, na forma de um gafanhoto, foi feito entre 1800 e 1700 AC, na Babilônia.

Alguém dirá que isso não é uma obra de arte?

 

stone é uma unidade de massa usada somente no sistema imperial do Reino Unido, embora usada também por outros países da Commonwealth. É igual a 14 libras, ou seja 6,35029318 quilogramas, a que corresponde o peso aproximado de 62,3 newtons. Se abrevia st, e suas equivalências são:

O "stone" foi usado historicamente para pesar os artigos agrícolas. Por exemplo: vendiam-se as batatas tradicionalmente em stones e meios stones (14 libras e 7 libras respetivamente). Historicamente o número de libras num "stone" variou por causa do artigo a ser medido, pois não era o mesmo em todas as vezes e lugares. 

O "stone" também demonstra uma certa quantidade ou peso de alguns artigos. Um "stone" de carne, em Londres, é igual a oito libras; em Hertfordshire, doze libras; na Escócia, dezesseis libras.

Se os ingleses podem complicar, eles complicam mesmo!

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Stone_(massa)

 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Santa Catarina de Alexandria, por Caravaggio

 Meus quadros favoritos



“Santa Catarina de Alexandria é uma pintura de 1598-1599 do mestre do barroco Michelangelo Merisi da Caravaggio, que se encontra atualmente no Museu Thyssen-Bornemisza, em Madrid. A pintura fez parte da colecção do cardeal Francesco Maria Del Monte; Santa Catarina de Alexandria, juntamente com Santa Maria Madalena, incluía-se nos santos favoritos do cardeal Del Monte; foi pintada por sugestão deste prelado quando Caravaggio estava hospedado no seu Palácio Madama. 

O quadro representa Santa Catarina de Alexandria, que, de acordo com a tradição cristã, foi uma virgem santa, martirizada no início do século IV sob o imperador romano Magêncio, ou Maximino Daia. De acordo com sua hagiografia, Catarina era uma princesa e uma erudita notável, que se converteu ao cristianismo por volta dos quatorze anos, e que depois converteu centenas de pessoas ao Cristianismo, tendo sido martirizada pela religião que professava por volta dos 18 anos de idade. 

A postura da Santa Catarina é animada por uma expressão vívida do olhar que dá um efeito de espontaneidade à cena associado à cumplicidade da luz que jorra de cima e da direita. A Santa Catarina é representada como uma mulher moderna, nobre, vestida com roupas luxuosas, descansando sobre uma almofada de damasco, com apenas uma subtil auréola a indicar a santidade (muito rara, se não mesmo a única na iconografia do pintor), mas sem os raios de luz divina, seios nus ou lábios entreabertos como na tradição figurativa, mas pálida e humana, com um olhar interrogativo que, como sublinha Robb, denota a incerteza e os dedos pousados sobre a lâmina longa que já está avermelhada indicam o sangue do martírio. 

A figura da Santa Catarina domina completamente a pintura, podendo o fluxo de luz que vem de cima ser um símbolo da graça divina. Atrás da Santa Catarina vê-se uma representação realista de um instrumento de tortura, a roda dentada, de que se vêm os raios de madeira e dois dentes laterais ao alto, que, no entanto, está desconjuntada, faltando cerca de um quinto do aro exterior, sendo uma referência à lenda do seu martírio, segundo a qual a roda de tortura a que ia ser sujeita se quebrou. Sobre o travesseiro está um símbolo da iconografia tradicional do martírio, a palma, que cruza a lâmina sangrenta (reflexo do travesseiro) da espada com a qual ela foi decapitada.

Para o semblante da Santa Catarina, Caravaggio usou o rosto de Fillide Melandroni, conhecida prostituta em Roma de quem se apaixonou e que seria a causa de muitos males dele. Fillide foi de novo retratada por ele em Conversão de Madalena, em Judite e Holofernes e num retrato que foi destruído em Berlim durante a II Guerra Mundial.”  

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Catarina_de_Alexandria_(Caravaggio)

 

Tudo pelo emprego

Charge do dia 



Iotti

De Lisboa a Singapura

Eu amo mapas 


A mais longa viagem de trem!

Mais uma narrativa



“Palavras em voga na língua, em detrimento 
de outras até há pouco usuais” - Ruy Castro

 

 

Poucas coisas são tão vivas quanto a língua que falamos. Ela muda com velocidade de um raio, e basta um raio para que surjam palavras novas, para que palavras velhas ganhem novos significados, sem contar a inevitável intromissão das línguas estrangeiras, sempre tentando furar nosso teto linguístico.

            Os mais jovens criam com naturalidade e sem-cerimônia novos usos para as palavras; os mais velhos, os rabugentos, possuídos pela ‘missão de preservar a pureza da língua’, reagem vociferando em vernáculo puro. De nada adianta reagir.

            Foi o que aconteceu recentemente com a palavra ‘narrativa’. (Tenho a impressão de que a CPI da Covid, realizada pelo Senado Federal, acabou por selar a mudança, depois da narrativa ser empregada milhões de vezes em cada sessão.) Bom rabugento que sou, tomei por ela pavorosa ojeriza. 

            O grande Ruy Castro escreveu sobre o assunto hoje na Folha de S.Paulo, com a precisão de sempre. 

 

“Narrativa, até há pouco, era uma narração, uma história, um conto. "Os Lusíadas", de Camões, era uma narrativa poética; "Dom Casmurro", de Machado de Assis, uma narrativa de ficção; "Os Sertões", de Euclides da Cunha, uma narrativa histórica. Mas a palavra caiu para a 2ª divisão. Narrativa é agora uma história fabricada, que se tenta impor como verdade, e assim a tratam os políticos. Quando um deles é acusado de roubar ou mentir, diz que isso é uma "narrativa". Claro que essa resposta também é uma "narrativa".

 

            Narrativa virou sinônimo de mentira! Adotaram o novo significado políticos, comentaristas de política e, por que não, cronistas e desocupados... E salve salve a língua brasileira! 

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2021/12/chovendo-pacas-nao-o-bicho.shtml

 

Paula acima do nível do mar

A  foto do dia


 
Paula Vianna em Fernando de Noronha

Dez 2021

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Questão de hermenêutica

 


Francisco, durante a coletiva no avião papal

no retorno de sua viagem ao Chipre e à Grécia

 

 

Recentemente, relatório elaborado por uma comissão independente criada pela Comissão Episcopal francesa sobre os abusos sexuais cometidos durante sete décadas estimou os casos em cerca de 300.000. 

O papa Francisco regressou na manhã desta segunda-feira de sua viagem ao Chipre e à Grécia e deu coletiva a bordo do avião papal. Daniel Verdú, em matéria para El País intitulada Papa Francisco sobre abusos do arcebispo de Paris: “Pecados como orgulho e ódio são mais graves que os carnais” (6 dez 2021), afirma:

 

“[O Papa] surpreendeu ao comentar os detalhes da renúncia, na quinta-feira passada, do arcebispo de Paris, Michel Aupetit, a quem defendeu afirmando que se tratava de um tema de reputação e revelando que Aupetit havia praticado apenas “pequenas massagens e carícias” em sua secretária. “Os pecados da carne não são os mais graves”, afirmou o Papa. “Os mais graves são os pecados como o orgulho e o ódio”, completou.”

“O Pontífice afirmou que os abusos de 70 anos atrás e o acobertamento da época não podem ser julgados sob a ótica atual.”

            “Por outro lado, como já fez em outras ocasiões, Francisco surpreendeu pedindo que parte desses fatos e, em geral, todos os abusos e seus acobertamentos, sejam julgados sob a ótica daquela época. “Quando esses estudos são realizados, é preciso estar atento às interpretações realizadas num período tão longo. Existe um risco de confundir o modo de enfrentar um problema 70 anos depois. Uma situação histórica deve ser interpretada com a hermenêutica da época, não com a nossa. (Grifo meu.) A escravidão, os abusos de 100 anos atrás, por exemplo, nos parecem uma brutalidade. O mundo era outro, havia outra hermenêutica. No caso da Igreja, acobertava-se... era uma coisa que acontecia nas famílias e nos bairros. Hoje dizemos que não funciona. Mas é preciso interpretar com a hermenêutica de cada época”, afirmou.”

            E Verdú conclui: “A teoria do Papa não é fruto de uma resposta improvisada numa entrevista coletiva. Ele a repetiu outras vezes e costuma incomodar enormemente as vítimas, que não encontram nenhuma perspectiva histórica possível para interpretar o estupro de um menor ou o fato de que a cúpula eclesiástica tenha acobertado os criminosos que o fizeram. Ou, ainda pior, que o continuem fazendo. Inclusive se a teoria fosse aceita, consideram, não se trata de uma perspectiva de séculos, mas de poucas décadas.”

 

            Ao terminar a leitura do artigo no El País, tenho dificuldade para comentar as declarações do Papa. Sinto náuseas. Talvez em outro momento.

 

https://brasil.elpais.com/internacional/2021-12-06/papa-francisco-sobre-abusos-do-arcebispo-de-paris-pecados-como-orgulho-e-odio-sao-mais-graves-que-os-carnais.html#?rel=lom