sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Estupro de crianças


62 mil crianças foram estupradas nos últimos quatro anos no Brasil. Reportagem de Cristiane Noberto (22 out 2021) para o Correio Braziliense.

“No Brasil, 179.277 crianças e adolescentes, entre 0 a 19, foram vítimas de estupro entre 2017 e 2020. 

Do total, crianças de até 10 anos são 62 mil das vítimas, ou seja, um terço dos registros. 

Os dados fazem parte do Panorama da Violência Letal e Sexual contra Crianças e adolescentes no Brasil, levantamento do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em conjunto com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, lançado na manhã desta sexta-feira (22/10).

Uma média de 45 mil crianças e adolescentes foram estuprados nos quatro anos abordados no estudo. A maioria dos casos é contra meninas, quase 80% do total. A maioria foi abusada entre 10 e 14 anos, com prevalência aos 13 anos.

Já entre os meninos, os casos de violência sexual concentram-se especialmente entre 3 e 9 anos de idade. “Nos últimos quatro anos, foram estupradas no Brasil mais de 22 mil crianças de 0 a 4 anos, 40 mil de 5 a 9 anos, 74 mil crianças e adolescentes de 10 a 14 anos e 29 mil adolescentes de 15 a 19 anos”, diz trecho do estudo.

Mato Grosso do Sul tem pior taxa

Os dados de 2020 mostram que Mato Grosso do Sul tem a pior taxa de estupros do Brasil. Foram registrados no ano 186 a cada 100 mil habitantes. Os números são seguidos por Rondônia (146,2), Paraná (139,7), Mato Grosso (136,5) e Santa Catarina (135,2). Por outro lado, segundo o estudo, os estados do Centro-oeste mostraram redução dos casos ao longo dos anos.”

 

E agora, dizer o quê sobre isso tudo? Apenas indignação, dor, sofrimento. Mas também falta de políticas públicas, há séculos, para atacar o problema.


 

https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2021/10/4957297-62-mil-criancas-foram-estupradas-nos-ultimos-quatro-anos-no-brasil.html

 

 

 

Amor e dor



 Amor e Dor, de Edvard Munch
pintada entre 1893 e 1895
 

A obra recebeu o título de A vampira, dado pelo crítico Stanisław Przybyszewski, amigo de Munch. 

A pintura mostra um homem e uma mulher de longos cabelos vermelhos, se abraçando. A mulher parece beijar ou morder o pescoço do homem. O próprio Munch sempre afirmou que não mostrava nada mais do que "apenas uma mulher beijando um homem no pescoço".

Munch pintou várias do mesmo tema. Três versões estão na coleção do Museu Munch em Oslo, uma é mantida pelo Museu de Arte de Gotemburgo, outra é propriedade de um colecionador particular.  

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Amor_e_Dor

Novo Museu Edvard Munch em Oslo





 

“Nesta sexta-feira (22), o Museu Munch muda-se para o centro da cidade, dentro de uma torre espaçosa e moderna.

"Pode ser o maior museu dedicado a um único artista", disse o diretor do museu Stein Olav Henrichsen.

Com 13 andares e mais de 26.000 metros quadrados, o novo edifício apelidado de "Lambda" oferece cinco vezes mais espaço de exposição do que o edifício sombrio que até agora abrigava o tesouro nacional no popular bairro de Tøyen. 

Solteiro e sem filhos, Munch (1863-1944) legou sua obra à cidade de Oslo, escolhida em sua velhice em detrimento do Estado norueguês. Herdeiro inicial, o país caiu nas mãos da Alemanha nazista, que considerava este pioneiro do expressionismo um representante da "arte degenerada".

Como não poderia ser diferente, a coleção contém "O Grito", emblema do museu apresentado em diferentes versões, e outras obras importantes como "Amor e Dor", "Madonna" ou "A menina doente". 


https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2021/10/22/interna_internacional,1316108/museu-edvard-munch-inaugura-casa-monumental-em-oslo.shtml 

No ringue

Outra charge do dia,

ainda melhor! 


André Dahmer

Falta humanidade!

Charge do dia 



Amarildo

Se me perguntam...

 



Se me perguntam que manifestação será a mais legítima nesses dias sombrios que vivemos, respondo que é a de Indignação. Impossível não se indignar diante de mais de 600.000 mortes de compatriotas nossos, grande parte das quais poderia ter sido evitada. José Saramago, nosso Nobel da Língua Portuguesa, não cansava de enfatizar que não podemos perder a capacidade de nos indignar.

 

Se me perguntam que pré-requisito dever ser exigido em toda e qualquer manifestação, respondo que é a Verdade. O fenômeno das fake news, tão difundido por parcela da população que se identifica com os governos de extrema direita em todo o mundo, deve ser deve ser visto como praga tão letal quanto o coronavírus. A mentira propaga a morte cultural de uma sociedade e deve ser combatida sem descanso.

 

            Se me perguntam qual a forma de manifestação mais adequada para o momento, respondo que todas as formas são válidas e necessárias, exceto as que se utilizam da Violência. Cabem manifestações pacíficas de rua, artigos publicados em jornais e revistas, postagens em redes sociais, sites e blogs, discussão em variados grupos e universidades, entrevistas no rádio e televisão, enfim, tudo que possa levar informação confiável à população. O bom uso da palavra será sempre indispensável, com respeito à língua e às pessoas, com civilidade, sem grosserias, forma digna de demonstrar empatia para com os mais desvalidos.

 

            Se me perguntam que outra manifestação fundamental precisa ser exercida em prol de um país melhor, de um mundo melhor e mais justo, repondo que é aquela em defesa intransigente da Educação. Apenas a Educação haverá de permitir que o povo saiba escolher com razoável propriedade seus governantes, e exigir que estes cuidem da saúde e bem-estar social do país. O incentivo à Leitura é meio relativamente simples e bastante eficaz; Antonio Candido afirmava que “a literatura é, ou ao menos deveria ser, um direito básico do ser humano, pois a ficção/fabulação atua no caráter e na formação dos sujeitos”. 

 

Se me perguntam qual esteio deve amparar nossa manifestação em defesa de valores éticos, respondo que é a Ciência. O progresso lento, porém contínuo, que a Ciência apresenta ao longo da História a qualifica como porto seguro para a humanidade. A Ciência não sabe tudo, não pode tudo – ela é produto do homem e sua falibilidade –, mas aprendeu a reconhecer seus próprios erros e corrigi-los através da busca incansável da verdade. Apoiar o desenvolvimento da ciência e tecnologia é dever de todo governo inteligente e responsável.

 

            Se me perguntam que manifestação deverá ser evitada a todo custo, respondo que é aquela que defenda qualquer forma de Fundamentalismo. Este é o nascedouro de radicalismos extremos, políticos, religiosos ou de qualquer natureza, nutridos pela intolerância às diferenças. O ódio é seu alimento.

 

            Se me perguntam o que não deve ser permitido nesses dias sombrios, respondo que é a Omissão, verdadeira manifestação de cegos surdos que não desejam nem sabem pensar, os chamados negacionistas. 

 

 


Em tempo:

 

O tema do Lugar de Fala, da revista Cult, para o mês de setembro foi “Manifestação”. Perdi o prazo para o envio, de modo que meu texto não pôde ser publicado. 

Aparece agora no blog.

 

California, EUA

Eu amo mapas 


Mapa topográfico do Estado da Califórnia

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

A flor e a náusea

 

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

 

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

 

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

 

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

 

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

 

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

 

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

 

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

 

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em 
pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

 


Carlos Drummond de Andrade

A rosa do povo, 1945

In Poesia Completa, Nova Aguilar, 2002

 

 

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Desastre

Charge do dia


Duke

https://domtotal.com/charge/3460/2021/10//


Em tempo: os jumentos não merecem...

 

Do hábito de fotografar

 

Foto: Cecília Vianna (out 2021)

 

Uma mulher acorda com o nascer do sol, olha pela janela, vê a paisagem, observa a atmosfera. Toma da máquina fotográfica, sai ao jardim e registra a névoa da manhã.

            Fotografar é olhar, ver, observar. Ver o real, com olhos de poesia. Só então registrar aquilo que observou.

            Fotografar é registrar o presente. O hábito de fotografar – como o da mulher que acorda e congela o instante –, traz o sujeito para a vida presente, a única que pode ser verdadeiramente vivida. Impossível fotografar (ou viver) o passado, embora a fotografia possa representar sua memória; impossível fotografar (ou viver) o futuro. 

            Em fotografia, ver o real com olhos de poesia recebe o nome de enquadramento. Enquadrar resume a arte da fotografia. Enquadrar é limpar o terreno baldio, remover o entulho, encontrar a pérola despercebida. 

Com a imagem, ficará registrado o sentimento de quem a fotografou, como por exemplo, a saudade.

            Ao revelar sua obra o fotógrafo ouvirá, Ficou mais bonito que o original! O original é o que é, nem bonito nem feio, como a natureza. O original é atemporal. Daí que o artista busca quase sempre [enquadrar] a presença da figura humana, que dá à paisagem a condição do tempo presente. No futuro, ao rever a fotografia, a figura humana ainda haverá de ocupar a posição central para quem a observa.

            O fotógrafo observa, enquadra, respira profundamente, expira lentamente e só então dispara; para ele, esta é a definição do instante presente. É o que vale a pena ser vivido.